Cultura

Fiódor Dostoiévski. O condenado à morte que nunca morreu

Nasceu há 200 anos e desapareceu há 140 aquele que foi o mais popular dos romancistas russos. A profundidade das suas personagens revelam toda a dimensão do seu caráter. Tornou-se eterno. Lê-lo é, de certa forma, ler a própria vida e o mundo que nos rodeia. Basta estar atento...


No dia 16 de Novembro de 1849, Fiódor Dostoiévski foi condenado à morte. A acusação era a habitual nesses tempos conturbados de uma Rússia cuja alma ele soube descrever como ninguém: atividades antigovernamentais com ligações a um grupo intelectual radical, o Círculo Petrashevsky. O oficial dos serviços secretos russos, Ivan Petrovich Liprandi, um major-general em cujas veias corria sangue espanhol e italiano, ficou responsável pelo seu processo a partir do momento em que um esbirro também de descendência italiana, Antonelli, lhe apresentou um relatório com o que dizia serem provas inequívocas da traição de Fiódor. Nessa delação canalha, como todas as delações, o escroque acusava Dostoiévski de ler os trabalhos clandestinos de Vissarión Grigórievitch Belínski, um ensaísta e filósofo que caiu nas más graças do poder a partir do momento em que publicou Dmitri Kalinin, uma peça de teatro na qual atacava fortemente o estado de servidão medieval em que viviam ainda muitos dos seus compatriotas. Antonelli sublinhou o facto gravíssimo de Fiódor ter ajudado a dispersar por diversos grupos de intelectuais da época as Cartas a Gogol do mesmo Kalinin, que haviam sido banidas pelo poder, e disseminar ideias subversivas em relação não apenas à política do czar Nicolau I mas também ao sistema religioso da nação. Confrontado com as acusações que lhe eram dirigidas, Dostoiévski respondeu com a secura devida aos prepotentes: «As minhas leituras debruçam-se sobre aquilo que considero monumentos literários e nada mais». Uma defesa frágil para quem já tinha posto os nervos do czar em ebulição. No dia 23 de Abril desse ano, o príncipe Alexey Fyodorovich Orlov, antigo herói das batalhas contra Napoleão e chefe da polícia secreta de Nicolau, a pomposamente chamada Tretye Otdeleniye Sobstvennoy Yego Yimperatorskogo Velichestva Kantselyarii, isto é, Terceira Secção da Chancelaria Imperial de Sua Majestade, conhecida popularmente pelas suas vítimas como Terceira Secção, um obcecado com a possibilidade de ver repetida a Revolta Dezembrista de 1925, mandou a sua matilha desmembrar de uma vez por todas o Círculo Petrashevsky e encerrar os seus componentes na Fortaleza de Pedro e Paulo em São Petersburgo, um cárcere preparado para albergar os mais perigosos criminosos do país. Fiódor conhecia pela primeira vez o cativeiro. Não tardaria a cruzar-se com a miséria e a fome. Mas, naquele momento, a ameaça era mais séria: a morte.

O processo O processo que envolveu os membros do Círculo Petrashevsky durou quatro meses. Uma comissão encabeçada pelo próprio Nicolau I foi posta a funcionar com base em pessoas da sua máxima confiança como o general Ivan Aleksandrovich Nabokov, membro do Conselho Militar e diretor da cadeia de Pedro e Paulo, o príncipe Pavel Pavlovich Gagarin, membro do Senado Governamental, o general Vasily Andreyevich Dolgorukov, que viria a chefiar mais tarde a Terceira Secção, o general Iakov Ivanovich Rostovtsev, um figurão sinistro que estando, de início, do lado dos Dezembristas, roeu a corda à última hora e denunciou os cabecilhas ao czar, e o general  Leonty Dubelt, chefe da Polícia Secreta. Como se vê, nada foi deixado ao acaso. Os prisioneiros estavam entregues ao topo dos topos da governação russa. Quanto ao exagero de patronímicos, peço desculpa, mas se falamos de Dostoiévski eles são tão fundamentais num artigo de jornal como o foram em toda a sua obra.

No dia 23 de Dezembro, todos os acusados, sentenciados à morte por fuzilamento, foram conduzidos, em grupos de três, para a Praça Semyonov. Fiódor estava inserido no segundo grupo, juntamente com os seus camaradas Pleshcheyev e Durov. Subitamente, como nos filmes, no último momento antes de oferecerem o peito às balas, uma missiva vinda diretamente do czar comutou a sentença. Em vez de passarem pelo crivo das balas iriam passar os quatro anos seguintes numa katorga, em Omsk, na Sibéria.

Omsk fica a 2700 quilómetros de Moscovo e eu já cumpri a viagem de comboio que liga as duas cidades. Tem um forte, erguido em 1716, entre os rios Ishim e Irtish que servia para proteger o avanço dos nómadas bárbaros do Quirguistão. Nesse tempo era o centro administrativo da Sibéria. Katorga era um sistema de remotas colónias penais criado no leste da Rússia onde os condenados eram obrigados a trabalhos forçados em condições duríssimas. Dostoiésvki e Sergey Fyodorovich Durov, o único membro do Círculo Petrashevsky que o acompanhou, demoraram 14 dias na viagem entre Moscovo e Omsk. Catalogado como perigosíssimo desestabilizador, Fiódor teve de suportar todo o caminho com as mãos e os pés agrilhoados. Só lhe permitiam, como distração, ler algumas páginas da Bíblia por dia. Esse tratamento especial provocou-lhe lesões para o resto da vida: hemorroidas, sezões, perda inusitada de peso. «Estávamos apertados no nosso cativeiro como arenques numa lata. O cheiro das latrinas era insuportável. O lixo acumulava-se misturado com a lama. Desde o pôr-do-sol até ao surgir da aurora era impossível não nos comportarmos como porcos», escreveu. A sua personalidade tranquila valeu-lhe a simpatia tanto dos outros prisioneiros como dos seus algozes. Permitiram-lhe baixas frequentes na enfermaria, onde o ambiente era, decididamente, mais saudável, apesar de todas as doenças que o rodeavam. E podia ler jornais e os livros de Charles Dickens. 

Memória da Casa dos Mortos é um romance biográfico. Ou, pelo menos, segundo os especialistas, semi-biográfico. O narrador, Aleksandr Petrovich Goryanchikov, conta-nos a sua desditosa deportação para a Sibéria e a sua pena a dez anos de trabalhos forçados por ter assassinado a sua mulher. Senhor da melhor sociedade russa, Aleksandr sofre particularmente o desprezo dos seus companheiros de cativeiro. Tendo sido, durante a vida do autor, a sua obra mais popular, largamente elogiada pelo grande Tolstói, traça um retrato amargo de um homem desenraizado que procura absorver uma nova personalidade por entre personagens complexas que o rodeiam, muitas delas retratando antigos companheiros de cárcere do próprio Dostoiévski. Ele que foi, muito provavelmente, o grande romancista universal de personagens. 

Um homem e os seus retratos Ao longo dos anos, a expressão “personagem dostoievskiana” vulgarizou-se. A profundidade intelectual e psicológica daqueles que habitam os seus romances é algo de extraordinário na História da Literatura e felizes aqueles que puderam viver com elas nas páginas dos seus livros. Goryanchikov, tal como Fiódor, era um dvoryanin, um membro da nobreza russa vindo do Século XIV, expressão derivada da palavra dvoryanstvo, que significa membro da corte. No original, dvor indicava um próximo do czar, um aristocrata, ou, em termos mais latos, um candidato a esse lugar, como acontecia com os antigos boiardos, terratenentes de alta posição social. É essa diferença de classe e a sua dissolução por entre os outros prisioneiros que perpassa em Memória da Casa dos Mortos e lhe dá o toque biográfico que marca a sua escrita. Foi publicado pela primeira vez em fascículos no jornal Vremya, uma espécie de revista mensal editada pelo próprio irmão de Fiódor, Mikhail, e que surgiu em Março de 1861. O sucesso foi grande, permitindo a sua sobrevivência. Os irmãos Dostoiévski trouxeram para o russo algumas novelas de um escritor que muito admiravam – Edgar Allan Poe. E Fiódor chegou a publicar uma pequena história autobiográfica – Sonhos de São Petersburgo em Verso e Prosa – embora anonimamente. Vremya (Tempo) durou dois anos. Seria proibida em 1863 por causa de um artigo de Nikolay Nikolayevich Strakhov, um filósofo e publicista, apoiante do movimento Pochvennichestvo (Regresso ao Solo Nativo) que defendia a emancipação dos trabalhadores rurais, basicamente explorados pelo trabalho escravo, e a eslavização das ideias russas em confronto com a europeização levada a cabo pelos czares que se aproximavam cada vez mais da cultura francesa. Fiódor ainda foi a tempo de publicar no Vremya o seu romance Humilhados e Ofendidos e Uma História Desagradável além de Notas de Inverno sobre Impressões de Verão.Devolvido à liberdade em 14 de Fevereiro de 1854, Fiódor Dostoiévski começou a devorar livros atrás de livros de forma compulsiva. Fisicamente degradado, com a face pálida marcada por furúnculos e o seu outrora farto cabelo louro desfeito em farripas, ninguém diria que tinha apenas 33 anos. Apenas os seus penetrantes olhos cinzentos azulados revelavam a rebeldia que lhe ia por dentro. Mas o seu martírio não chegou ao fim com a liberdade. Era uma falsa liberdade. Em meados de Março foi enviado para Semipalatinsk, no Cazaquistão, e obrigado a servir no Sétimo Batalhão do Exército Siberiano. Se algo tirou de positivo dessa fase da sua vida foi o encontro com três homens que marcariam o seu desenvolvimento como romancista, o geógrafo Pyotr Semyonov, o etnógrafo Shokan Walikhanuli e, mais tarde, o barão Alexander Egorovich Wrangel, admirador da sua escrita que assistira ao seu fuzilamento abortado. De certa forma foi como um regresso ao Círculo Petrashevsky e às discussões intelectuais e progressivas da sua juventude em São Petersburgo. Ou seja, um pouco de liberdade. Ganhava a vida a dar explicações a jovens das classes mais altas da cidade e, em breve, se apaixonou pela mãe de um deles, Maria Dmitrievna Isaeva, convenientemente viúva em Agosto de 1855.

Dostoiévski ansiava sobretudo pela liberdade da escrita e da publicação. Vivendo agora em Barnaul, uma cidade da região de Altai Krai, na confluência entre os rios Ob e Barnaulka, Sibéria Ocidental, resolveu casar-se e adotar o filho de Maria. Para tal foi obrigado a dobrar a cerviz. Através do barão Wrangler fez chegar uma carta ao general do Exército Imperial Russo Franz Eduard Graf von Tottleben, uma das mais influentes figuras da corte que, depois das Campanhas do Cáucaso, alterara o nome para Eduárd Ivánovich Totlében. Nessa missiva pedia desculpas pela sua participação em variados círculos utópicos e declarava-se respeitador do regime vigente. Não foi dos momentos mais felizes da sua vida, mas outros se seguiriam. Acabou por receber autorização para escrever e publicar (e casar-se também) mas a resposta vinha com um aviso sério: continuaria até ao fim da vida a ser sujeito ao escrutínio da Polícia Secreta. 

Para a eternidade No dia 6 de Fevereiro de 1881, Fiódor foi dado como morto após três hemorragias pulmonares. A Sibéria continuava a cobrar o seu tributo. Claro que, hoje, todos sabemos que Fiódor Mikhailovich Dostoévski é eterno. Nem a condenação à morte o conseguiu matar quanto mais a própria morte. Rodion Romanovich Raskolnikov, que os amigos tratavam por Rodya ou Rodka, nesse hábito bem russo de exagerar nos diminutivos, continua na sua luta interna, imagem única do gesto e da culpa em Crime e Castigo, perguntando-se se não devem morrer aqueles que impedem os génios de viver. Sofya Semyonovna Marmeladov, o seu amor infinito, ainda se prostitui para suportar os gastos da família e Arkady Ivanovich Svidrigailov mantém o seu drama infinitamente russo: «Detesto estar bêbado. Mas que fazer se não consigo viver sem beber?» O seu amigo Dmitri Prokofych Razumikhin procura através da bondade e da perseverança pertencer por inteiro à sociedade da qual Svidrigailov se alheia. O polícia Porfiry Petrovich escava sem cessar as profundezas psicológicas de Raskolnikov, convencido de que ele acabará por ceder e confessar o seu crime. Semyon Zakharovich Marmeladov não se levanta da mesa da taberna onde se encharca em vodka e destrói o património da família.

Alexei Fyodorovich Karamazov, o terceiro filho de Fyodor Pavlovich Karamazov, dispersa-se num nunca mais de petit-noms – Alyosha, Alyoshka, Alyoshenka, Alyoshechka, Alxeichick, Lyosha, Lyoshenka – e ama Deus e a Humanidade. O seu irmão mais velho, Dmitri Fyodorovich Karamazov, perde-se em paixões entusiásticas. Ivan Fyodorovich Karamazov, Vanya, o irmão do meio exige explicações sobre tudo o que acontece no Universo. O pai, Fyodor Pavlovich Karamazov, não nutre sentimentos pelos filho e esquece-se de que mães nasceram. Agrafena Alexandrovna Svetlov, Grushenka, é o irracional objeto de desejo.

No mundo infinito de príncipes que Dostoiévski criou, Lev Nikolayevich Myshkin, O Idiota, é um ingénuo, bondoso e inocente rapaz que todos tomam por tolo, e Anastassya Filippovna Barashkov a mulher fatal que consegue ter amor por ele mas o considera indigno de ser seu marido. Alexis Ivanovitch é O Jogador sem dinheiro que Fiódor também foi, viciado na roleta desde o tempo em que se sentou na mesa redonda do casino de Wiesbaden, em 1863. Pyotr Verkhovensky, filho de Stepan, junta-se a Shigalyov, Kirillov ao antigo militar Virginsky para dar asas à sua alma revolucionária em Os Possessos, começando por exigir ao seus camaradas que assassinem Ivan Shatov, um companheiro de cuja fidelidade desconfia. 

Olho para as prateleiras da minha biblioteca, no espaço largo como as estepes em que fui colocando a literatura russa por ordem alfabética, e eles estão todos ali. Fiódor Dostoiévski solta-se das páginas e vive comigo a vida de todos os dias e encontro os seus personagens a cada esquina. Basta estar atento ao mundo...