Dados de estado vacinal de internados apresentados pela DGS são de agosto

Informação apresentada na reunião do Infarmed e nos relatórios semanais tem mais de dois meses de desfasamento.

Os dados mais recentes que a Direção-Geral da Saúde tem vindo a publicar sobre risco de hospitalização de doentes internados com covid-19 em função do estado vacinal, ontem apresentados publicamente na reunião do Infarmed, reportam ao mês de agosto. Já depois da apresentação, o relatório semanal das linhas vermelhas voltou a trazer informação que, embora tendo sido atualizada pela última vez a 10 de novembro, se traduz naquilo que era o risco de hospitalização por estado vacinal em agosto,  com dois meses de desfasamento.

A DGS não respondeu nas últimas semanas ao pedido de informação mais atualizada e, ontem, questionada mais uma vez pelo Nascer do SOL, não esclareceu por que motivo só é possível apresentar dados com este desfasamento. No relatório das linhas vemelhas pode ler-se apenas que  «a consolidação dos dados dos internamentos por estado vacinal só ocorre um a dois meses após o diagnóstico, pelo que o risco de hospitalização é apresentado com maior atraso que o risco de morte (letalidade)». A informação disponível é então que, entre 1 e 31 de agosto, os casos com esquema vacinal completo parecem apresentar um risco de hospitalização aproximadamente duas a cinco vezes inferior aos casos não vacinados, com aumento face ao mês anterior do risco de internamento de pessoas no grupo dos 70-79 e mais de 80. 

Ao que o Nascer do SOL apurou, um dos motivos para o desfasamento da informação prende-se com ser preciso cruzar dados de diferentes bases de dados, os registos hospitalares, os registos das vacinas e os registos do Trace-Covid, dados pseudo-anonimizados e cujo cruzamento está dependente de autorizações da Comissão Nacional de Proteção de Dados – um processo moroso. 

Durante a reunião, a importância de acesso e divulgação de dados foi salientada por dois intervenientes, com diferentes prismas. Margarida Gaspar de Matos, coordenadora da task-force de Ciências Comportamentais aplicada ao contexto COVID-19, defendeu a necessidade de informação clara, precisa e atempada à população, nomeadamente sobre quem são os doentes internados. «Estes dados normalmente não são suficientemente divulgados na comunicação social», disse, referindo que a maioria das pessoas em UCI e que faleceram não estavam vacinadas. Os últimos dados sobre óbitos, republicados já ontem pela DGS, reportam a outubro e mostram que nesse mês ocorreram 132 óbitos em pessoas com esquema vacinal completo (80%) e 33 (20%) em pessoas não vacinadas ou com esquema vacinal incompleto, com o reforço da terceira dose a visar  aumentar a proteção dos mais idosos, com maior risco e desvanecimento da proteção mais rápido. Em outubro foram, no entanto, reportados 183 óbitos associados à covid-19, pelo que haverá casos sem registo.

Já um segundo repto foi deixado pelo coronel Penha Gonçalves, que assumiu o grupo de coordenação da vacinação após a saída de Gouveia e Melo. Aludindo ao alargamento do reforço a grupos mais frágeis e expostos, manifestou a necessidade de mais informação. «Precisamos de tomar opções de planeamento que têm a ver com organização destes diferentes grupos e precisamos de ter acesso a dados de vacinação, que temos, acesso a dados de infeção e a dados de hospitalização para fazermos esta priorização na base de quem está mais exposto e mais frágil», disse.