Sociedade

Cascais. Guerra aberta em condomínio de ricos

‘Desmando urbanístico’ é a expressão que a Quinta da Marinha SGPS usa para descrever a construção do empreendimento Bloom Marinha, num lote que já pertenceu a Miguel Champalimaud. Mas há quem não lhe dê razão nesta guerra.

Mafalda Gomes
Mafalda Gomes
Mafalda Gomes

Na Rua das Palmeiras, uma das principais artérias da Quinta da Marinha, há cartazes pretos com a inscrição «Opinião: Quinta da Marinha não é responsável por este desmando urbanístico» acompanhados de uma seta vermelha que aponta em direção aos edifícios em construção que constituirão a Bloom Marinha. Já nos avisos, lê-se sobre um fundo branco: «Quinta da Marinha detém, a todo o momento, o direito legal de preferência na transação destas casas/edificações».

Divulgadas pelas 7h do dia 1 de outubro, pela Quinta da Marinha SGPS, liderada por Miguel Champalimaud, estas mensagens serão, apurou o Nascer do Sol, uma retaliação pela sociedade promotora Zaphira Capital ter adquirido o terreno com aproximadamente 14 hectares depois de Champalimaud o ter perdido para a banca.

Inicialmente, foi anunciado que o Bloom Marinha disponibilizaria moradias de tipologias pequenas (6 T1 e 28 T2) e de tipologias médias ou grandes (30 T3, 12 T4, 6 T5 e 6 T6). Contudo, este número deverá diferente devido à elevada procura de habitações com espaços ao ar livre desde o início da pandemia, tendo em conta a necessidade de isolamento e os sucessivos confinamentos implementados em variados países. Assim, espera-se que o espaço que estaria destinado a duas casas, a título de exemplo, possa transformar-se num destinado a somente uma. Se, numa fase anterior, 50% dos compradores eram estrangeiros e 50% portugueses, atualmente já há mais dos primeiros que dos segundos. Todas as casas, inseridas em lotes com uma dimensão compreendida entre os 320 m2 e os 2.900 m2, terão piscina própria e jardim privativo. A Zaphira Capital tem igualmente o intuito de criar uma zona comercial – com, entre outros estabelecimentos, um supermercado gourmet – da qual poderão usufruir todos os residentes da Quinta da Marinha e não somente os do Bloom Marinha.

«Ele sempre foi litigante e este cenário não é surpreendente. Há muitas décadas que tem atitudes como a da colocação dos cartazes e a da destruição da arborização que se encontrava em redor do Bloom Marinha», explicita uma fonte, que prefere não revelar a identidade por temer represálias. A verdade é que, entre ciprestes e outras espécies autóctones, Champalimaud levou a que o Bloom Marinha – cuja empreitada idealizara «antes de ficar sem dinheiro para a mesma» e esta ter sido concretizada muitos anos depois à sua revelia – visse deitado ao lixo o investimento de 100 mil euros que fizera para tornar a zona mais verde e esteticamente apelativa.

Acordar ao som de motosserras

«A megalomania dá nisto. Basta pesquisarmos online para entendermos que este senhor sempre quis recuperar aquilo que acha que é dele por direito só porque já pertenceu à família dele e/ou até a ele em tempos. Como se a herança continuasse a existir e não tivesse havido nenhum problema monetário nem nenhuma venda», sublinha a fonte suprarreferida, recordando acontecimentos como aquele que foi relatado no artigo Árvores abaixo e críticas ao Parque Natural Sintra-Cascais, publicado no jornal Público a 16 de agosto de 2000.

«Miguel Champalimaud não perdoa ao Governo os entraves colocados aos projetos do grupo Quinta da Marinha e acha que campos de golfe e outros empreendimentos turísticos defenderiam muito melhor o Parque Natural de Sintra-Cascais. Ontem, o empresário passou ao ataque e avançou por conta própria com acções de limpeza e abate de árvores. A reflorestação pode esperar até amanhã. As críticas à gestão da área protegida é que não», lê-se no artigo do Público.

Há 21 anos, após o grande incêndio que deflagrou no Parque Natural de Sintra-Cascais, Champalimaud ordenou que «meia dúzia de operários da empresa de construção civil Jodofer – que habitualmente trabalha para o grupo Quinta da Marinha» andasse «no parque de merendas do Guincho, de moto-serra em punho, cortando algumas das árvores afectadas pelo fogo».

«Antecipando-se às acções a desenvolver pelo Governo para recuperar a área ardida no Parque Natural Sintra-Cascais, Miguel Champalimaud, presidente da administração do grupo Quinta da Marinha, assinalou ontem o arranque dos trabalhos preliminares de limpeza e corte de árvores na zona do Vale da Foz, junto ao Guincho», descrevia, à época, o Público, traçando o retrato parcial do homem que procedeu à «declarada manifestação de desconfiança quanto aos prazos a cumprir pelo Governo» quando não esperou que o mesmo iniciasse o processo de reflorestação.

«Conforme prometido no dia seguinte ao incêndio, cá estamos a dar início aos trabalhos de recuperação da área ardida», terá dito o empresário.

A situação descrita é muito semelhante àquela que teve lugar há poucas semanas e foi denunciada por hóspedes dos hotéis situados nas imediações que, ouvindo o som de motosserras ao início da manhã, fizeram questão de tentar entender o que estava a acontecer.

«Os maus fígados deste homem já são conhecidos pela maior parte das pessoas. Ele nem sequer quis que os bombeiros apagassem o fogo que estava a dominar o campo de golfe porque, na opinião dele, iam destruí-lo», narra uma das fontes contactadas pelo Nascer do SOL, deixando claro que «só alguém que não ama a natureza é que faz coisas como esta».

«É uma situação do foro jurídico privado»

Além da destruição e abate de árvores, Champalimaud mandou cortar os pilaretes de madeira que haviam sido colocados no passeio para impedir o estacionamento abusivo. Ainda hoje, os vestígios da sua existência prévia formam uma espécie de fila a escassos metros do local onde trabalhadores se esforçam por terminar de construir as duas moradias que, em princípio, estarão prontas a habitar no início do próximo ano.

«Na Quinta da Marinha há espaços (vias de acessos, bermas, canteiros, etc) públicos e privados. Estes em concreto são privados. Os munícipes não pagam pelo acesso/usufruto das vias públicas. Nem na Quinta da Marinha, nem em qualquer local do concelho. Na realidade, trata-se de uma disputa entre dois privados (Quinta da Marinha SA e a empresa Zaphira, responsável pelas obras do Condomínio Bloom Marinha), ou seja, é uma situação do foro jurídico privado, dado que não foi danificado qualquer espaço verde do domínio público ou dano em mobiliário urbano», esclarece, ao Nascer do SOL, a Câmara Municipal de Cascais. Outra fonte que também não quis que o seu nome viesse a público frisou que Champalimaud «insiste em continuar a cobrar dinheiro às pessoas». «Faz algum sentido os proprietários gastarem um balúrdio pelas casas e ainda terem de lhe pagar para se deslocarem na Quinta da Marinha?», questiona.

O Nascer do SOL quis perceber se este clima de tensão também existe entre a Quinta da Marinha Original e outros empreendimentos contíguos, como o Marinha Prime e o Marinha Garden Residences. «Quanto às questões que nos coloca, gostaríamos de nos abster de comentar. Na realidade, o Marinha Prime não tem nenhum envolvimento nas mesmas e gostaríamos de nos manter dessa forma», reagiu a administração do empreendimento.
Sabe-se que o Bloom Marinha já terá apresentado uma providência cautelar e espera por uma decisão favorável do tribunal.

Artigo corrigido no dia 23/11 às 22h30