Sociedade

Covid-19. Mais crises psicológicas em jovens e mais comportamentos suicidários

Casos encaminhados para o Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise do INEM na faixa etária até aos 19 anos estão 50% acima de 2019. Aumento de crises de ansiedade e pânico e comportamentos suicidários está a preocupar o INEM, em especial nas camadas mais jovens, mas subida de mortes por suicídio verifica-se em todas as idades. Responsáveis alertam para importância de não desvalorizar sinais, procurar ajuda e planear resposta a nível nacional.


O Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise (CAPIC) do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) está a registar um aumento mais acentuado nos pedidos de apoio e necessidades de intervenção em situações de crise psicológica em jovens, uma tendência que já vem do ano passado e foi transversal a todos os grupos etários, mas nos jovens continua a ser mais pronunciada. Mais crises de ansiedade e de pânico e também situações de comportamento suicidário e suicídio consumado preocupam os responsáveis, que alertam para a importância de não desvalorizar sinais de alerta como tristeza profunda, isolamento e sinais depressivos, nem nas idades mais jovens nem nas mais velhas, sublinhando uma maior preocupação com as camadas mais jovens.

Dados facultados ao i mostram que até outubro o 112 encaminhou 1244 chamadas relacionadas situações emergentes de alterações psicológicas e emocionais de jovens para o CAPIC, numa média de 125 casos por mês, superando a dois meses do fim do ano o balanço de 2020, ano em que a atividade do serviço de atendimento psicológico do INEM bateu recordes. Em 2019, antes da pandemia, o CAPIC recebeu 993 chamadas relacionadas com jovens, uma média de 83 por dia, pelo que se verifica um aumento na casa dos 50%.

Os jovens estão longe de representar a maioria dos casos atendidos pelo Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise, mas nos adultos, em que as sinalizações também aumentaram em 2020, o aumento foi menor: nos primeiros dez meses do ano foram atendidos 6574 casos no CAPIC, uma média de 657 por mês, um aumento de 39% face a 2019.

Uma realidade que está a preocupar os responsáveis prende-se com o aumento das situações mais extremas, de comportamento suicidário e incidentes críticos, que incluem mortes por suicídio e traumáticas, como situações de acidente e agressão. Até outubro, foram registados 1912 incidentes críticos, um aumento de 73% face a 2019 e números que superam já 2020. Aqui, o INEM não discrimina faixas etárias, mas as situações de mortes inesperadas acompanhadas pelo CAPIC, onde se incluem o apoio em casos de suicídio, foram nos primeiros dez meses deste ano o dobro de 2019, subindo de 748 casos para 1337, um balanço que supera também as 1220 mortes inesperadas acompanhadas em 2020.

Sónia Cunha, psicóloga responsável pelo Centro de Apoio Psicológico e Intervenção em Crise do INEM, salienta que o efeito de uma crise como a que o mundo tem vivido nos últimos meses  na saúde mental da população mais vulnerável era antecipada e é a realidade com que se têm confrontado diariamente. “Sabemos à partida que os mais jovens, os mais idosos, as mulheres, as grávidas, pessoas emocionalmente mais vulneráveis, estão mais propensas a sofrer perturbações quando a ordem do dia é alterada, seja fruto de maior isolamento, a impossibilidade de recorrer a determinados recursos ou mesmo o menor acesso a cuidados”, sublinha, admitindo que ao longo da pandemia houve “oscilações” nos pedidos de ajuda direcionados ao CAPIC, mas que os momentos de pico de maior crise psicológica tenderam a surgir depois dos picos de vagas pandémicas.

“As pessoas ativam todos os seus recursos quando lhes é exigido mais, que foi o que vimos nomeadamente nos confinamentos, mas é depois desses momentos que surgem mais sintomas do ponto de vista psicológico”, alerta a psicóloga, sublinhando que neste momento a maior preocupação é com o aumento da sinalização de situações por parte de jovens. “Já nos preocupavam antes da pandemia, com o aumento de comportamentos que revelam perturbação, dificuldades de adaptação, sintomatologia do foro ansioso. Com a pandemia estes sinais foram intensificados. O que verificamos ao analisar a nossa atividade é que a partir dos 20 anos não se continua a verificar um aumento progressivo de casos como acontece abaixo dos 19 anos, em que as situações acompanhadas ultrapassaram em outubro as do ano passado, havendo ainda dois meses pela frente.”

Não desvalorizar sinais e validar preocupações Sónia Cunha adianta que, no caso dos jovens, os casos mais frequentes no CAPIC são crises de ansiedade, perda de controlo emocional e situações de agressividade, com comportamentos de violência entre pares, contra figuras de autoridade na escola ou em casa, com maior descontrolo e maior impulsividade do que encontravam no passado. “São situações que ocorrem em diferentes contextos. Recebemos muitos pedidos de ajuda das escolas, depois de um período em que estiveram fechadas, mas neste momento a grande parte são pedidos de ajuda no domicílio. As famílias têm dificuldade em lidar com estas situações e temos muitos pais a ligar o 112 em situações em que ficam desesperados e não sabem como lidar ou onde procurar ajuda”.

A psicóloga dá como exemplo de uma situação mais comum crises de ansiedade e de pânico, em que jovens não conseguem controlar a respiração, ficam a hiperventilar e com uma sensação de morte iminente. “Quando nos ligam é muitas vezes numa situação de desespero por pensar que o jovem está a morrer, há queixas de dor. Uma das primeiras coisas que fazemos nesses casos é ajudar os jovens a estabilizar e controlar a própria respiração”. Nas situações mais graves são ativadas equipas móveis de emergência psicológica, que dão resposta em casos agudos. Aqui, Sónia Cunha mostra preocupação com o aumento de comportamentos suicidários, tentativas de suicídio e suicídios consumados, em todas as faixas etárias, mas em particular nas camadas mais jovens, que, não representando a maioria dos casos no país, são uma população também vulnerável. Depois de o CAPIC ter registado em 2020 um aumento 33% nos atendimentos relacionados com comportamentos suicidários, num total de 3349 casos em todas as faixas etárias, uma média de 279 casos por mês e três casos por dia, este ano até outubro a média sobe de novo para 286 casos por mês. Já os incidentes críticos, que incluem suicídios consumados e mortes traumáticas na estrada, no trabalho ou em contexto de agressão, subiram de 1099 em 2019 para 1694 em 2020 e este ano, até outubro, foram 1912, a maioria mortes inesperadas por suicídio em que o CAPIC intervém também no apoio a familiares e pessoas próximas.

Sónia Cunha sublinha a importância  de não desvalorizar sintomas depressivos, tristeza e isolamento. No caso especial dos jovens, salienta que por vezes as famílias apercebem-se de sinais de sofrimento mais profundo que não são uma tristeza passageira mas vão tentando gerir a situação antes de procurar ajuda, chegando os casos a ajuda especializada já com um quadro mais grave. “Se há um alerta a dar às famílias é para não desvalorizarem os sinais e que quando notam alteração de comportamento, isolamento e um discurso mais de desespero, procurar ajuda”, sublinha, notando a importância de falar destas questões com os jovens e de validar o que estão a sentir em vez de o desvalorizar. “Às vezes a resposta mais fácil pode ser ‘não vamos pensar nisso ou falar sobre isso, não é bem assim’, quando a abordagem correta é haver uma validação, dizer que é normal às vezes ficarmos assustados, não vermos saídas para as situações. Além de procurar ajuda, a validação no discurso com os jovens é muito importante”, salienta a psicóloga, chamando ainda a atenção para a importância de organizar o dia a dia, o que acredita que poderá ter sido um dos efeitos negativos da pandemia na saúde mental da população em geral e dos jovens em particular. “Haver uma rotina, com normas, regras, é um muito organizador. Haver cuidado com o corpo, com a autoimagem”, descreve.

Mas perante o aumento da perturbação entre os jovens, não chega só a resposta de lado das famílias. Sónia Cunha defende que é preciso, perante estes dados, planear respostas nos serviços de saúde e comunidade escolar, com reforço dos recursos para apoio dos jovens. “As autoridades e os serviços de saúde terão um papel determinante e acredito que terão de o planear num futuro próximo para capacitar a resposta, sobretudo às camadas mais jovens. É um trabalho de sensibilização e apoio que pode ser fortalecido nas escolas e nas comunidades”, aponta.

Também António Táboas, médico responsável pelos Centros de Orientação de Doentes Urgentes do INEM, salienta que numa altura em que a atividade de emergência está em níveis pré-pandémicos, em alguns dias mais, é muito na área psicológica e em camadas mais jovens que se nota um aumento de atividade. O médico salienta que, embora hoje seja menor, o estigma relativo à saúde mental ainda existe, e que os sinais podem ser muito frustes. “Em especial nos jovens, o ficarem mais recolhidos, não quererem sair de casa, são comportamentos por vezes ligados à própria adolescência e não é muito fácil identificar precocemente as situações, mas quando existem sinais continuados as famílias devem procurar ajuda”.