Falar Baixinho

Vacinados e não vacinados: 'filhos e enteados'

Independentemente da idade, desde que as vacinas sejam seguras, não faz sentido não as disponibilizar a quem entender de forma ponderada e informada vacinar os seus filhos. Mas isso não pode implicar que quem não vacinar os seus filhos tenha de os sujeitar a testes a toda a hora

Vacinados e não vacinados: 'filhos e enteados'

Para começar o advento, a partir do dia 1 de dezembro as medidas voltaram a apertar, sobretudo para quem não está vacinado. Se quer ir almoçar fora ou ao cinema e está vacinado pode fazê-lo tranquilamente, mas, se não está vacinado, então é visto como possível portador do vírus e terá de fazer um teste para provar que não vai pôr ninguém em perigo.

Nunca se pensou – embora agora até já se ache normal – que em pleno século XXI fosse possível criar-se uma diferenciação destas entre as pessoas. Ainda que mais de metade dos contágios (e dos óbitos) seja entre vacinados (como é natural dada a elevada adesão à vacina), os não-vacinados são vistos como o diabo. 

Se estas regras são esquisitas para os adultos, o que dizer em relação aos mais novos? Um adulto vacinado entra e almoça num restaurante sem problema, ainda que a probabilidade de estar infetado e de contagiar outra pessoa não deva ser inferior à de um jovem de, por exemplo, 12 ou 13 anos não vacinado. No entanto, o jovem tem de fazer um desses testes que tiram logo o apetite, se se quer juntar ao almoço com os pais vacinados, por exemplo. Mesmo que seja só para dar umas dentadas numa sanduíche no vasto food court do centro comercial.

Acontece que muitos jovens não estão vacinados porque esta decisão nunca chegou a ser consensual entre os entendidos. E mesmo que contraiam o vírus são assintomáticos ou apresentam sintomas ligeiros. Ou seja, a maior razão para a vacinação desta faixa etária é a de protegerem os mais velhos e, sobretudo, terem uma vida social mais livre. Mas será razoável fazer esta espécie de chantagem e discriminação entre os vacinados e não vacinados? Será aceitável discriminar num grupo de jovens os que têm de fazer teste para ir almoçar fora ou ao cinema? Ou numa turma com um caso positivo colocar em isolamento os alunos não vacinados e manter todos os outros nas aulas sem problema? Por esta ordem de ideias imagino o que dirão de um jovem não vacinado que apareça na escola infetado. Enquanto o vacinado seria o coitadinho azarado, este seria o criminoso irresponsável. 

Independentemente da idade, desde que as vacinas sejam seguras, não faz sentido não as disponibilizar a quem entender de forma ponderada e informada vacinar os seus filhos. Mas isso não pode implicar que quem não vacinar os seus filhos tenha de os sujeitar a testes a toda a hora. Ou que famílias deixem de fazer refeições fora para não sujeitarem os filhos ao cotonete. Pode-se dizer que não é o fim do mundo almoçar ou jantar sempre em casa. Sim, talvez não seja.

Ou que não morrem por fazer um teste. O que também é verdade. Mas também não é absurdo ir a um restaurante sem ter de fazer um teste antes! Será que um jovem não vacinado tem uma probabilidade assim tão diferente de um jovem ou um adulto vacinado de estar infetado e contagiar as pessoas das outras mesas que justifique esta discriminação? Seria assim tão descabido as regras serem iguais para todos?

Por este andar qualquer dia vai ser obrigatório apresentar certificado digital na cantina da escola. Bom, mas o melhor é não dar ideias.

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