Sociedade

Risco 'elevado' com nova variante

Ainda há poucos dados sobre o impacto da variante detetada na África do Sul, onde pelo menos numa província se sobrepôs à delta em duas semanas, o que a repetir-se na Europa seria dez vezes mais rápido que a delta. ECDC declara risco elevado a muito elevado e considera provável menor imunidade. Portugal suspende voos de e para Moçambique e impõe quarentena a passageiros de sete países. Europa tenta ganhar tempo. 


Havia dois motivos que poderiam agravar os cenários da pandemia este inverno: um desvanecimento rápido da proteção conferida pelas vacinas, que já tinha levado o hemisfério Norte a acelerar doses de reforço, e o aparecimento de uma nova variante de preocupação (VOC na sigla inglesa), designação atribuída internacionalmente a variantes com características que permitem uma evasão do SARS-COV-2 ao sistema imunitário, potencialmente maior falência vacinal,  aumento da transmissibilidade do vírus e a gravidade da doença. Essa conjugação de fatores estava na base do cenário 3 traçado pela Direção Geral da Saúde para o outono/inverno, antecipando-se que num quadro desses incidência do SARS-Cov-2 se poderia vir então a esperar-se muito elevada, com maior impacto nos hospitais. 

Há uma semana na reunião do Infarmed, sem sinais de uma nova VOC, esse cenário não  foi objeto de análise. Mas mais uma vez no espaço de uma semana tudo mudou. O cisne negro, embora faltem ainda dados e tempo para perceber o seu impacto em termos de severidade e consequências para a proteção conferida pelas vacinas, foi confirmado ontem pela Organização Mundial de Saúde e pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC), que designaram como VOC a nova variante B.1.1.529  detetada no início de novembro no Botswana e na África de Sul de VOC, na decisão mais rápida até ao momento desde o início da pandemia. 

A posição do ECDC, que guia as intervenções nos estados-membros, chegou ao final do dia de ontem, classificando de «elevado» o risco introdução e disseminação da nova variante na Europa e avisando que o impacto nos países já a lidar com um ressurgimento da epidemia associado à variante delta poderá ser «muito elevado», num alerta com um tom mais grave (estas indicações surgem a maiúsculas a negro no documento) do que aconteceu por exemplo na avaliação sobre ameaça de a VOC delta se tornar dominante (como veio a acontecer), publicada em junho. Na altura por exemplo o organismo diferenciava o nível de risco para sub-populações com esquema vacinal completo, o que não surge na avaliação publicada esta sexta-feira sobre a variante agora nomeada de Omicron. Mais, mesmo com poucos dados, o organismo considera que com base no perfil de mutações da variante, mais de 50 - é o vírus mais divergente do SARS-COV-2 original detetado até ao momento - a hipótese de escapar às defesas do sistema imunitário mesmo de forma parcial é considerada provável. O ECDC recomenda assim fortemente a reintrodução de medidas não farmacológicas, que já estavam a ser implementadas em vários países perante a quinta vaga de casos e que vão além do que foi anunciado esta semana em Portugal, recomendando desde já o teletrabalho, redução de lotações em transortes, limitação do número de participantes em eventos sociais e públicos e celebrações do im do ano, mantendo as medidas de higiene e distanciamento.

Portugal suspende voos para Moçambique 

A reação imediata foi a suspensão de voos aos países da África austral, mas a discussão sobre se esta é uma medida eficaz já está lançada e se penaliza desproporcionalmente os países que deram um alerta rápido sobre a deteção de nova variante. A medida não é recomendada nem pela Organização Mundial de Saúde nem pelo ECDC, que apelam contudo ao reforço da monitorização e testagem de passageiros. Portugal vai para já suspender voos de e para Moçambique mas só a partir de segunda-feira e impõe quarentena de 14 dias já a partir da meia-noite deste sábado a todos os passageiros oriundos de Moçambique, África do Sul, Botsuana, Essuatíni, Lesoto, Namíbia e Zimbabué. No Reino Unido, que suspendeu voos já esta sexta-feira para África do Sul, Namíbia, Lesoto, Botsuana, Jeffrey Barrett, diretor da Iniciativa Genómica para a Covid-19 do Instituto Sanger, explicava ontem que se trata provavelmente de uma medida para dar tempo, acreditando haver alguma esperança com o facto de havendo esta reação rápida possa haver uma progressão mais lenta na Europa. A delta, detetada pela primeira vez em Portugal em maio, em junho já representava 44,6% dos casos em Portugal, sobrepondo-se então à delta. A partir daí tornou-se dominante, passando a representar mais de 90% dos casos detetados no país em julho. Agora, a preocupação dos cientistas que acompanham a área a nível nacional resulta dos dados que estão a chegar de África do Sul, onde na província de Gauteng a nova variante se tornou dominante em duas semanas. Se a delta foi considerada 60% mais transmissível do que a variante Alpha, ao início conhecida como a variante inglesa que causou sobressalto na Europa no Natal passado, esta poderá ser mais transmissível, mas o quanto ainda não está calculado ao certo, dado que os casos na África do Sul permaneciam num patamar baixo até aqui.

Um fator poderá ajudar a uma deteção mais rápida, como ontem salientou também a Organização Mundial de Saúde. Tal como a variante delta, esta variante apresenta uma falha no gene S, que pode ser detetada nos testes PCR, o que permite assim analisar casos suspeitos. Foi com base nessa técnica, que em Portugal foi usada por exemplo pela Unilabs para estimar a progressão da Delta, que em Gauteng se conseguiu estimar que a nova variante representa já mais de 70% dos casos.

Questionado ontem pelo Nascer do SOL, o Instituto nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, que acompanha a diversidade genómica do SARS-COV-2 indicou que até à data não foram confirmados casos em Portugal. Na resposta enviada a meio da tarde podia ler-se que embora a linhagem seja caracterizada por ter um número de mutações na proteína Spike anormalmente elevada, muitas delas identificadas separadamente noutras variantes, «não existem quaisquer dados que indiquem que esta nova linhagem seja mais transmissível ou possa originar problemas em termos de eficácia vacinal. De facto, nem sempre o aparecimento simultâneo de várias mutações relevantes tem tido consequências fenotípicas, dado que frequentemente se observa o desaparecimento dessas linhagens do panorama epidemiológico pouco depois da sua emergência». À hora desta resposta, tinha sido confirmado apenas um caso na Europa, na Bélgica, e não tinha sido emitido o alerta da Organização Mundial de Saúde e do ECDC, com o alerta a aumentar rapidamente a nível europeu.   

Medidas poderão ter de ser revistas

Decididas com base na reunião do Infarmed ainda antes deste cenário e fechadas esta semana, as medidas anunciadas pelo Governo para as próximas semanas poderão ainda vir a sofrer alterações. Segundo o SOL apurou, a análise mantém-se diária, com novos elementos a serem recolhidos pelos peritos que dão apoio técnico ao Governo à medida que surgem. O Executivo já tinha decidido esta quinta-feira o regresso do país ao estado de calamidade a partir de 1 de dezembro diante do aumento de casos de covid-19 nas últimas semanas. Para acesso a restaurantes, hotéis, eventos e ginásios volta a ser exigido certificado digital, sendo que para visitas a lares e hospitais, grandes eventos sem lugares marcados e recintos desportivos e discotecas e bares é preciso, além do certificado, um teste negativo recente mesmo para quem está vacinado. Nos aeroportos é também obrigatório teste negativo à entrada e nas fronteiras terrestres foi anunciada fiscalização aleatória. Para o período pós-festas foi anunciada uma semana de contenção, de 2 a 9 de janeiro, com adiamento do regresso às aulas e teletrabalho obrigatório para evitar a progressão da pandemia, mas com mais de um mês pela frente a semana terminou com maior incerteza.

Esta semana, os casos diagnosticados de covid-19 continuaram a subir, com um aumento de 43% nos últimos sete dias, maior em Lisboa. Também nos hospitais há agora mais doentes internados, com os cuidados intensivos abaixo da linha vermelha de ocupação.   
 

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