Sociedade

Igreja já tem comissão para abusos

Pedopsiquiatra Pedro Strecht vai coordenar equipa responsável por apuramento histórico de abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis no seio da Igreja. Trabalho arranca em 2022.


A comissão nacional independente que vai fazer pela primeira vez em Portugal um estudo histórico sobre a realidade dos abusos sexuais cometidos no seio do clero e instituições católicas já está constituída e os trabalhos vão arrancar em janeiro de 2022. A apresentação aconteceu esta quinta-feira, menos de um mês depois de os bispos terem determinado uma investigação independente. Para liderar a equipa foi escolhido o pedopsiquiatra Pedro Strecht, que apontou para um trabalho complexo e longo, que para já se prevê que venha a durar um ano. 

Em França, a comissão independentemente de investigação de abusos sexuais na Igreja, cujas conclusões reabriram o debate por toda a Europa sobre a cumplicidade da Igreja com abusos e levaram o Papa Francisco a assumir vergonha pelos atos praticados, foi estabelecido um período temporal de 70 anos para apuramento de agressões.

A nova comissão não tem para já um prazo definido, explicou Pedro Strecht, avançando que o período a analisar será definido «a partir da idade mais anterior de qualquer pessoa que se venha a referenciar» ou «dados significativos» que se venham a conhecer.

Acesso a arquivos

O financiamento da comissão está a cargo da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Vai funcionar num espaço «autónomo» e «descaraterizado», disse ainda o responsável. O bispo de Setúbal, presidente da CEP e rosto da decisão histórica da Igreja Portuguesa, que até aqui mantinha reserva quanto aos casos que estavam a chegar às dioceses – não divulgando publicamente quantas denúncias recebeu, investigou e reportou à Justiça desde que foram criadas as comissões diocesanas –, sublinhou que serão garantidos à nova estrutura os meios necessários, o que incluirá o acesso a arquivos históricos. «Como Igreja em Portugal, somos os primeiros interessados em querer lançar luz sobre isso», sublinhou D. José Ornelas. «Apelamos desde já a todas e todos quanto possam ter sido vítimas destes crimes hediondos para que falem. Que relatem, finalmente e sem medo, o que lhes aconteceu», pediu Strecht.

Com o atual calendário, as conclusões poderão chegar em 2023, ano em que Portugal acolherá as Jornadas Mundiais da Juventude, presididas pelo Papa. Da comissão fazem também parte Laborinho Lúcio, juiz conselheiro jubilado, Ana Nunes de Almeida, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o psiquiatra Daniel Sampaio e ainda Filipa Tavares, assistente social e terapeuta familiar, e a cineasta Catarina Vasconcelos. 

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