Cultura

Las soldaderas. Também lhes chamaram Las Adelitas

A Revolução Mexicana cujo final foi há cem anos (1810-1821) não deu a conhecer ao mundo apenas gente como Emiliano Zapata ou Pancho Villa. Centenas de mulheres, muitas delas assumindo o papel de homens, combateram pela nova constituição e foram heroínas de um conflito confuso como poucos.


Adelita era uma mulher soldado das tropas de Madero. Las Soldaderas, chamavam-lhes os mexicanos. La Adelita del Río Texas. Francisco Indalecio Madero, nascido na Hacienda de El Rosário, em Cohauila, filho de um importante exportador de têxteis que chegou a presidente do México durante o breve período entre 1911 e 1913. De certa forma, e para alguns historiadores, foi o pai de um período de conflitos que ganhou o nome de Revolução Mexicana (1810-1821) mas que, na verdade, diferiu largamente daquilo que estamos habituados a chamar revolução.

Madero iniciou a fase reformista, mas rapidamente perdeu os seus mais fortes apoios por querer manter intactas as estruturas económicas e sociais de um país onde a fome e a miséria imperavam por toda a parte. O desapontamento levou às revoltas. Muitas revoltas com filosofias diferentes e chefes diferentes. Durante a sua curta presidência, o seu exército, comandado por Victoriano Huerta, viu-se a braços com vários movimentos diversos, o mais famoso dos quais liderado por Emiliano Zapata. Subitamente, muitos estados do sul começaram a espalhar pela populaça o grito eterno: «Que viva Zapata!». 

É preciso dizer que as soldaderas surgiram muito antes da Revolução Mexicana. A falta de condições de trabalho levou a que muitas mulheres seguissem os maridos na profissão de soldados que, apesar de mal paga, sempre garantia uns pesos de soldada, ou de soldo, como se chamava ao pagamento feito a estes militares-populares. O advento da revolução assistiu ao aumento exponencial de soldaderas, que basicamente se ocupavam de tarefas de campo, como cozinhar para os soldados e cuidar dos feridos, e de coronelas, as que participavam nos combates e entravam na cadeia de promoções tal como os homens.

Adela Parda Verde tornou-se, porventura, a mais famosa de todas elas. Amparo Ochoa cantou: «En lo alto de la abrupta serranía/Acampado, se encontraba un regimiento/Y una moza, que valiente los seguía/Locamente enamorada del sargento/Popular entre la tropa, era Adelita/La mujer que el sargento idolatraba/Porque, a más de ser valiente, era bonita/Y hasta el mismo coronel la respetaba».

A canções como esta, com muito de biográfico, chamavam-se Los Corridos. Serviam de cânticos de glorificação de exemplos de coragem. Adela Parda, que não tardou a abandonar as tropas de Moreno para se juntar às de Zapata, foi tida como um modelo para todas as soldaderas. E não por acaso, a professora académica Rose E. King definiu o zapatismo desta forma: «Não eram um exército. Eram um povo em armas!». E um povo não se desmancha entre homens e mulheres.

Nos seus primórdios reformistas, Madero insistia em querer ouvir a voz do povo. Mas o facto é que se tratava de um filho da grande burguesia, que estudou na Universidade de Berkeley, na Califórnia, e os seus discursos populistas rapidamente perderam o eco quando se tornou claro que não pretendia mexer com os privilégios dos terratenentes. Adelita foi das primeiras a perceber o logro em que tinha caído.

Nascida em Ciudad Juarez, Chihuahua, no ano de 1900, neta do célebre Rafael Velarde, um general e jurista que tinha combatido contra as tropas do império francês na sua absurda aventura mexicana, aos 14 anos já era enfermeira e um exemplo para todas as mulheres que, como ela, decidiram participar ativamente na revolução. Tratavam dos feridos, recolhiam alimentos, carregavam armas e iam à luta quando os homens começavam a ser poucos. «Adelita, se llama la joven/A quien yo quiero y no puedo olvidar/En el mundo, yo tengo una rosa/Que, con el tiempo, la voy a cortar/Si Adelita quisiera ser mi novia/Y si Adelita fuera mi mujer/Le compraría un vestido de seda/Para llevarla a bailar al cuartel».

Las Adelitas, como por causa dela foram chamadas aquelas que a seguiam por toda a parte, dispersavam-se pelas várias colunas dessa revolução tão diferente de qualquer outra: o zapatismo (de Zapata), o vilismo (de Pancho Villa) ou os constitucionalistas-carrancistas (de Venustiano Carranza). E calma que a confusão não se queda por aqui.

Havia mais fações: os convencionistas, um grupo nascido da junção de zapatistas e vilistas após a Convenção de Aguascalientes; os felicistas (de Felix Diaz), que se opunham (como todos) aos federalistas de Victoriano Huerta com o seu Exército Federal, mas também aos apoiantes de Carranza; os maderistas (de Francisco I. Madero), que só tomaram parte na fase inicial da revolução; os magonistas (dos irmãos Flores-Magon), que nasceram do Partido Liberal Mexicano e já tinham protagonizado levantamentos em 1906 e 1908; os orozquistas (de Pascual Orozco), também conhecidos por Colorados, por via das suas bandeiras vermelhas, que apoiavam o poder de Huerta; os porfiristas (de Porfírio Diaz), igualmente conhecidos por científicos por aglomerarem conservadores e burocratas; e os reyistas (do general Bernardo Reyes).

Como se vê, o México esteve durante onze anos metido num caldo político e social absolutamente confuso, uma espécie de Albergue Espanhol de todas as revoluções. Mas deixemos por hoje os intrincados labirintos de uma revolução ímpar para falarmos das mulheres que nela participaram de forma tão ativa que o termo soldaderas entrou para a História por causa delas.

Passaram-se 100 anos

Juana Ramona, La Tigresa; Carmen Vélez, La Generala; Angela Jimenez, que tomou o nome masculino de Ángel Jimenez; Encarnación Mares, que cortou as tranças e escondeu o cabelo farto debaixo do chapéu para passar por homem; Amelia Robles, que foi Amelio e chegou a coronel; Petra Ruiz, que foi Pedro, e das primeiras rebeldes a chegar às portas da Cidade do México... Podia citar tantas outras. Porque as soldaderas foram incontáveis. 

Em 1910, Emilano Zapata chamou María de la Luz Espinoza Barrera à sua presença e outorgou-lhe o cargo de tenente-coronel pela sua alma guerreira e pela habilidade extrema em dominar a sua montada. Cinco anos antes, María tinha matado a amante do marido e era perseguida pelo federais. Juntou-se aos revolucionários zapatistas. Com ela veio Margarita Neri que, por sua vez, matara o companheiro que considerava um fraco e um fardo para a vida que queria adotar. Era gente que não tinha medo das consequências. Num país no qual a ideia de família estava decadente e as balas zumbiam aos ouvidos de todos, os escrúpulos ficavam de lado.

La Generala apareceu no final de 1911 na parte ocidental da serra de La Malintzin ao comando de 300 homens e mulheres. Dirigiu-se às autoridades de San Bernardino Contla e de Amaxac de Guerrero e convidou os caciques locais a deixarem de cobrar impostos. Tinha voz de trovão e gostava de ser obedecida. O Governador de Tlaxcala, perante a sublevação dos operários que largavam os seus empregos para segui-la, resolveu dar-lhe guerra e enviar  um grupo de militares sob o comando do tenente Cruz Guerrero para travar o seu avanço inexorável. Carmen era uma mulher muito rica.

O pai fora um proprietário que lhe deixara uma série de recursos económicos que ela não regateou em pôr ao serviço da causa revolucionária. Augustín Sanchéz, o governador, decidiu então apelar-lhe ao coração e conceder a liberdade ao seu irmão, Uriel Veléz, que se encontrava encarcerado há anos, em troca da sua rendição. La Generala foi julgada por sedição em Janeiro de 1913, e atirada para as masmorras. Algo que não a impediu de continuar a recrutar gente cá fora para combater contra o Exército Federal.

Embora Carmen Veléz fosse abonada em termos económicos, a grande maioria das soldaderas pertenciam à classe média e baixa. Muitas delas não chegaram a pegar em armas nem sequer a estar perto dos lugares que tresandavam a pólvora. Aproveitavam-se da sua condição de professoras ou jornalistas para propagarem os ideais da revolução, contribuindo igualmente para o fervilhante correio clandestino trocado entre as diversas fações. De tal forma que, terminado o conflito, o presidente que assumiu o poder, Lázaro Cárdenas, publicou um decreto no qual reconhecia nada menos do que 432 mulheres como veteranas de guerra, recebendo a pensão correspondente. 

Luz Corral vivia em Santo Andrés, também na província de Chihuahua, como Adelita. José Doroteo Arango Arámbula que nascera em San Juan del Río, Durango, no dia 5 de Junho de 1878, enamorou-se intensamente por ela. Assim dito, parece não ter grande sentido para o decorrer da prosa que aqui desfila. Dá-se o caso de José ser mais conhecido por Francisco. Francisco Villa. Ou Pancho Villa, se preferirem, o antigo soldado federal que, depois de ter sido condenado à morte por insubordinação pelo general Victoriano Huerta, se escapuliu para os Estados Unidos de onde voltou para ser uma das grandes figuras da revolução mexicana, a par de Venustiano Carranza, Álvaro Obregón e Emiliano Zapata, chegando a marchar à frente de mais de 40 mil homens.

Pancho casou com Luz em 1911, mas o caso teve mais importância para ela do que para ele, que acabou por casar com mais umas poucas de mulheres numa exibição de lubricidade que lhe valeu a alcunha de El Centauro del Norte. De qualquer modo, Luz Corral foi a única que ficou ligada à sua carreira política e se fazia tratar por señora Villa.

Uma questão de mulheres

Dolores Jiménez y Muro ganhou tamanho peso intelectual e social que muitos lhe ofereceram o cognome de La Mujer Mexicana. Natural de Aguascalientes, foi sobretudo uma jornalista que passou pelas redações de jornais de esquerda, defendendo a descentralização do sistema educativo, o aumento de salários para os mais desfavorecidos, acesso fácil à habitação e reconhecimento dos direitos da população indígena. O seu combate era a palavra!

Ao contrário, por exemplo, de Margarita Neri, sulista de Quintana Roo, nascida em 1865, e dona de uma fazenda de dimensões consideráveis. Apesar de patroa, juntou-se aos seus empregados e, juntamente com eles, rodeou-se por um exército de mais de mil homens. Uma das mais famosas soldaderas, lançou-se em raides militares devastadores, sobretudo nas zonas de Tabasco e de Chiapas.

María Quintera de Meras era bem mais próxima intelectualmente de Margarita do que de Dolores. Preferia os golpes a cavalo às tiradas literárias. Participou em dez batalhas durante seis anos e Pancho Villa, que por acaso não casou também com ela, nomeou-a para o cargo de coronel pelos seus méritos em combate e pela sua impressionante valentia.

María vestia-se como um homem e comportava-se como um qualquer campesino, chegando aos exageros de linguagem muito próprios de caserna, algo que punha os seus comandados em sentido. Tinha uma tal habilidade com armas e uma pontaria tão aguçada que os mais ingénuos começaram a lançar o boato de que possuía poderes sobrenaturais. Quando a guerra acabou, Pancho Villa quis demonstrar-lhe o seu agradecimento através de um grande subsídio monetário que lhe permitisse comprar o seu naco de terra. María ofendeu-se. Não fazia revoluções por dinheiro.

A verdade era incontornável: as mulheres deixavam-se encantar por Pancho Villa. Apesar do bigode meio ridículo e de não ser um fanático da higiene, as histórias dos seus feitos encantavam todas as que se deixavam tomar pela costela mais romântica da sua existência e pelos relatos heroicos dos combates em Santa Isabel, Celaya e Agua Prieta.

Com apenas 12 anos de idade já Elisa Griensen Zambrano, natural de Parral, Chihuahua, se tinha fascinado por Villa ao ponto de convencer um grupo de mulheres bem mais velhas do que ela a formarem um grupo de oposição à presença das tropas norte-americanas do general Pershing – que aproveitara o caos político do país vizinho, para tentar tirar algum lucro do assunto – da sua província natal.

Armadas com foices, forquilhas e uma ou outra caçadeira que conseguiram encontrar, atiraram-se contra os inimigos aos gritos de «Viva México! Viva Villa». Se algo não interessava de forma alguma aos Estados Unidos era ficarem ligados a momentos sanguinolentos num momento tão periclitante como aquele. Nessa mesma tarde, o comandante Franck Tompkins, ordenou a todos os soldados que o serviam que abandonassem a cidade de Parral.

Petra Herrera foi outra das soldaderas que se vestia de homem. E passou a ser Pedro. Tal como Napoleão não precisou de ninguém para se nomear imperador, Pedro não precisou de ninguém para se promover a Generala. A sua forma de combater também fazia correr rios de palavreado por entre o povo mexicano que sentia estar à beira de um mundo novo. Em Torreón, província de Cohauila, foi a sua coragem que catapultou os que obedeciam à mínima das suas ordens para caírem sobre os federais com tal violência que a debandada cobarde se tornou motivo de lenda.  

Ao contrário do que seria de esperar, ou talvez por ser demasiado masculina para os seus gostos, Pancho Villa recusou-se a dar grande crédito à batalha de Torreón. Não foi esse, no entanto, o motivo para que a Generala, depois do combate, regressasse aos seus trajos femininos. Pedro queria voltar a ser Petra e a sentir a mesma autoridade, independentemente do sexo que representava e da vontade de Pancho.

Tomou uma posição complicada mas reveladora da fortíssima personalidade que possuía: esteve-se nas tintas para o grande Pancho Villa e, formando um bando de cerca de mil soldaderas, foi à procura de sarilhos onde pudesse encontrá-los, perseguindo os federalistas por sua conta e risco. Com o tempo, aproximou-se da corrente revolucionária comandada por Venustiano Carranza, e o seu grupo de mulheres soldados foi absorvido pelo exército de Venustiano. Com uma condição que a rebaixou: Carranza não permitiu que tivesse o cargo de general e resumiu-a a coronel.

O agente secreto da CIA que mergulhou profundamente na Revolução Mexicana, Edwin Emerson, escreveu num dos seus relatórios: «O comportamento das mulheres que seguem os guerrilheiros no seu combate, em condições muitas vezes terríveis, tem de ser, no mínimo, considerado como heroico». Las soldaderas marcaram uma época. E afirmaram o seu estatuto: eram mulheres por inteiro! 

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