Somos o escravo feliz das redes sociais

Somos agora os consumidores-utilizadores reduzidos a uma bidimensionalidade e a um funcionamento mental meramente reativo e sem densidade

Havia o escravo, o trabalhador à jorna e sazonal, o proletário, hoje temos o estagiário à borla, o horário que não é completo para que nem o ordenado mínimo (mínimo de dignidade) seja pago, condições implacáveis de trabalhos precários (chama-se flexibilidade) e sem direitos (chamam-lhes privilégios), nem segurança laboral (chamam-se oportunidades e sair da zona de conforto). Clama-se que trabalho há, trabalhadores não. Vejam os salários, não é bem trabalhadores que se procuram.

Mas há uma nova figura proletarizada, uma espécie de proto-escravidão pós-moderna. O ‘utilizador’. Uma habilidade neoliberal, pagar para trabalhar, ou trabalho gratuito e feliz. O utilizador das redes sociais é talvez a primeira figura laboral que paga para trabalhar. Pois o que somos nós senão proletários semiescravos das redes sociais? Estas alimentam-se  do nosso labor, das ideias, das discussões, dos disparates, dos miasmas e até da criatividade, humor, etc.… Somos umas espécie de ratos num roldana. Com o nosso trabalho, a ilusão da nossa importância e das nossas opiniões, somos os ‘utilizadores’, funcionários sem vencimento de mega corporações, que ainda com o nosso trabalho conseguem recolher todo o tipo de informação sobre nós, o que pensamos, lemos, queremos, desejamos e que será depois utilizado por nós como consumidores. Acabamos a pagar pela nossa saliva, ódios, amores e ressentimentos. A ilusão que superamos a nossa irrelevância tem um preço muito caro.

Somos agora os consumidores-utilizadores reduzidos a uma bidimensionalidade e a um funcionamento mental meramente reativo e sem densidade. Somos também e simultaneamente bases de dados. Eis outra características do ultraliberalismo: esta redução do humano a uma espécie de condição principalmente digitalizada e online. Tudo está online, ainda assim algumas pessoas mais simplórias se indignam com o passaporte de vacinas, que existe vai para anos. Somos escravos digitais, totalmente dissecados e reduzidos a funções elementares.

A nova economia, e há sempre uma nova economia, é a preditiva, somos nós, que estamos a fornecer a informação sobre o que vamos querer, desejar e comprar. O verdadeiro poder é de facto o das grandes corporações que dominam a internet. Mas estas grandes corporações alcançaram um poder fáctico e simbólico que já ultrapassa qualquer poder concreto de um indivíduo ou grupo de indivíduos. Esse poder já é incontrolável e está fora de qualquer domínio. Viver fora da net, do onlines, dos smartphones, das apps, etc., é ser um infra-humano.  No hiperliberalismo o humano é a própria matéria do negócio, e tal como se fazia antigamente em relação à utilização de um porco, do qual tudo se aproveitava, o mesmo sucede agora com o ser humano, desarticulado à peça. Enjaulados no mundo hermético do online, do virtual e do imaterial estamos a fornecer os dados para estabelecerem o que vamos querer no futuro, ou seja, a nossa liberdade tornou-se totalmente residual. Nas redes sociais somos unicamente uns simples peões idiotizados e previsíveis, ‘matéria’ dos produtos preditivos. Estamos vazios, ocos, mas sempre reativos. Um exemplo simples: já não é o real que permite a notícia, mas a notícia que cria o ‘real’. 

As redes sociais foram o prolongamento da degradação total dos média, a implosão do absurdo individualista. Agora cada um de nós tem coisas a dizer e diz…