O mundo em calções

Uma vida lavada a sangue

No dia 4 de maio de 1949. a morte caiu do céu e desfez o Grande Torino, campeão italiano cinco épocas consecutivas. 


Sofrimento é o outro nome que o Torino podia ter. ‘Granata’, dizem eles das suas camisolas. Grenás: cor do vinho e cor do sangue seco. Granata é um nome tão profundamente turinês que também entrou na música barroca através de Giovanni Battista Granata, um homem da cidade que compôs Sonata di Chitarra, e Violino, con il suo Basso Continuo, a música que ainda hoje é tida como o original de Stairway to Heaven, de Jimmy Page and Robert Plant.

Plágio? Ou não? Os tribunais nunca se pronunciaram definitivamente. Talvez porque Giovanni Battista se esteja nas tintas. Afinal morreu em 1687 e ganhava a vida a barbear os seus conterrâneos e a servir de cirurgião quando a sua lâmina não estava a escanhoar alguma face mais rebelde.

O sangue de Robert Dick também tinge as camisolas do Torino. Nascido em 12 de abril de 1865, em Yverdon-les-bains, cantão de Vaud, na Suíça, emigrou para Itália e meteu-se no negócio de calçado. Viveu em Turim, tornou-se um homem do lugar, figura simpática e afável que não regateava cumprimentos e um ou outro tirar de chapéu.

Gostava de futebol, tornou-se presidente da Juventus em 1905, foi o responsável pela modernização do clube, conseguiu convencer os associados a comprarem um campo de futebol junto do velódromo Humberto I. Dois anos mais tarde, incompatibilizou-se com os companheiros de direção que pretendiam levar a Juve para fora de Turim.

Saiu para fundar o seu clube, uniu-se ao Torinese Football Club e fez nascer o Foot-Ball Club Torino, sendo o seu primeiro presidente. Aos 44 anos não resistiu aos cães negros da depressão que lhe mordiam os calcanhares, que lhe devoravam as entranhas, que lhe mastigavam o coração e o cérebro. A tristeza derrotou-o. Pegou numa pistola e deu um tiro na cabeça. Encontram-no num quarto sórdido, banhado num lago de sangue. Sangue seco porque já o tempo havia passado sobre a hora da sua morte.

No dia 4 de maio de 1949. a morte caiu do céu e desfez o Grande Torino, campeão italiano cinco épocas consecutivas. Na véspera, estrelas como Ossola, Gabenti, Mento, Bacigalupo, Ezio Loik e, sobretudo, Valentino Mazzola, tinham jogado no Estádio Nacional contra o Benfica na festa de homenagem ao capitão encarnado Francisco Ferreira. Quando, pelas 9h45 de Lisboa, o comandante Pier Luigi Meroni fez erguer do solo da Portela o trimotor G.212 I-ELCE, o sol prometia uma manhã gloriosa. Houve uma escala em Barcelona. Depois o terrível pesadelo que levou a que o aparelho da companhia Avio-Lire-Italiane não aterrasse no aeroporto de Turim pelas 17h15, como estava programado. Sobre o norte da Itália chovia há três dias. Vinte e quatro horas antes, uma intempérie terrível abatera-se sobre a Ligúria e o Piemonte cortando estradas, danificando edifícios, deixando gente sem abrigo. Em Maio os dias já são longos. Todavia, nessa tarde escurecera cedo por causa das nuvens negras que se acastelaram nos horizontes e foram descendo do céu como um prenúncio de desgraça. Por volta das cinco horas da tarde um nevoeiro espesso atravessou-se no caminho da aeronave que já deixara Lisboa há tanto tempo. Pier Luigi Merino e os seus coadjuvantes, o co-piloto Cesare Bianciardi, o telegrafista Antonio Tangrazi e o mecânico Caleste D’Inca, iam fazendo os possíveis e impossíveis para se orientarem dentro de um ‘cockpit’ no qual o altímetro deixara pura e simplesmente de funcionar. Diria mais tarde o relatório do inquérito levado a cabo pelo governo italiano que as fortíssimas rajadas de vento terão provocado a deslocação do aparelho para uma rota diferente da habitual. Merino continuou a descida de aproximação ao aeroporto, tudo indica que convencido de já ter ultrapassado os montes de Superga e a colina da basílica que se ergue até praticamente setecentos metros de altura. Seria um erro terrível e irremediável. Quando os recortes da igreja surgiram, aterradores, na frente de uma tripulação ansiosa, era já demasiado tarde.

No início, o Torino equipava com uma camisola às riscas vermelhas e pretas. A política meteu-se pelo meio: eram as cores da Casa dos Habsburgos, inimigos figadais da Casa de Saboia que reinava na Itália. Nasceu o grená. O grená dos Saboias que, no ano de 1706, tinham libertado a cidade de Turim. Como Fidípedes correu para Atenas para anunciar a grande vitória contra os persas, emMaratona, um soldado do exército italiano teve ordem para percorrer as ruas da cidade erguendo bem alto um pano branco da paz conseguida. Branco mas tingido de vermelho escuro do sangue já seco que perdera na batalha. Sangue como nas camisolas do Torino...

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