Opiniao

A decisão

Um quadro de pandemia como o que estamos a viver, com incertezas e cambiantes, com resultados anunciados e retrocessos, com meios limitados, com recursos insuficientes, exige a todos os governos do mundo informação pronta e capacidade de decisão.


Por Carlos Encarnação

É uma característica atávica. Somos bons a funcionar sobre pressão.

Perdemo-nos é no resto.

Um quadro de pandemia como o que estamos a viver, com incertezas e cambiantes, com resultados anunciados e retrocessos, com meios limitados, com recursos insuficientes, exige a todos os governos do mundo informação pronta e capacidade de decisão.

Isto é, acompanhamento das tendências, clarividência na escolha dos caminhos, estudo de soluções comparadas, decisão tomada a tempo e rápida.

Depois é só planear a execução e não a perder de vista nem de controle.

Porque recordamos tudo isto? Perguntar-se-á.

Porque sentimos que as coisas se têm complicado por ausência da decisão oportuna.

É uma já longa história com a qual temos a aprender.

Depois das confusões iniciais, da carência de respostas, do bloqueamento dos serviços de saúde chamados a intervir em massa para além das suas normais rotinas, o aparecimento da vacina foi um momento decisivo.

Nem todos os Estados compreenderam muito bem o que fazer.

Israel soube. Avançou sem receio.

Depois de um falso arranque em que, mais uma vez, se discutia tudo, prioridades, horizontes, prática, uma decisão feliz levou a um processo de vacinação exemplar.

Percebia-se, com facilidade que, se queríamos regressar a um novo normal, só esta seria a resposta.

O contra-almirante e a task force, a dedicação dos profissionais de saúde, a colaboração entre instituições, a conquista da opinião pública, foram sucessos comprovados.

Descansou-se. A maioria esqueceu a limitação temporal da eficácia das vacinas.

E eis-nos chegados a um novo tempo de afobação.

Parafraseando o escrito de Brecht, soubemos que os austríacos estavam em maus lençóis, mas não nos importámos, depois os checos, depois os búlgaros, depois os holandeses e outros e sempre nos distanciámos das consequências porque a vacinação tinha sido massiva entre nós e naquelas paragens não.

Mas percebeu-se mais tarde a indispensabilidade da terceira dose.

De novo as interrogações e as discussões e as perdas de tempo.

Quem a deve tomar, a partir de que prazo?

Os novos casos e as mortes impuseram a urgência da resposta.

Só que nada estava pensado nem planeado e voltámos aos bons velhos tempos da confusão inicial.

Quando nos demos conta do que sucedia, os casos acumulavam-se, as mortes voltaram a crescer, os hospitais entraram em crise.

Não, não foi como aconteceu e está a verificar-se em todo o mundo.

No nosso caso desperdiçámos uma vantagem inicial, hesitámos.

A pressão da opinião pública veio repor a exigência.

Nada do que parecia facilmente atingível se conseguirá. Voltamos ao jogo da pressão e da decisão.

Há não sei quanto tempo se coloca a questão da vacinação dos menores a partir dos cinco anos. Nada de novo.

Também assim foi com os adolescentes.

Com o atraso costumeiro iremos chegar à aplicação da vacina.

É a vida.

No PSD também se repetem as interrogações paralelas.

Qual das duas vacinas? A que inocula o conformismo ou a que provoca uma reação mais forte.

Em que tempo?

Uma, duas ou três doses?

Não sejamos apressados.

Em 2026 talvez consigamos ver resolvido o problema.

Entre mortos e feridos alguém há de escapar.

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