Desporto

Clubes ingleses podem ter de pagar imposto sobre transferências

O futebol inglês poderá estar prestes a mudar, com base nas opiniões dos adeptos. Uma das medidas mais polémicas é a implementação de um ‘imposto de selo’ nas transferências que os emblemas venham a realizar. Contas apontam para receitas na ordem dos 190 milhões de euros por ano.


“Power to the people” (Poder ao povo), grita-se no mundo do futebol inglês. Com base nas intenções e nas recomendações dos adeptos, o Governo britânico desenhou uma ampla revisão à forma como o futebol inglês é gerido e supervisionado, juntando um total de 47 recomendações, depois de mais de 100 horas de audições e contribuições de adeptos de 130 clubes diferentes.

As mais importantes recomendações, no entanto, prendem-se com a criação de um estilo de ‘imposto de selo’, que os clubes da Premier League terão de pagar ao realizar transferências de jogadores, para apoiar a “pirâmide” do futebol inglês, bem como a criação de uma entidade reguladora independente para o mesmo.

O Governo britânico avançou com este processo de revisão, liderado pela parlamentar Tracey Crouch, antiga ministra com a pasta do Desporto, do Partido Conservador, com base nas recomendações dos adeptos, procurando garantir uma “posição sustentável a longo prazo para o futebol inglês”, o que é “bom para o jogo”.

A proposta de pagamento de um ‘imposto de selo’, também denominado “taxa de transferência de solidariedade”, poderia gerar receitas de 160 milhões de libras por ano (cerca de 190 milhões de euros), quando se tem em conta o imposto, que poderá chegar aos 10%. O dinheiro resultante deste imposto seria, assim, redistribuído pelas “bases da pirâmide” do futebol inglês. “Dada a vasta riqueza no topo do futebol, os níveis contínuos de investimento, o crescimento dos negócios de transmissão internacional e a liderança do jogo que ele oferece (nacional e internacionalmente), não é irracional que a Premier League apoie um futebol mais amplo para um nível ainda maior”, afirmou Crouch.

Ontem, o Governo britânico reforçou o apoio a estas propostas, afirmando estar a trabalhar para apresentar uma “resposta substancial” na próxima primavera. “Estamos num ponto de viragem para o futebol em Inglaterra”, disse Nadine Dorries, Secretária britânica da Cultura, num comunicado

Entidade reguladora De mãos dadas com o proposto ‘imposto de selo’ nas transferências, vem também a criação de uma entidade reguladora independente para supervisionar o futebol inglês. O Regulador Independente para o Futebol Inglês (IREF) – para além de organizar o pagamento destas taxas – deverá tratar também da entrega de licenças para competir na liga inglesa, bem como manter um olho atento nas finanças dos clubes, com o poder de decidir se os proprietários e diretores dos mesmos estão aptos para exercer funções. Aliás, procura-se também criar ‘testes de integridade’ para garantir a qualidade desta observação e destas avaliações.

“O futebol necessita de um regulador independente e forte para assegurar o futuro do nosso jogo nacional. O Governo vai agora trabalhar vigorosamente para determinar a maneira mais efetiva de formar um regulador independente, bem como qualquer poder de que necessite”, disse Nadine Dorries.

Outras medidas O documento inclui também outras propostas que procuram mudar a forma como se gere o futebol inglês. Entre elas está a criação de uma ação ‘de ouro’, mantida pelos adeptos, que pode servir para vetar certas mudanças importantes num determinado clube de futebol – desde a mudança do nome ou das cores até à venda do campo.

Já a nível comercial, propõe-se a criação de quadros paralelos compostos por adeptos, que devem ser consultados pelos clubes sobre as principais decisões a nível dos patrocínios das equipas. Por outro lado, pretende-se colocar um ‘teto’ na quantidade de dinheiro que os proprietários podem colocar num clube, de forma a evitar práticas insustentáveis. Esses limites deverão ser definidos de acordo com a dimensão das finanças existentes do respetivo clube.

As sugestões passam também por uma eventual reavaliação dos pagamentos em formato ‘paraquedas’, que deve ser determinada entre a Premier League e a Football League. Caso não exista solução, a reavaliação será definida pelo IREF.

Os jogadores são também um alvo importante visado por estas propostas, onde se integra a criação de cláusulas de despromoção e promoção obrigatórias nos contratos, bem como de planos obrigatórios de igualdade, diversidade e inclusão para todos os clubes, com base no sucesso do código de diversidade de liderança da Associação de Futebol britânica.

Adeptos gostaram. Clubes... nem tanto As propostas foram recebidas com grande satisfação pelos adeptos ingleses. Kevin Miles, chefe executivo da Associação de Adeptos de Futebol inglesa, realçou que “o Governo se comprometeu com uma revisão liderada por fãs que ouviu a voz dos fãs”. “Agora cabe ao Governo cumprir as recomendações”, concluiu.

A reação não foi, no entanto, tão efusiva do lado dos clubes. Christian Purslow, diretor executivo do Aston Villa, avisou para a “sobre-regulação” da competição, e de como as medidas propostas pelos fãs e pelo Governo poderão “matar a galinha dos ovos dourados”.

“A pirâmide sempre dependeu do topo do jogo, em grande parte, financiando o ecossistema que é o futebol e que foi mais obviamente visto no meio da crise da covid, quando a Premier League emprestou mais de 250 milhões de libras para o campeonato e doou mais de 50 milhões para a League One e League Two. A Premier League sempre foi realmente a fonte de financiamento para o resto do futebol e o perigo aqui é, claro, matar a galinha dos ovos de ouro se regulamentarmos em excesso uma operação financeira e comercial de grande sucesso”, disse Purslow à britânica Radio 4.

 

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