Sociedade

Omicron. Cientistas com os olhos postos sobre a nova variante

“Caso seja de facto mais transmissível, vai dominar todo o mundo”, avisa Pedro Simas. Ao menos, “a atualização das vacinas é uma discussão que começa a ser feita”, nota Miguel Castanho 


Os alarmes soam face à nova variante da covid-19, a Omicron, com casos a surgir um pouco por todo o globo, do Reino Unido, à Austrália, Itália, Alemanha ou Hong Kong. Os indícios de que se trata de uma variante mais transmissível em relação aos seus antecessores, como a Delta, estão lá. O resultado pode ser uma vaga de infeções, hospitalizações e mortes entre não-vacinados. Quanto à população vacinada, dependerá muito do quanto a Omicron consegue dar a volta à nossa imunidade.

“Caso seja de facto mais transmissível, vai dominar todo o mundo”, diz o virologista Pedro Simas. Nesse cenário, a esperança de António Costa de que Portugal não enfrente a Omicron – “esperemos que não”, desejou o primeiro-ministro, admitindo que não somos “uma ilha no mundo” – é  improvável. “Vai demorar mais tempo a disseminar-se entre os vacinados. Portanto na Europa vai ter mais dificuldade em entrar, mas depois vai dominar completamente”, explica o diretor do Católica Biomedical Research Center. 

Surpreendentemente, isso até pode não ser necessariamente um desastre. “Se quisermos ser muito otimistas, caso tenhamos uma variante muito mais contagiosa mas muito menos perigosa, ela ganha terreno em relação à Delta mas não causa uma doença tão grave. O que, teoricamente, até pode dar alguma vantagem”, exemplifica Miguel Castanho, investigador do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (IMM).
“Claro que nós, para já, ainda não podemos saber isso”. É só um dos muitos cenários em cima da mesa, realça o investigador.

No entanto, até bate certo com alguma informação que nos chega da África do Sul, que detetou a Omnicron após um surto em Gauteng. As infeções nesta província têm disparado, compondo mais de 80% dos casos detetados no país este domingo – a velocidade com que a Omicron se tornou dominante aqui, batendo a Delta, é um dos indícios de que será mais contagiosa. Ainda assim, o que se tem visto são sobretudo casos “muito ligeiros”, afirmou Angelique Coetzee, uma dos primeiros médicos a suspeitar que algo de estranho se passava. 

“Vimos bastantes pacientes Delta durante a terceira vaga. E isto não se encaixa na figura”,  contou Coetzee, que continua a praticar medicina enquanto exerce o cargo de presidente da Associação Médica Sul-africana, citada pela Reuters, notando que muitos dos seus pacientes nem têm a típica perda de paladar. “A queixa clínica mais predominante é fadiga extrema durante um ou dois dias. Com ela, dores de cabeça e no corpo”.

Claro que se trata de evidência anedótica. “Compreender os níveis de severidade da doença devido à variante demorará  várias semanas”, notou a Organização Mundial de Saúde (OMS), este domingo. O mesmo pode ser dito de fatores como a transmissibilidade e capacidade de contornar imunidade vacinal. 

“Até isso ser verificado, há sempre uma prudência que temos de ter, temos de nos acautelar”, salienta Pedro Simas. Daí que a Europa se apresse a fechar fronteiras – entre acusações de que estará a descriminar países africanos, quando lhes dificultou o acesso a vacinas (ver última página) – e a tentar ganhar tempo. Mas o investigador não está particularmente preocupado quanto ao potencial impacto da Omicron nas vacinas. 

“O que a ciência nos mostra é que os coronavírus evoluem no sentido de se disseminarem melhor. Têm pouca capacidade de antigenic drift, ou variação antigénica, que aquilo em que a gripe faz tão bem”, salienta o virologista. Ou seja, de evoluir para evadir as nossas defesas, daí que tenhamos de atualizar a vacina da gripe todos os anos.

Esse até é um tema que começa a surgir, em parte graças à Omicron acrescenta Miguel Castanho. “A atualização das vacinas finalmente é uma discussão que começa a ser feita, depois de muito tempo fora da ordem do dia”, considera.
“As vacinas foram desenvolvidas para a primeira variante, a da Wuhan, depois já veio a da África do Sul, Reino Unido, Delta”, explica o investigador. “E a médio prazo temos de pensar em acelerar a utilização de medicamentos, que estão em fase final de desenvolvimento. Porque os medicamentos não dependem do a proteína S”, uma parte da maquinaria viral mutada na Omicron. Ou seja, esses mutações “podem potencialmente afetar a eficácia das vacinas, mas não dos medicamentos que estão a ser desenvolvidos”.   

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