Carta de Wall Street

Preferir compreender a ser compreendido

Em geral, as lições agradáveis de se aprender, são aprendidas por todos. As mais dolorosas, são mais difíceis, e exigem honestidade da nossa parte em reconhecer que talvez estejamos errados...

Preferir compreender a ser compreendido

Por Pedro Ramos

Queridas Filhas,

«[…] Ó Mestre, fazei com que eu
procure mais consolar que ser consolado;
compreender que ser compreendido;
amar que ser amado.
Pois é dando que se recebe;
é perdoando que se é perdoado;
e é morrendo que se ressuscita para a vida eterna.»
Oração de S. Francisco de Assis

Estamos em semana de Thanksgiving aqui nos Estados Unidos. Tal como os peregrinos, está na altura de dar graças pelo que de bom nos aconteceu no passado ano. Quando era novo, lembro-me de me impressionar ver os meus pais, os seus amigos assim como pessoas famosas na TV agradecerem frequentemente os seus educadores, em especial os pais, por lhes terem castigado quando eram mais novos. Muitos diziam que os castigos só pecavam por escassos! Muito do que conseguiram ser como adultos: pais, familiares, profissionais, cidadãos, educadores se deveu às lições assim aprendidas. 

Em geral, as lições agradáveis de se aprender, são aprendidas por todos. As mais dolorosas, são mais difíceis, e exigem honestidade da nossa parte em reconhecer que talvez estejamos errados. Talvez haja algo que nos falte. Melhores caminhos estão disponíveis. 

Uma dessas lições para mim foi o procurar compreender em vez de ser compreendido. Quero ter razão (pelo menos na opinião dos presentes) ou quero estar certo? Quero ser admirado ou quero conhecer a verdade? Não são escolhas fáceis, mas dilemas destes são frequentes nas nossas vidas.

Esta lição atropelou-me comigo quando vim para os Estados Unidos. As aulas no MBA de Harvard são dadas com base no estudo de casos reais. Os alunos leem os casos antes da aula, analisam as opções do protagonista e propõem qual deve ser o plano de ação. 

Lembro-me do primeiro caso que discuti. O protagonista tinha duas opções: A ou B. Estudei o caso todo o fim de semana. Fiz todos os cálculos que me pareciam possíveis. Discuti com alguns amigos antes da aula e todos chegamos à conclusão de que a opção ‘certa’ era a A. Logo no início da aula, o professor pediu a todos os alunos para votarem com os braços nas duas opções. A opção A ganhou com 85% dos votos. De imediato o professor pediu a quem votou na A para dar as suas razões. Eu tinha uma lista de cerca de 15 razões. Mas no final da discussão, o quadro tinha já 25. Nesta altura eu já tinha pena de quem tinha votado na opção B. Mas a aula ainda estava a começar…

O Professor passou então a palavra a quem propunha a opção B. E excelentes argumentos foram feitos. Quase todos, pontos que eu não tinha pensado ainda. E argumentos muito inteligentes e ponderados. Expuseram assunções que eu tinha feito acerca do caso que eram implícitas e não tinham suporte explicito no material do caso. 

No final, não havia resposta certa. Esta depende do que se assumisse com base na informação imperfeita que se dispunha. Mas a lição era clara. O conforto e forte convicção de quem apoiava a opção A não tinha justificação. Os líderes precisam não de pessoas que concordam com eles, mas pessoas que discordam. E desse debate se podem identificar assunções que estão escondidas em cada raciocínio. Isso ilumina a tomada de decisão, assim como os esforços de monitoramento à medida que mais informação fica disponível. Líderes efetivos não procuram o conforto do ‘group think’ mas procuram a companhia de pessoas com perspetivas diferentes. Preferem ‘compreender a ser compreendidos’.

Esta lição tem sido útil para mim em muitas áreas da minha vida. Como investidor, esta é uma capacidade chave para se obter os melhores retornos. Até compreender porque é que a outra parte está disposta a vender o ativo por um preço que acho muito atrativo, o meu trabalho de análise não está concluído. Ainda estou ignorante sobre o outro lado da transação. 

De um ponto de vista humano, esta qualidade ajudou-me a fazer alguns dos meus melhores amigos. Algumas das minhas relações começaram de forma áspera pelas circunstâncias, mas a procura de compreender o outro lado deu frutos bem doces. Uma boa amizade é um tesouro para toda a vida. E este princípio deu-me tesouros de décadas. 

Esta lição vai ser ainda mais importante no século XXI. A tecnologia ajuda-nos a estarmos em contacto com a nossa tribo: pessoas que pensam como nós. E isso leva a maior confiança nas nossas posições e maior desconfiança ou mesmo desprezo por posições diversas. Isso vê-se em grupos que apenas leem o jornal do seu clube de futebol, do seu partido ou da sua geografia. E divide-se o mundo entre nós e os outros. Esta visão tribal da vida é muito confortável. Foi mesmo essencial no início da civilização como nos ensinam os antropólogos. 

Mas desde então, o valor tem sido criado por estabelecer pontes entre tribos. Os portugueses fizeram isso com comércio e evangelização há 500 anos. Os diplomatas fazem isso todos os dias. E os grandes estadistas marcam uma época quando o fazem. Eu estou grato por ter aprendido esta lição. Mas espero nos próximos Thanksgiving dar graças por vos ver a fazer pontes entre comunidades que tem dificuldade em se compreender. 

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