Cultura

Os primeiros dias de liberdade de Britney Spears

Há treze anos sob a tutela do pai, a ‘Princesa da Pop’ valoriza coisas que outrora lhe pareciam ‘pequenas’, como beber champanhe, ter as chaves de carro no bolso e controlar a própria medicação. Apesar da revolta exprimida nas redes sociais, a cantora mostra ter esperança num futuro menos negro.


Treze anos depois de ter sido colocada sob a tutela do pai, Britney Spears tem comemorado o fim deste período negro desde que uma magistrada de Los Angeles, no estado norte-americano da Califórnia, rescindiu o acordo no dia 12 de novembro, dando à estrela pop controlo sobre a sua saúde, património e finanças.

«Que fim de semana incrível ... Senti-me como se estivesse nas nuvens o tempo todo!!!», escreveu na rede social Instagram na segunda-feira. «Na verdade, bebi a minha primeira taça de champanhe no restaurante mais lindo que já vi ontem à noite!!!! Estou a celebrar a minha liberdade e o meu aniversário no espaço de dois meses!!!!!!!!!!! Quero dizer, depois de 13 anos... acho que esperei tempo suficiente», desabafou Spears, que completa 40 anos em dezembro e aproveitou a partilha pública para agradecer ao seu advogado, Matthew Rosengart, pelo trabalho que levou a cabo. Recorde-se que a artista contratou Rosengart em julho, depois de o juiz lhe ter dado permissão para estar a cargo da sua defesa.

«Estou tão feliz por o meu advogado Mathew Rosengart ter entrado na minha vida», confessou. «Ele realmente mudou a minha vida... Estou-lhe eternamente grata por isso!!!! Que visão ver tantas pessoas a celebrar a minha vitória... Eu amo tanto os meus fãs... obrigada!!!!», continuou Spears que, em 2008, lutava contra problemas de saúde mental e foi hospitalizada. Após a sua alta, o tribunal tornou a tutela permanente, dando ao seu pai e a outro co-tutor poder sobre as suas finanças e decisões médicas. Britney Spears quebrou o silêncio sobre a tutela durante o verão, denominando o acordo de «abusivo» e alegando que os membros da tutela tinham controlo total sobre a sua vida.

«Não acho que posso viver uma vida plena. Sinto-me pressionada, intimidada e sozinha. Não deveria estar sob tutela se posso trabalhar e fornecer dinheiro e trabalhar para mim e pagar a outras pessoas. Não faz sentido», lastimou cinco meses antes do dia em que, finalmente, voltou a ser dona de si mesma.

Na sua conta oficial no Twitter, aquela que é conhecida por ‘Princesa da Pop’ decidiu igualmente falar de forma sincera acerca do pesadelo que enfrentou. «Estou sob tutela há 13 anos. É realmente muito tempo para estar numa situação em que não se quer estar. Então, eu sou muito grata por cada dia e por poder ter as chaves do meu carro, ser capaz de ser independente e sentir-me uma mulher. Ter um cartão de débito, ver dinheiro pela primeira vez ... São as pequenas coisas», sublinhou, agradecendo ao movimento #FreeBritney, criado por fãs, para denunciar os abusos que sofreu.

«Vocês são demais. A minha voz esteve abafada e ameaçada por tanto tempo e eu não conseguia falar nem dizer nada... vocês salvaram a minha vida, a 100%», afirmou, sendo que adicionou que espera que a atenção que os media deram ao seu caso conduza a uma reformulação no sistema de tutela que se encontra implementado. «Estou aqui para defender as pessoas com deficiências e doenças reais. Espero que a minha história tenha um impacto e leve a algumas mudanças no sistema corrupto», explicou a milhões de fãs sobre o sistema que é habitualmente estabelecido para pessoas mais velhas ou doentes que estão impossibilitadas de tomar decisões de forma autónoma.

Sendo percetível o mesmo tom de desilusão mas a vontade de tirar algo de bom desta mais de uma década de sofrimento nas duas redes sociais, a celebridade não escondeu que ainda se questiona acerca do modo como foi ‘atirada’ para esta medida. «Honestamente, ainda fico boquiaberta todos os dias, quando vejo como a minha família e a tutela foram capazes de fazer o que fizeram», declarou, adjetivando a situação como «desmoralizante e degradante». No entanto, deixou algumas palavras de alento: «Vamos em frente. Teremos um bom ano e um bom Natal. Rock on!».
Contudo, os desabafos da intérprete de temas como Toxic não terminaram por aqui, prometendo processar os pais por a terem condenado a um período infeliz da sua vida, elucidando que tanto o pai Jamie Spears como a ‘mãe que vai à igreja’ Lynne deveriam ser presos pelo papel que tiveram e que só terminou quando a juíza Brenda Penny lhe concedeu total liberdade.

‘O Sr. Spears ama a sua filha Britney incondicionalmente’
Para além dos pais, também a empresária de Spears, Lou Taylor – fundadora da Tri Star Sports and Entertainment Group, empresa que representa negócios, atletas e artistas –, de 56 anos, está debaixo de fogo desde que se começou a suspeitar que controlou a medicação que a cantora tomava, monitorizado as suas ações nas redes sociais e colocado escutas no quarto desta. Taylor e a sua equipa, que inclui o antigo assistente pessoal de Spears, Robin Greenhill, argumentaram que prestaram contas regularmente durante o tempo em que trabalharam para a artista, sem que houvesse perguntas feitas a esse propósito.

Segundo um artigo publicado na revista People no passado dia 5 de novembro, Taylor entrou com uma moção para impedir que a prestação de contas seja averiguada. «Ninguém na Tri Star sugeriu monitorizar as comunicações eletrónicas da Sra. Spears. Ninguém na Tri Star teve autoridade para aprovar protocolos de segurança. Ninguém na Tri Star sabe da existência de qualquer dispositivo de vigilância eletrónico escondido no quarto da Sra. Spears», lê-se nos documentos aos quais o órgão de informação suprarreferido acedeu.

«Ninguém na Tri Star recebeu qualquer compensação relacionada à Sra. Spears ou ao seu património que não esteja refletida com precisão nas contas arquivadas ou a serem arquivadas neste caso», foi frisado, sendo que se sabe que a moção não abordou as alegações de que Spears estava proibida de sair de férias quando queria e de usar o seu próprio dinheiro depois de atingir o limite de gastos estipulado. A equipa de Taylor argumentou que não representava Spears na época em que a sua tutela começou, em 2008, e não desempenhou nenhum papel no estabelecimento desta. Começaram a trabalhar com a irmã mais nova de Spears, Jamie Lynn Spears, em 2005, e, supostamente, com Britney na sua tour de 2009.

Antes do final desta batalha, a mãe de dois filhos fez com que a sua voz se ouvisse. «Então, pegue em toda a sua atitude ‘Não faço ideia do que está a acontecer’ e vá se f-!!!! Sabe exatamente o que fez», escreveu numa publicação que foi eliminada na primeira semana do mês, referindo-se ao facto de a mãe ter pedido aproximadamente 650 mil dólares (cerca de 574 mil euros) em honorários de serviços de advocacia.

No processo de cobrança de taxas, os advogados de Lynne disseram que a mãe da estrela da pop os procurou para «ajudar Britney a libertar-se do que ela via como uma existência muito controladora». «Lynne discutiu muito sobre ingressar na tutela como parte interessada por Britney e esta concordou com entusiasmo e, de facto, pediu à mãe para participar no caso de forma a acabar com o seu pesadelo e a crise que estava a viver». Quanto às taxas, os advogados de Lynne, da Jones, Swanson, Huddell & Daschbach, indicaram que totalizavam 840 mil dólares (741 mil euros) em consultas e aconselhamento prestados à cliente, mas estavam «dispostos a aplicar um desconto de 40%» e pedir 504 mil (445 mil euros). O restante valor corresponderia aos advogados da Ginzburg & Bronshteyn, que solicitou 146.548 mil dólares (483 mil euros).

Rosengart, a partir desse momento, questionou as razões de Jamie para querer encerrar a tutela, depois de este ter solicitado todos os documentos relativos a comunicações, acordos e pagamentos realizados entre ele e a Tri Star, em agosto. Defendendo o seu papel como ‘tutor da propriedade de Britney’, insistiu que sempre teve o bem da filha em mente. «O Sr. Spears ama a sua filha Britney incondicionalmente. Por 13 anos, ele tentou fazer o que era melhor para ela, seja como tutor ou como pai», alegou um representante de Jamie anteriormente.