Tomar partido

A intentona contra Rui Rio

A sorte é que por cada 46 notáveis do PSD, existem mil militantes anónimos e que as elites são pouco respeitadas – talvez porque se deem pouco ao respeito...

A intentona contra Rui Rio

Desde Santana Lopes que não se assistia a tal coisa. E antes dele, com Cavaco Silva. A elite lisboeta é pequena, tacanha, depauperada e sem mundo. Ainda se fossem a Nova Iorque à ópera, a Londres ao Teatro, a Paris buscar caviar, ao Rio de Janeiro pelo charme ou a Viena visitar o quarteirão dos museus, talvez se entendesse. Mas não, limitam-se a rumar em êxodo para o Algarve ou para a Comporta no querido mês de agosto. 
Não são mecenas e salvo honrosas exceções, não pagam universidades, hospitais, bibliotecas e nem uma alma se voluntaria para substituir as cadeiras do S. Carlos que têm as molas numa lástima. Se fossem à ópera saberiam, mas não vão. 

Pouco curiosos, pouco viajados, pouco cultos e pouco ricos, ainda assim se juntam para decidir que fulano ou sicrano não merece os favores da República. Desta nossa República cronicamente falida que se socorreu sempre de vagas de sorte ou rapina, fossem as Descobertas, o ouro, os escravos, ou a Europa. Acomodada a quarenta anos de ditadura que fomentou a pobreza, o comodismo e a inveja: não podem ver uma camisa lavada a um pobre. 

Rui Rio havia sido presidente da Câmara do Porto muitos anos, mas o Porto fica muito longe e a pequena elite decidiu portanto que seria um rústico não merecedor dos salões. Não que Lisboa tenha grandes salões, nem pequenos tem sequer, mas enfim.

Tem algumas pessoas que em circuito fechado falam e distribuem as prebendas possíveis, algumas outras que organizam jantares, algumas vagas de colunistas nos jornais e lugares de comentadores nas tvs. Este poder está concentrado nas mãos de poucas pessoas. A sociedade civil, pujante nos países ricos e desenvolvidos, dotada de massa crítica e olhar vigilante sobre o Estado, em Portugal, nem vê-la.

Embora sendo poucos e poucochinho, decidiram que Rui Rio não servia, assim como tinham decidido que Santana Lopes não servia, nem Cavaco Silva antes dele.

Manda a verdade que se diga que há uma certa tragédia no facto de o nosso ex-Presidente tendo provado desse veneno, não se ter coibido de levantar o copo contra os outros dois presidentes do partido…

Se as manobras já tinham sido visíveis em 2018 e 2020, em 2021 passaram a ser um descarado conluio para derrubar Rui Rio: houve um Presidente da República recetivo, jornais em campanha descarada, notáveis omissos, barões trânsfugas. 

Ao mesmo tempo, internamente, as estruturas do PSD declararam-se do lado de Paulo Rangel. Rui Rio, notavelmente, falou por cima das elites e sem intermediação diretamente para o povo. 

A sorte é que por cada 46 notáveis do PSD, existem mil militantes anónimos e que as elites são pouco respeitadas – talvez porque se deem pouco ao respeito. 

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