Cultura

Gato de Joana Vasconcelos em leilão de Lagerfeld

‘Era um visionário e, além disso, gostava muito de desenho, como eu’, recorda a artista, que conheceu o designer em Versailles.

Gato de Joana Vasconcelos em leilão de Lagerfeld

DR  


Na civilização do Antigo Egipto, os faraós eram cuidadosamente embalsamados e sepultados com comida, joias, amuletos e reproduções em miniatura de tudo o que precisassem para a sua vida no outro mundo – incluindo estatuetas que representavam escravos encarregados de aliviar o defunto das tarefas triviais do dia-a-dia. Mas desde há muito que esses preceitos caíram em absoluto descrédito. A crença atual é que «desta vida não se leva nada, fica cá tudo».

O acerto dessa máxima popular resulta evidente do espólio do estilista Karl Lagerfeld, que está a ser leiloado pela Sotheby’s. São mais de mil lotes variados, que incluem obras de arte antigas e contemporâneas, lustres e candelabros, louça de mesa e faqueiros de prata, espelhos, sofás, mesas, cadeiras, objetos de design, quinquilharia, roupa de casa (há um lote composto por 276 fronhas para almofadas), malas de viagem, estojos e guarda-joias com o monograma KL, além de desenhos feitos pelo estilista e, claro, peças de roupa assinadas por costureiros famosos. Entre os items mais valiosos encontram-se três soberbos Rolls Royce, com estimativas que rondam os 300 mil euros cada.

‘O Karl gostava muito desta peça’

A Sotheby’s descreve esta imensa coleção de objetos de luxo e de vaidade, cujo leilão foi repartido em cinco momentos (3-5 de dezembro no Mónaco, 14 e 15 de dezembro em Paris e em março de 2022 em Colónia, além de duas sessões exclusivamente online), como «uma antologia do seu gosto pessoal mas também da sua vida e carreira». Para os mais voyeuristas, o conjunto oferece uma janela privilegiada para o mundo ultraprivilegiado do estilista alemão.

Entre os lotes da venda que ontem começou no Mónaco encontra-se uma obra de 2013 da portuguesa Joana Vasconcelos, Choupette. Trata-se de um gato de faiança Rafael Bordalo Pinheiro coberto por frioleiras, uma técnica tradicional de renda, e mais do que quadruplicou a estimativa inicial de 5 mil euros.

«A parte gira da história da Choupette é que nós já tínhamos feito outras peças em memória de animais que tinham morrido, mas até àquela altura nunca tínhamos feito uma peça enquanto homenagem para um animal vivo», declara Joana Vasconcelos ao Nascer do Sol. «E, ainda para mais, um animal real com uma história e uma envolvente tão forte como a Choupette. Porque o Karl gostava muito da Choupette e gostava muito desta peça».

De facto, Lagerfeld tinha uma autêntica devoção por aquele gato de «olhos azuis, azuis, azuis» e pêlo branquíssimo. Contratou duas amas para cuidarem dele e pedia a chefes conceituados para lhe prepararem as mais requintadas iguarias de peixe cru e carne de vaca japonesa.

O estilista gabava a «elegância» e a «atitude» do felino: «Há nela algo de inesquecível, a maneira como anda, a maneira como brinca». À CNN, em 2013, chegou a lamentar não ser permitido o «casamento entre seres humanos e animais… Nunca pensei que pudesse apaixonar-me assim por um gato». Mesmo sem se casarem, dormiam juntos e consta que Lagerfeld lhe deixou em herança uma parte substancial da sua fortuna.

De criança mimada a vampiro da moda

«O Karl era um personagem, um visionário e, além disso, era um homem que gostava muito de desenho, como eu», continua Joana Vasconcelos. «Achava que o desenho estava na base de tudo. Ele foi a Versailles ver a minha exposição, quis conhecer-me, e quando o conheci percebi que ele comunicava com o mundo através da moda, mas na verdade a sua base era o desenho, como acontece no meu trabalho. Ele entendia o mundo através do desenho, tal como eu. A partir daí fomos criando uma relação, fizemos coisas juntos… A verdade é que o Karl era um tipo único, com um entendimento especial», conclui a artista.

Nascido em Hamburgo a 10 de setembro de 1933, Karl Lagerfeld reconhecia ter sido «uma criança muito mimada», ao ponto de ser tornar «insuportável».

Nunca estudou e descreveu a sua carreira como «uma improvisação completa». Instalou-se em Paris em 1953, onde dois anos mais tarde participou num concurso de design de moda. Não apenas venceu na categoria ‘casaco’ como conheceu Yves Saint Laurent. Pouco depois começou a trabalhar com Pierre Balmain, de quem se tornou assistente e discípulo.

Logo em 1958 assumiu a direção artística da Jean Patou. Seis anos volvidos mudou-se para Roma, onde estudou História e trabalhou como freelancer para várias casas de moda. Em 1967 foi contratado para a Fendi para renovar a secção de casacos de peles.

Sentia-se à vontade no mundo da moda, onde convivia com modelos, atrizes, primeiras-damas e a realeza. O salto definitivo deu-se em 1982, quando foi contratado para dirigir a casa Chanel, que já conhecera melhores dias. «Quando tomei conta dela, a Chanel era a Bela Adormecida. Nem Bela era. Ressonava. Mas os donos sabiam. Por isso é que me convidaram», recordou sem modéstia.

Não tinha medo de ofender e considerava-se a si próprio um «vampiro da moda». «Levo o que preciso e deixo o resto». Morreu a 19 de fevereiro de 2019 em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris.

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