Retratos contados

Mais um ano

Por Nélson Mateus e Alice Vieira


Querida avó,

Depois de 20 meses sem andar de avião, ganhei coragem para ir passar o meu aniversário fora, mas cá dentro. Fui para a Terceira.

A pandemia continua sem dar tréguas. Temos tanto para descobrir ou redescobrir em Portugal que, de momento, não vale a pena ir para o estrangeiro.

Já andava há imenso tempo para ir conhecer esta ilha, que é património da humanidade. 

Tenho tanto para te contar sobre a Terceira que nem sei por onde começar.

Nada melhor para começar do que precisamente pelo aeroporto. Quando cheguei fui direitinho à Angrauto. Nada melhor do que ter um carro à nossa disposição para descobrir a ilha em segurança.

Não imaginas onde foi o meu almoço de aniversário. O teu amigo Vítor Sobral acabou de abrir, em Angra, a ‘Oficina da Esquina’. Tive essa informação mal cheguei ao centro da ilha. Não se falava de outra coisa. Não podia ter feito melhor escolha para comemorar o início de um novo ano. Segundo o que me explicaram na ‘Oficina da Esquina’, Vítor Sobral já há muitos anos que tem uma grande ligação aos Açores. Já participou em vários eventos, nomeadamente nas famosas festas Sanjoaninas. O saber fazer da equipa, aliado aos produtos açorianos, só podia dar um resultado de excelência. A humildade do Vítor Sobral diz que o sucesso dos restaurantes depende mais dos produtos do que dele. Mas penso que andam de mãos dadas. São muitos os restaurantes com produtos de qualidade que depois não os sabem confecionar.

Sabes que, tal como tu, também sou muito festeiro.

Uma vez que ainda não comemorámos o meu aniversário juntos, que tal irmos almoçar ao ‘Dom Roger’, outro restaurante do Vítor Sobral, que por sinal fica na Av. da República, perto da tua casa, em Lisboa, claro. Pela tua vontade o Vítor Sobral abria um espaço na Ericeira. 

Não escreveste um livro com ele?

Em breve conto-te mais sobre a minha ida à Terceira.

Sei que é uma ilha de que gostas muito e que conheces bem.

Bjs

Querido neto,

Gosto muito da Ilha Terceira. Estive lá a recolher material para escrever uma biografia sobre uma heroína da terra, Violante do Canto – mas isso fica para depois.

Tudo porque, ao falares do Vítor Sobral, eu me lembrei das circunstâncias em que o conheci.

Já foi há uns bons anos. Eu tinha sido convidada para um Salão do Livro na cidade francesa de Périgueux. Até aqui, tudo bem, era perfeitamente normal ser convidada para salões do livro.

Larguei a tralha no hotel e lá me preparei para dizer umas coisas, quando fosse a minha vez de intervir.
Mas quando lá cheguei achei aquele Salão do Livro muito estranho. Andei por ali até que, depois de falar com a organização, descobri que estava enfiada num Salão do Livro de Gastronomia… Eu nem cozinho mal – mas daí a estar a representar o meu país num encontro de comidas…era demais.

Mas a organização encolheu os ombros, se eu estava ali por alguma razão era, eu que aproveitasse.
E foi o que eu fiz. Um dia andava eu a ver enciclopédias de cozinha já não sei de que país, quando dou de caras com o Vítor Sobral – ele, claro, com todo o direito de estar ali. 

E para que a minha estada ali servisse para alguma coisa, decidimos que, ao regressarmos a Lisboa, iríamos escrever um livro juntos.

E foi o que fizemos.

Assim: eu contava uma história tradicional, mas dava-lhe um final diferente, que fosse a deixa para ele continuar, com uma receita de cozinha. Mas sempre receitas que os miúdos que lessem o livro conseguissem fazer.

Por exemplo: o Capuchinho Vermelho é apanhada pelo lobo que lhe diz «não te quero fazer mal, só quero que me digas que coisas levas no cesto». E o Vítor acrescentava a seguir a receita de um bolo. Ou a Carochinha, que consegue salvar o João Ratão, porque precisava da água do caldeirão para fazer canja…  

Divertimo-nos muito a escrever o livro – que se chama A Que Sabe Esta História, e que está incluído no Plano Nacional de Leitura.

E o Salão sempre serviu para alguma coisa.

Bjs