Opiniao

Carta a médicos pouco resilientes

Segundo a ministra, os médicos (as) não têm capacidade de resiliência, têm, sim senhor, capacidade de resiliência, mas não têm de certeza capacidade de entender uma frase. Tudo isto ao mesmo tempo.


por João Cerqueira - Escritor

Caros médicos e médicas pouco resilientes,

A ministra da Saúde acusou-vos de não terem a devida resistência física e mental para exercerem a vossa profissão.

Vossas Excelências sentiram-se ofendidos e o vosso Bastonário sugeriu a sua demissão. Depois, o Presidente da República tomou as vossas dores e defendeu a vossa honra, dando um puxão de orelhas à Ministra. E, só então, esta resolveu retratar-se: compungida, começou por pedir-vos desculpa, do fundo do coração, mas terminou indignada passando-vos outro atestado de incompetência, este o de não terem capacidade de discernir o significado das suas palavras. 

O caso ficou assim ainda mais complicado. Segundo a ministra, os médicos (as) não têm capacidade de resiliência, têm, sim senhor, capacidade de resiliência, mas não têm de certeza capacidade de entender uma frase. Tudo isto ao mesmo tempo. E está criado um paradoxo que rivaliza com o de Epiménides quando afirmou que todos os cretenses mentiam – inclusive ele próprio.

No entanto, por entre as águas turvas da antinomia a primeira afirmação da ministra afigura-se verdadeira. É indiscutível que os médicos têm uma das profissões mais exigentes e desgastantes; fazem turnos de 24 horas seguidas nos hospitais tendo de tomar decisões que implicam a vida ou a morte dos doentes; lidam, todos os dias, com corpos desfeitos em acidentes, sangue e vísceras, corpos queimados, corpos carcomidos pela doença; têm de fazer amputações, coser a carne rasgada, tentar reanimar mortos; estão expostos a todos os vírus, bactérias e bicharada mortífera; carregam o peso de não terem conseguido salvar vidas, enfrentam o sofrimento dos familiares e, por vezes, a sua ira. Mas, pior do que isto tudo, têm de trabalhar com a ministra. Logo, a classe médica até parece demonstrar uma considerável resistência física e psicológica pois não abandona a profissão. 

Mas não chega. No campeonato da resiliência estão muito abaixo dos campeões que resistem a tudo: os ministros socialistas e seus adjuntos.

Que médico (a) pode competir com os antigos ministros, secretários de Estado, chefes de gabinete e assessores de José Sócrates que resistiram à bancarrota, à troika e à prisão do seu líder, voltando ao poder como se nada tivesse acontecido? Isso é muito mais difícil do que passar dois anos em contacto com doentes de covid ou a vida toda na ala dos cancerosos. E se tomarmos como exemplo a resiliência do ministro Eduardo Cabrita, que atropela todas as contrariedades que lhe vão surgindo no caminho, então nem sequer os médicos pombalinos que socorreram as vítimas do terramoto de Lisboa se lhe podem comparar.

Portanto, caros médicos e médicas a vossa resiliência é razoável, mas está a milhas da dos grandes mestres da política portuguesa que resistem a tudo. Precisam, pois, de incluir este tipo de competência nos vossos simpósios. Convidem os referidos governantes para vos explicar como se aguenta a pressão e se escapa às responsabilidades, e irão ver como as vossas competências sairão reforçadas. Por exemplo, da próxima vez que o SNS estiver próximo do colapso façam como a ministra: deitem a culpa num inferior hierárquico, alguém que não tenha responsabilidade nenhuma, mas que sirva de bode expiatório. Por exemplo, as senhoras da limpeza ou a meninas do bar.

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