Economia

Pedro Gouveia Alves. "O Montepio não pode continuar a dar-se ao luxo de perder dinheiro"

O atual presidente do Montepio Crédito e líder da lista D quer renovar a liderança da Mutualista. E não hesita: ‘Temos de acabar com a aventura da continuidade e da contínua desvalorização dos ativos’ do grupo.  Em relação ao banco defende a sua estabilização e só depois abrir o seu  capital, mas apenas a entidades da economia social.


Está há mais de 20 anos no grupo. Qual foi o motivo que o levou a candidatar-se à liderança da Associação Mutualista?

Há vários motivos. A primeira é que o Montepio não pode continuar a dar-se ao luxo de perder dinheiro. Nós, enquanto profissionais de gestão, responsáveis, pessoas da casa, com o conhecimento que temos da situação do grupo e assistindo a este ciclo de desvalorização ao longo destes últimos anos, o que fizemos, de forma abnegada, foi colocarmo-nos ao serviço da Associação Mutualista para servir os associados.

São 600 mil e quase quatro mil postos de trabalho em todo o grupo. Achamos que a Associação Mutualista precisa de um ciclo de regeneração. Neste sentido, reunimos um conjunto de profissionais com provas dadas e com uma média etária de 52 anos, que permite assegurar essa regeneração e abrir um ciclo de valorização dos ativos do Montepio e da Associação Mutualista. 

Os restantes elementos da lista têm essa experiência?

Há alguns com mais tempo de idade no grupo Montepio do que eu. Mas há uma diversidade grande: há quadros que estão no ativo, há quadros que deixaram de estar no ativo porque, entretanto, se reformaram ou antecipadamente ou rescindiram por mútuo acordo, mas são profissionais que conhecem muito bem a casa. Temos valências muito diversificadas, que vão desde a área de gestão de riscos à área de gestão financeira, passando pelo controlo interno, comercial, etc. Temos também duas grandes mais valias na nossa equipa na área da relação da sociedade civil e com as entidades na economia social: Paula Guimarães e Fernanda Freitas. 

É desta vez que a economia social vai sair do papel para ser posta em prática? 

É. Estamos muito centrados na regeneração, uma vez que, a economia social nos países mais desenvolvidos – nomeadamente os países anglo-saxónicos, do Norte e do centro da Europa – assume um papel preponderante. Em Portugal, o peso da economia social no valor acrescentado bruto é de 6,5%, enquanto em outras economias chega a ter 15%.

Achamos que as gerações mais novas esperam de entidades da economia social e, nomeadamente do mutualismo, uma participação muito mais ativa na melhoria da qualidade de vida das pessoas, principalmente as pessoas que estão na vida ativa, que vivem do rendimento do trabalho e que complementam as suas poupanças com a subscrição de modalidades mutualistas de previdência e de proteção que lhes permita assegurar essa qualidade de vida mesmo quando chegarem à idade pós-ativa, ou seja, à idade em que vão necessitar de ter um apoio complementar uma vez que o sistema de Segurança Social público não vai ter capacidade de acorrer a todas as pessoas.

Acaba por ser uma alternativa...

Um complemento muito importante. As sociedades mais desenvolvidas enfrentam um crescimento significativo da longevidade e isso não é um problema, é uma conquista da ciência e da sociedade em geral. Mas aí, a Associação Mutualista deve assumir o protagonismo de apresentar soluções que permitam às pessoas viverem mais tempo mas com qualidade de vida.

E, como tal, é necessário reforçar as nossas respostas em termos de complemento de reforma e de assistência de apoio domiciliário porque, naturalmente a partir de uma determinada idade, vão necessitar de maior apoio de saúde, quer domiciliário, quer reforço do acesso dos associados às residências Montepio. Estas são o maior operador de cuidados seniores em Portugal e têm um papel muito importante a desenvolver. 

Mas não acessível a todos...

O que acontece hoje é que a rede de residências Montepio está adstrita numa parte muito significativa à rede de cuidados continuados pública, não permitindo o acesso por parte dos associados à capacidade instalada que a rede tem. O que nos propomos fazer com as residências Montepio é, em primeiro lugar, trabalhar ativamente com as residências Montepio e com as entidades da economia social no sentido de criar uma rede de apoio domiciliário nacional. Em segundo lugar, facilitar o acesso por parte dos associados às residências Montepio e dar-lhes essa prioridade. E em terceiro lugar ainda, agarrar nas ofertas das modalidades mutualistas que temos, de modo a que, ao longo dos ciclos de vida das famílias, seja possível assegurar uma poupança que, no futuro possa ser utilizada para complementar a reforma e que possa permitir o acesso a cuidados de saúde e, nomeadamente, a cuidados de saúde prestados pelas próprias residências Montepio. 

Neste momento existe um cartão de saúde...

Em 2017 foi aprovada a constituição de uma comissão para a revisão do regulamento de benefícios cujo objetivo era reestruturar a oferta de modalidades mutualistas. Essa comissão foi aprovada em assembleia geral, trabalhou na revisão desse regulamento e o resultado desse regulamento nunca viu a luz do dia. Sei disso porque fiz parte dessa comissão.

Dessa revisão do regulamento de benefícios constava o lançamento da modalidade mutualista de saúde. E aquilo que foi feito em 2017 foi lançar o cartão Montepio Saúde que, ainda assim, foi um avanço muito significativo do ponto de vista de condições a disponibilizar aos associados, nomeadamente no acesso a uma rede convencionada com preços muito mais vantajosos. Mas é um cartão de descontos, não é um cartão de cobertura de riscos de saúde. O que foi feito posteriormente por este mandato e que está em curso foi o lançamento de seguros de saúde com a Lusitania. O que propomos é reativar aquilo que foi consagrado em 2017 na nossa proposta de revisão do regulamento de benefícios. 

Como funcionaria?

Só é possível apresentar esta oferta aos associados em parceria com outras mutualidades, nomeadamente francesas que já têm estes esquemas de saúde implementados. Defendemos que esta oferta de saúde tenha a possibilidade de reduzir períodos de carência aquando da adesão à modalidade, que alargue as patologias que estão cobertas pelos riscos e que tenha a possibilidade de os associados poderem aderir à modalidade mutualista até uma idade mais avançada, que é uma coisa que os seguros de saúde não permitem.

Mas com pagamento normal ao contrário deste cartão de saúde que é gratuito.

O cartão de saúde é um cartão de acesso a uma rede de descontos, uma rede convencionada. Aqui estamos a falar de cobertura de riscos. As situações em que um associado tem uma fatalidade qualquer de saúde, nível ambulatório, cirúrgico, oncológico, etc. Esta candidatura tem uma visão muito ampla e muito específica sobre aquilo que a Associação Mutualista deve fazer em termos da sua centralidade na sociedade portuguesa. E temos de saber responder a duas questões: qual a estratégia e porque razão a sociedade portuguesa e os portugueses precisam de uma associação mutualista.

O conceito do mutualismo ainda não é bem percetível?

Por isso é que nos propomos a responder a estas questões porque entendemos que somos os melhores na sociedade portuguesa para servir a população portuguesa e, em concreto, os associados. Representamos 600 mil portugueses e não temos acento no conselho económico e social. Achamos que devemos ter por direito próprio esse acento, como devemos fazer parte de outras organizações.

Há uns anos, com outra liderança, houve uma tentativa de abrir o capital a algumas entidades externas, nomeadamente a Santa Casa e foi um fracasso...

O capital que se tentou abrir foi o do banco. Sendo a Caixa Económica Montepio Geral uma instituição de raiz mutualista, de raiz social, deve desenvolver a sua atividade em parceria com entidades de economia social. Seja a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, sejam outras entidades de economia social que acabaram por entrar no capital embora de forma simbólica. Mas, em primeiro lugar, temos de estabilizar o valor do banco e só depois abrir o capital do banco a outras entidades – preferencialmente de economia social portuguesas e internacionais.

Têm que ter a mesma visão?

Claro que sim. O banco não deve abrir capital a entidades que não tenham natureza da economia social. E isso só é possível quando apresentarmos uma verdadeira e concreta proposta de valor para estes novos investidores da economia social. Numa situação em que o banco, como os outros ativos da associação mutualista, estão numa fase de desvalorização, naturalmente é difícil apresentar uma proposta de valor que capte investidores da área social.

Só quando estabilizarmos esse valor, quando conseguirmos voltar a retomar uma rentabilidade de capitais próprios adequada é que é possível abrir o capital seja do banco, seja das seguradoras ou outras entidades. Até lá, o que temos de fazer é trabalhar muito na estabilização destes valores e que é feita através de rigor na gestão. Desde logo na conceção de planos de negócio.

Os planos de negócio, quer do banco, quer das seguradoras, quer das sociedades gestoras de fundos têm que ser planos de negócio ambiciosos em termos de remuneração dos capitais próprios que são investidos pela Associação Mutualista nestas participações.

A ideia que dá é que ‘agora há uma injeção de capital’ e se for preciso o episódio volta a repetir-se. É essa a falta de rigor que existe?

Foi o que aconteceu nos últimos anos. Nos últimos anos temos vindo a assistir a um consumo muito significativo de capital por parte de todas as participadas da Associação Mutualista. Salvo raríssimas exceções e isso prende-se essencialmente com a dificuldade que tem havido por parte das participadas em gerar valor para remunerar os capitais próprios.

Fala-se, por exemplo, que ‘estas entidades tiveram uma enorme dificuldade durante a pandemia e, portanto, tiveram resultados negativos’. Bom, o grupo Montepio foi o único que teve entidades da banca e seguros a dar resultados negativos durante a pandemia. Todos os outros deram resultados positivos. Por isso, o problema é estrutural. O tema é o rigor na gestão que é preciso imprimir a estas entidades. 

Também a vida interna do grupo não tem sido fácil com a instabilidade interna que se vive...

É necessário reforçar a equipa de gestão do banco neste novo mandato. O banco está num ciclo de final de mandato e, naturalmente, há a necessidade de eleger uma nova administração para um mandato de quatro anos no primeiro quadriénio de 2022.

Não vou tecer nenhuma consideração sobre a qualidade da gestão dos atuais administradores até porque estaria a entrar em conflito com a política de gestão e com o código de conduta ao qual estou sujeito. Há uma coisa que a nossa candidatura defende é que seja em que participada for da Associação Mutualista há vários princípios que as equipas de gestão têm que responder: em primeiro lugar a identificação inequívoca com a natureza mutualista do grupo e com os valores da associação mutualista. 

A Mutualista é a casa mãe....

É a casa mãe. O banco tem de respeitar o que está consagrado no código das sociedades comerciais que é a independência de gestão da equipa de gestão, que respeitamos e respeitaremos sempre, agora não deixa de ser um ativo da associação mutualista, onde existe uma estratégia, princípios e objetivos a cumprir. Mas tem de haver uma identificação com o mutualismo, em segundo, competência e, em terceiro, experiência nas diversas matérias. Um ponto que é absolutamente incontornável na nossa gestão é que iremos dar sempre prioridade às escolhas de quadros internos.

O grupo Montepio tem pessoas muito qualificadas, com grande talento, com grande experiência profissional, com provas dadas em diversas áreas. Tem uma equipa que a determinada altura foi completamente rejuvenescida e que hoje apresenta um grau de experiência e um grau de qualificação bastante elevados que não ficam aquém de nenhuns outros no mercado. Só depois de esgotadas todas as possibilidades dentro é que iremos buscar fora. E isto serve para todos: para a atual equipa de gestão, para a futura equipa de gestão. 

Uma das prioridades que dá no programa é a valorização do capital humano. Essa promoção interna tem esse objetivo?

Não podemos andar a dizer ao mercado e aos associados que somos uma associação de pessoas para pessoas, pois não somos uma associação de capital – a Associação Mutualista não tem capital social onde investidores invistam e comprem ações – e depois andarmos a não bem tratar as pessoas que fazem parte do capital humano do grupo. Uma das nossas prioridades são a valorização do capital humano que permita, por essa via, melhorar os resultados.

Pessoas motivadas têm capacidade para gerar proveitos 40 ou 50% a mais do que aquilo que geram hoje. Há uma expressão que me recordo. Entrei para o grupo Montepio em 1999 e quem me acolheu foi Costa Leal e há uma frase que dizia: ‘Antes de dispensarmos pessoas, temos que pensar se temos pessoas a mais ou negócio a menos. É porque acho que temos claramente negócio a menos’.

Isso está refletido com a saída de 400 trabalhadores?

Todos os indicadores do grupo apontam para um potencial de crescimento de proveitos tendo em conta a nossa base de associados, o que mostra que há um trabalho enorme pela frente. Estamos muito convictos de que um programa de valorização das pessoas e de motivação interna permitirá alavancar significativamente os resultados e será decisivo no crescimento dos proveitos e na rentabilidade de capitais próprios do grupo no futuro.

Se isso tivesse sido feito poderia ter evitado as saídas?

Não tenho dúvidas disso. Acho que não foi dada oportunidade às pessoas de poderem demonstrar a sua capacidade de melhorar a geração de proveitos. Em qualquer participada, não estou a falar só do banco.

Em relação aos produtos mutualistas, durante muito tempo houve uma grande instabilidade não só da associação mas de todo o grupo. Isso não poderá ter ‘afugentado’ as poupanças dos portugueses?

Acho que houve muito ruído em torno da Associação Mutualista. Não gosto muito de falar de outras listas mas há uma candidatura que diz que não podemos enveredar por aventuras e temos que acabar com o ruído. Não posso estar mais de acordo. Temos que acabar com a aventura da continuidade e da contínua desvalorização dos ativos da Associação Mutualista. Acho que é uma aventura. Os associados têm que ponderar muito bem nestas eleições, escolher entre aquilo que é o passado e aquilo que é o futuro. E o futuro da Associação Mutualista é um futuro de valorização. Não é um futuro de contínua prova de desvalorização dos nossos ativos. Temos que acabar com essa aventura da continuidade.

Somos pessoas sérias, responsáveis e profissionais. Queremos inverter este ciclo mas com a responsabilidade de que o que está bem é para continuar e o que está menos bem ou o que está mal é para melhorar. Por outro lado, em relação ao ruído, este prende-se com os maus resultados da Associação Mutualista.

A partir do momento em que invertermos este ciclo de desvalorização contínua que fez cair os capitais próprios em base consolidada em 2017, 495 milhões de euros para 84 milhões de euros em 2020, ou seja, houve um decréscimo de capitais próprios na Associação Mutualista de 83% em quatro anos. Ora, isto deve-se a quem? Deve-se aos profissionais gestores que estão neste momento a ser apresentados na lista D como proposta às eleições? Não. Deve-se a quem está na gestão pelo menos desde há seis anos a esta parte. 

A lista de continuidade acena com aumento do número de associados e de captação de poupanças.

Isso faz-me lembrar as eleições autárquicas e as inaugurações à pressa. Inauguram novos equipamentos desportivos, novas estradas, tapam os buracos das estradas antes das eleições. Tudo isso é uma grande falácia. Quando se fala no aumento da receita associativa, este está muito alicerçado nas modalidades de capitalização que vão vencendo. Ora, se houver 400 milhões de modalidades de capitalização a vencer num ano e se foram aplicados 400 milhões, a receita associativa desse ano é 400 milhões.

O que posso dizer é que o ano 2022 vai ser muito melhor que o ano 2021 por uma razão muito simples: porque no próximo ano vão vencer modalidades de capitalização a prazo certo a cinco anos de 700 milhões de euros. Muito mais do que este ano e muito mais que no ano passado. Quando fazemos essas comparações, são falaciosas, artificiais. 

Por isso fala na necessidade de haver alguma honestidade nas contas?

É preciso haver muita honestidade na forma como se apresentam estes indicadores aos associados. Quando se diz, ‘em nove meses conseguimos inverter e temos resultados positivos’. Bem, o ano passado também tínhamos e depois fechámos com resultados negativos.

O ano passado, por esta altura, também tínhamos resultados positivos. E fechámos com resultados negativos porquê? Como dizia João Pinto, ‘prognósticos só no fim do jogo’. As contas do ano fecham-se em março do ano seguinte. As contas deste ano vão ser fechadas em março de 2022 e aí já não há eleições. Depois vamos ver quais são os resultados de 2021.

Somos uma equipa muito consciente e muito responsável que quer o melhor para a associação e saudamos muito a evolução positiva em número de associados que ocorreu ao longo destes meses. Agora, essa evolução do número de associados também não é completa em relação à sua leitura. O número de associados subiu de 598 mil em 2020 para 602 mil e qualquer coisa até setembro de 2021 muito alicerçado na dinâmica do crédito à habitação do banco.

Ora, no crédito à habitação do banco, uma parte muito significativa dos clientes torna-se associado por via da modalidade de proteção ao crédito. Aquilo que nos aflige é que a maior partes destes associados nem sequer sabe que é associado. Acho extraordinário como é que se vem dizer ‘conseguimos crescer três mil associados’. Bem, conseguimos crescer três mil associados mas do início do mandato até agora foram perdidos 27 mil. É ótimo crescer três mil associados? Não. 

Deve-se à falta de confiança?

Não é falta de confiança. Acho que a Associação Mutualista já deu provas que permite ter uma relação de confiança com a sociedade. Por isso é que tem 181 anos. Existe uma relação intergeracional muito forte, dos avós para os netos, dos pais para os filhos, dos padrinhos para os afilhados e essa relação intergeracional é aquilo que mais caracteriza a Associação Mutualista. Queremos dinamizar a relação com os associados. Nas últimas eleições, em 2018, de mais de 500 mil associados com direito a voto, votaram 43.200. Temos que ser capazes de inverter isto.

E, na altura, a hipótese de votar era diferente...

Queremos que as pessoas votem e votem massivamente. E como é que se vota? Por correspondência já não é possível votar porque os associados tinham que solicitar o pedido de voto por correspondência até ao dia 29 de outubro. Daqui para a frente podem votar através da adesão no site e entre dia 13 e 17 de dezembro poderão exercer o seu direito de voto através da internet.

E vai haver também a possibilidade – e é uma das coisas que a nossa candidatura defendeu na última Assembleia Geral e que a Assembleia Geral não aprovou e agora a Comissão Eleitoral vem propor exatamente da mesma forma como apresentámos – de aproveitar o alargamento das mesas de voto a todas as capitais de distrito e concelhos com mais de sete mil associados. Isto permitirá um alargamento do voto presencial assegurando uma maior participação associativa uma vez que o número de pedidos de voto por correspondência foi extraordinariamente baixo. Gostaríamos muito que tivéssemos 100 ou 200 mil associados a votar. 

Fala em várias medidas para os primeiros 100 dias de mandato...

Subdividimos o nosso programa entre medidas para os primeiros 100 dias de mandato e propostas para quatro anos de mandato. E propostas muito concretas. Nos primeiros 100 dias de mandato temos que ser capazes de conseguir fazer a revisão integral do plano de convergência. Este foi apresentado à ASF por parte da atual gestão. A ASF fez a análise do plano de convergência, em setembro de 2020 e, mais tarde, em julho de 2021, a presidente Margarida Correia de Aguiar, veio afirmar publicamente que o plano de convergência da Associação Mutualista tinha sido rejeitado pela ASF e devolvido à tutela, o Ministério do Trabalho e da Segurança Social.

O curioso é que fico com a ideia que a atual gestão já sabia que o plano de convergência ia ser rejeitado. Nós defendemos este tipo de aproximações às autoridades e à tutela. Temos que ser transparentes Temos que ser transparentes e muito rigorosos na relação com a autoridade de supervisão e com a tutela.

Se existem situações de dificuldade, estas têm que ser discutidas previamente para que haja uma relação de confiança entre a Associação Mutualista e os associados e que dê confiança às modalidades mutualistas. Essa confiança sai redobrada quando a Associação Mutualista passa a ter supervisão da ASF. 

Antes desta alteração, os produtos estavam num limbo...

Até esta alteração, os produtos tinham a tutela e a supervisão do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. A tutela está muito orientada para a supervisão da parte do Governo, do modelo de Governo e da gestão global da Associação Mutualista. Já a ASF está muito focada nos produtos financeiros ou naqueles que se equiparem a produtos mais próximos daquilo que é a atividade seguradora e da atividade financeira.

Defendemos que a ASF terá um papel fundamental em vincular a Associação Mutualista a uma supervisão que confere confiança aos associados. Defendemos isso e nos primeiros 100 dias o que defendemos é uma revisão do plano de convergência e diálogo com a Autoridade e com a tutela. O segundo ponto diz respeito ao plano estratégico do grupo que deve ser vertido para os planos estratégicos das participadas.

Quanto ao Banco Montepio deve receber orientações estratégicas da Associação Mutualista, enquanto instituição titular. A gestão deve receber orientações claras sobre aquilo que é requerido do Banco Montepio, os objetivos que o banco tem que cumprir em termos de rendibilidade de capitais próprios e em termos de eficiência. Isto tudo em articulação com a autoridade de supervisão, que é o Banco de Portugal. Como também defendemos uma articulação contínua com a autoridade de supervisão.

Queremos avançar com cuidados para a longevidade e para a qualificação da longevidade com qualidade e pretendemos avançar nos primeiros 100 dias com uma rede nacional de assistência domiciliária para apoio domiciliário. E nos primeiros 100 dias também a revisão integral de sobreposições de serviços e dos respetivos meios afetos porque ainda existem muitas sobreposições de serviços dentro do grupo com muitos desperdícios. 

É o caso, por exemplo, do BEM?

O BEM pertence à esfera do Banco Montepio e isso será uma opção de gestão do banco e não da Associação Mutualista. Mas entendemos que essas orientações de evitar situações de sobreposição sejam consideradas por todas as equipas de gestão das empresas subsidiárias que compõem a Associação Mutualista. No caso do BEM deve haver uma revisão da estratégia no sentido de saber se existem ou não sobreposições de funções entre o Banco Montepio e o BEM. 

Mas faz sentido existir este projeto?

Defendemos que o Banco Montepio deva assumir-se como um banco verdadeiramente mutualista. Isto quer dizer que o banco tem de estar centrado nas famílias, nos indivíduos, nos pequenos negócios, nas PME e nas entidades da economia social. E estes são os segmentos estratégicos incontornáveis. A Caixa Económica foi criada em 1844 com um objetivo muito concreto: de assegurar confiança na guarda das poupanças das pessoas. Não podemos virar a cara àquilo que é a nossa gente e o banco Montepio deve voltar novamente a ser um banco sólido e um grande banco português da relação com as famílias, da relação com as pessoas. 

É fácil virar a página quando já foram comparados com o BES?

Essa comparação é completamente injusta. A Associação Mutualista é uma associação de pessoas e todos os seus recursos foram investidos dentro da sua própria associação Mutualista e das suas participadas. Nunca houve dinheiro que tenha sido captado junto dos associados ou junto dos clientes para serem aplicados em participações fora do grupo. É tão injusta essa comparação que o tempo veio provar que na realidade a Associação Mutualista e o grupo BES nada têm a ver uma coisa com a outra. 

Mas nessa altura, assistiu-se a uma fuga de depositantes...

Houve uma grande perda de confiança. Uma perda de confiança que faz parte do passado e que queremos arrumar na gaveta. Não temos enquanto quadros do grupo e enquanto profissionais de gestão esqueletos no armário. Não temos fantasmas do passado e estamos acima de tudo focados no futuro e naquilo que é o cumprimento dos objetivos da nossa candidatura. 

Quando diz que vai fazer um diagnóstico dos equilíbrios financeiros, isso poderá passar por uma auditoria?

O diagnóstico dos equilíbrios financeiros tem de ser feito com as equipas de gestão e de uma forma muito profissional. Saber o que é que as autoridades de supervisão pretendem, analisar o ajustamento da atividade da Associação Mutualista ao regulamento que se ajusta à atividade seguradora e com as suas respetivas adaptações e, dessa forma, estabelecer um plano de trabalho, uma vez que, considero que dos 12 anos de plano de convergência que foram consagrados no código das associações mutualistas – já passaram dois, faltam 10 – deve haver um diálogo franco, honesto e aberto com as autoridades.

Dez anos é insuficiente para fazer esse ajustamento. Além de que, e é uma crítica que faço à gestão do passado, e a esta gestão que tem dado continuidade, não existe um diálogo aprofundado com o poder legislativo que permita dizer ao poder legislativo quais são os fatores de diferenciação da Associação Mutualista relativamente a outras entidades. Andamos sempre com o passo desacertado: uma Associação Mutualista não é uma seguradora, a sua convergência para a atividade seguradora tem que atender às especificidades da Associação Mutualista e do mutualismo, assim como a Caixa Económica não é um banco igual aos outros.

E quando ficou sujeito a um novo regime jurídico das caixas económicas também não houve o cuidado de explicar ao legislador quais eram as diferenças entre uma Caixa Económica e os restantes bancos do sistema financeiro português. Não me recordo que alguma vez tenha havido uma tentativa por parte da gestão atual de promover reuniões com grupos parlamentares da Assembleia da República que é o poder legislativo em Portugal. E também não me recordo que tenha havido um esforço significativo no sentido de explicar ao Governo, quais as diferenças entre o Mutualismo, a Associação Mutualista e outras entidades que prosseguem valores de providência.

Por ser líder de uma lista que não é de continuidade, a sua tarefa de convencer os associados poderá ser mais difícil?

Acho que a lista de continuidade apresenta provas dadas de desvalorização e os associados querem hoje claramente uma mudança, mas uma mudança responsável. Querem uma mudança tranquila, séria, profissional e que confira à Associação Mutualista rigor na gestão, na estabilização dos valores, na valorização dos ativos da Associação Mutualista, que no fundo são o património dos associados. 

E já defendeu que a atual administração não consegue...

A atual administração já deu provas que não consegue. Quando vemos uma redução dos capitais próprios nesta magnitude, quando vemos os resultados negativos da Associação Mutualista, quando vemos ausência de participação associativa por parte dos associados, quando vemos que mais de 60% das modalidades subscritas são modalidades de capitalização, fugindo daquilo que é a génese mutualista de providencia e de proteção isso está muito claro.

Hoje, infelizmente, uma parte muito significativa da produção da associação mutualista é a reaplicação das modalidades mutualistas de capitalização. Não quer dizer que com isso que não é necessário porque é necessário para manter o equilíbrio económico e financeiro da Associação mas a prazo é uma coisa que não desejamos.

Queremos que as modalidades tenham um peso muito superior àquele que atualmente tem e que representa o peso mais baixo da sua história. Isto não é sustentável e queremos uma Associação Mutualista valorizada e com sustentabilidade, por isso, propomo-nos a inverter este ciclo.

Há quem diga que Tomás Correia apoia a sua lista...

Tenho alguma dificuldade em falar com Tomás Correia, quem privou mais com ele são os elementos da lista A que compunham a sua equipa e foram escolhidos por ele, como tal, poderão explicar melhor isso. Estou muito mais focado no futuro. Falar de pessoas que estejam por detrás da candidatura é desde logo uma desconsideração pelas pessoas que compõem esta candidatura que fez um trabalho muito sério junto dos associados, ao fazer o levantamento das suas necessidades, para fazer o seu programa eleitoral, a reunir pessoas e a compor uma lista.

Temos hoje uma lista para a Assembleia de representantes que é um orgulho enorme e é composta por pessoas de norte a sul do país. Fomos muito além do que os estatutos nos solicitavam. Temos uma paridade de género, uma idade média de 55 anos, com uma dispersão geográfica e uma diversidade de ocupações. Dizerem que alguém está por detrás disto não faz qualquer sentido, as pessoas não sabem o trabalho que isto dá.

Desde a primeira hora fizemos um trabalho gigante e esse trabalho só podia ser feito por pessoas jovens, rejuvenescendo a Associação Mutualista porque representamos o futuro.