Cultura

José Carlos Barros vence o Prémio Leya

Na primeira edição em que o prémio cai para metade do valor pecuniário, calhou a um poeta o triunfo, levando 50 mil euros para casa com um romance intitulado As Pessoas Invisíveis.


O Grupo Leya tem andado à procura de comprador. Não é difícil de entender: a vida dos livros há muito vem sendo contada segundo o registo do naufrágio. Se este grupo pusesse anúncio nos classificados, ser-lhe-ia difícil dar a volta à frase, e ainda que os atributos em seu nome tenham sido tantos, hoje resta essa casa imensa e algo fantasmagórica num povoado junto ao mar, onde vai levando a vida de um nobre arruinado entre as ruínas da sua inteligência. Entretanto, em busca de um novo fôlego, a liderança do grupo passou para a ex-deputada do CDS Ana Rita Bessa, e embora o valor pecuniário do prémio tenha dado um tombo (dos 100 mil euros passou a metade), a Leya apressou-se a sublinhar que mesmo assim este continua a ser “o galardão literário de valor mais elevado instituído e sustentado no espaço da lusofonia por uma entidade privada”.

Nesta primeira edição deflacionada do prémio, o júri, uma vez mais presidido por Manuel Alegre, após reunir por videoconferência na segunda-feira, decidiu atribuir por unanimidade os 50 mil euros ao romance As Pessoas Invisíveis, de José Carlos Barros, e ressalvou “o trabalho de linguagem, o domínio de uma oralidade telúrica a contrastar com a riqueza de vocabulário e de referências histórico-sociais” do romance, “uma viagem por vários tempos da história recente de Portugal, desde a década de 40 do século XX”. Nem é a primeira vez que o autor se inscreve no prémio, tendo já em 2012 sido um dos finalistas. Nascido em Boticas em 1963, e licenciado em arquitectura paisagista, José Carlos Barros é sobretudo reconhecido como poeta, aliando a uma leitura lúcida da realidade, desde logo essa que fica além dos centros urbanos, uma abrangência que desdobra o país em ecos mais agrestes ou suaves, e faz dele mundo, sem nunca abdicar de uma ironia e derisão que se diria mansamente camiliana, tendo claro que não há literatura sem decepção. Por outro lado, talvez seja isso o que lhe permite conciliar o que, hoje, parece inconciliável, tendo sido deputado do PSD, num empenho com causas específicas, entre elas o combate ao absurdo Acordo Ortográfico de 1990, além de, a nível local, ter desempenhado outros cargos políticos, tendo sido também director do Parque Natural da Ria Formosa. E a prova desse acento irónico que atravessa a sua obra pode fazer-se num poema como “O crítico literário vai de férias à província”. Ei-lo: “Da varanda do quarto/ viam-se/ em vez das aliterações/ o vale// e os pinheiros bravos/ a subir/ o monte. Acordava-se assim/ a ver as coisas// concretas. Como se/afinal/ além da literatura houvesse// mundo: casas;/ pessoas; pássaros que/ voavam mesmo.”

É bem provável que, depois desta distinção ter conseguido levantar aquele vento que o poeta reconhece que se vier dos poemas nem mexe uma folha, no fim, o romance fará o seu caminho em direcção ao esquecimento geral em que foram caindo os anteriores romances contemplados com este prémio, sendo certo que estas instâncias no nosso país se, por um lado, têm mostrado grande dificuldade em mobilizar leitores e produzir algum sobressalto, reordenando o espaço literário, vão servindo, por outro lado, para a perpetuação de um núcleo duro de figuras que se enquistaram enquanto decisores do que merece apreciação em termos literários. Veja-se a restante constituição do júri e como esta se repete de prémio para prémio: Ana Paula Tavares, escritora e poeta angolana; Isabel Lucas, colaboradora do Público; José Carlos Seabra Pereira, professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Coimbra; Lourenço do Rosário, professor de Letras, fundador e antigo reitor da Universidade Politécnica de Maputo; Nuno Júdice, poeta e escritor; e ainda Paulo Werneck, editor da revista literária Quatro Cinco Um. 

No comunicado do júri, divulgado na conferência de imprensa esta terça-feira na sede do grupo editorial, lê-se que o romance As Pessoas Invisíveis é “narrado a partir de uma personagem ambígua, Xavier, que age como se tivesse um dom, ou como se precisasse de acreditar em ter um dom”. A "ambição do ouro, a posição de Salazar face à Guerra, a guerra colonial com todas as questões que hoje levanta, o nascimento e os primeiros anos da democracia" são alguns dos seus temas.

“Em todas essas paisagens e em todos os tempos que o romance toca, a palavra é de quem não a costuma ter. Dramática, velada, fugaz, lapidar, tocada pelo sobrenatural. Os habitantes do mundo rural ou os negros das colónias. São seres quase diáfanos que sublinham uma sensação de quase perdição que atravessa todo o livro e constitui um dos seus pontos mais magnéticos. Em As Pessoas Invisíveis, o leitor é convocado para preencher com a sua imaginação o não dito, os silêncios, o invisível”, refere ainda o comunicado.

E com tudo o que há de prometedor num romance premiado, que sairá por aí embalado numa campanha comercial agressiva, no fim, depois da muita farra com que se atira na corrente mais escolhos à espera que de um naufrágio antigo venha a erguer-se algo em que possamos zarpar daqui, é mais fácil que um dia, mais tarde, nos viremos para algum dos poemas do autor. Este, por exemplo:

"Se o poema pudesse ser um número
ou uma pedra de calcário.
Se o poema fosse uma arte produtiva.
Se pudesse não
apenas descrever a obscura luz de um poço
mas simultaneamente mover os rolamentos da
máquina hidráulica que
traz o balde de zinco
do mais fundo dos veios da água.
Se o poema alinhasse um bloco desacertado
e depois outro
erguendo em linhas a direito
os muros das propriedades.
Se o poema derruísse os taludes instáveis das áreas de risco
ou delimitasse os
tão desejados perímetros de segurança
nas manifestações da polícia.
Se curasse as doenças de pele.
Se tivesse os efeitos de um protector de
ecrã total
quando nos expomos  ao
rumor imperecível do levante.
Se o poema fosse uma farmácia ou
uma oficina de bicicletas.
Se disparasse balas verdadeiras contra os facínoras
e o seu eco nos acompanhasse nas
noites da insónia revertida dos espelhos onde
nos olhamos no dia vinte e
sete de novembro de todos os anos.
Se o poema nos acordasse quando os
exércitos precisam de reforços.
Se um poema ganhasse as eleições intercalares oh

isso era dinheiro em caixa."

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