Falar baixinho

Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?

Certa vez em que fui ao cabeleireiro, fiquei presa a uma situação que se desenrolava à minha frente. Logo à chegada uma rapariga chamou-me a atenção. Era uma adolescente de estatura baixa, uns saltos altíssimos que lhe dificultavam o andar, o corpo cheio de tatuagens, um piercing no nariz e o cabelo cor de palha. Dirigiu-se ali porque queria que o cabelo voltasse a ter a cor original, mas a cabeleireira explicou-lhe que o cabelo tinha sido descolorado, ou seja, a cor do cabelo dela já não existia naquele cabelo e só tinha duas soluções: ou continuava a descolorar para ficar todo igual, ou deixava crescer e as raízes iriam aparecendo escuras à medida que o cabelo crescesse, porque se pintasse a tinta não ia conseguir agarrar. A rapariga não estava à espera daquela resposta, naquele momento parece ter-se confrontado com o que tinha feito realmente e qualquer solução lhe parecia horrível. Começou a chorar compulsivamente sem saber o que fazer. A imagem que tinha – que, como se via, era algo que valorizava muitíssimo – estava de repente perigosamente posta em causa. Na minha cabeça comecei inconscientemente a trautear a canção do Sérgio Godinho: «Pode alguém ser quem não é».

Vejo com frequência jovens assim, que parecem querer fugir da sua imagem, daquilo que são realmente e que de alguma forma se transformam para ir ao encontro do que idealizam, ou contra alguns padrões de que querem fugir. O mais gritante é um com quem me cruzo frequentemente que tem a cara pintada ou tatuada com lágrimas e teias de aranha, um nariz preto, da cor da roupa, com collants rasgados e botas com saltos altíssimos. É desconcertante olhar para ele, não que me choque ou cause impressão, mas porque me desperta uma imensa pena. Parece gritar um pedido de ajuda de uma forma que ninguém consegue decifrar, a sua expressão é sempre de solidão e tristeza, presa naquele personagem que criou e fico a imaginar que espaço fica para a relação com os outros, como olharão para ele, como sentirá o olhar de quem passa.

São naturais na adolescência as mudanças de estilo e de gostos, que podem acompanhar modas ou amigos diferentes. Os adolescentes muitas vezes são como as tribos e o sentimento de pertença e identificação com os outros são expectáveis e saudáveis. Outras vezes vestem a pele da revolta e do confronto com os ideais dos outros – adultos e pares –, assumindo uma postura quase desafiadora, que os leva por vezes a ficarem presos na sua própria teia da revolta, nos seus rituais e preconceitos, nos seus códigos, sem muito espaço para agir livremente. Todas estas posturas de afirmação fazem parte do processo de crescimento, da procura dos seus próprios ideais. Quanto maior for a divergência e dificuldade de identificação com os pais, quanto menor for o espaço para se sentirem aceites nas suas escolhas, quanto menor for a liberdade, flexibilidade, compreensão e maior a autoridade, maior será a divergência. Assistimos muitas vezes, por exemplo, a famílias muito conservadoras com filhos rebeldes, durante uma fase ou para sempre. 

Todos estes caminhos, modas, devaneios e até uma certa incerteza e instabilidade são próprios e importantes nesta fase de crescimento, que é também de descoberta e encontro. O problema é quando a dificuldade em encontrarem-se ou a necessidade de fugirem dos outros são tão grandes que se perdem deles próprios e têm dificuldade em encontrar o caminho de volta. Quando as portas se começam a fechar à sua volta e acabam por ficar sozinhos. Por isso também a adolescência é uma fase tão difícil para quem os acompanha, o saber estar entre a permissão e a proteção, acompanhando e respeitando o crescimento e a emancipação, mas nunca deixando de estar atento ou partir do princípio de que já não precisam de cuidado ou ajuda.

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