O mundo em calções

O homem do sorriso torto

O terrível golpe de Jack Johnson deixou o queixo de Tommy Burns dependurado, mas ele não aceitou a derrota


Tommy Burns nasceu com o nome de Noah Brusso. Ficaria para a história como o único canadiano a ser campeão do mundo de pesos pesados. Tinha tanto de fanfarrão como de corajoso. Decidiu que viajaria em redor do planeta pondo o título em jogo frente a quem se atrevesse a subir ao ringue com ele: «I will defend my title against all comers, none barred. By this I mean white, black, Mexican, Indian, or any other nationality. I propose to be the champion of the world, not the white, or the Canadian, or the American. If I am not the best man in the heavyweight division, I don’t want the title». Era de homem, convenhamos.

Brusso nasceu em junho de 1881 numa aldeia de pescadores chamada Normanby, perto de Hanover, no Ontário, e foi o décimo segundo de uma ninhada de treze filhos que um casal pobre imigrado de Itália trouxe ao mundo. Gostava de andar à pancada na rua e gostava ainda mais quando, ao redor dele e de outro qualquer miúdo sarrafeiro como ele, se juntava um grupo de adultos dispostos a fazer apostas. Talvez tenha surgido aí a sua atração pelo risco. A verdade é que, em 1904 já combatia como profissional sob o nome meio escocês de Tommy Burns. Um pouco baixote para peso pesado (1m70), tinha a energia e a tenacidade de um scottish terrier. Deitá-lo abaixo era uma proeza. E assim, rapidamente, subiu ao topo do boxe mundial e bateu Marvin Hart, o Canalizador de Louisville, que tinha uns bons mais 15 centímetros do que ele, num combate renhido, disputado em Los Angeles, no dia 23 de fevereiro de 1906, pelo título de pesados. Até então, com a exceção do grande Robert James Fitzimmons, AMaravilha Sardenta, nascido por entre os vendavais da Cornualha, todos os campeões de pesos pesados tinham sido conquistados por norte-americanos e, também tirando Fitzimmons, que defrontou Jack Johnson, o Gigante de Galveston, sempre defendendo os títulos contra adversários mais brancos possível.

Noah, ou melhor, Burns, atirou-se alegremente para sua viagem em redor do mundo, marimbando-se por completo para a cor de pele dos seus desafiadores. Para ele, o boxe era uma questão de força e de técnica e não um campo de discussão sobre superioridades raciais bacocas. Com o seu estilo direto, de movimentos serenos e socos desferidos com precisão e potência, passou por Inglaterra, Irlanda, França e Austrália, espancando os respetivos campeões de cada país com a ligeireza de um fedelho que colhe dentes-de-leão num campo de papoilas. Era de tal forma democrático que se tornou o primeiro campeão a defrontar um boxeur judeu, neste caso o britânico Joseph Jewey Smith, numa noite de gala em Paris.

Ao contrário do que sucedera com Fitzimmons, que se limitara a um confronto amigável contra Jack Johnson, Tommy aceitou pôr o título mundial em jogo contra aquela montanha de carne e músculos com cor de baquelite. Mas não de borla. Talvez porque já imaginasse que, a despeito da sua natural protérvia, que estavam reunidas as condições para que tudo corresse mal. E assim, o extraordinário embate que teve lugar em Sidney, na Austrália, obrigou o promotor, um fulano chamado Hugh Donald McIntosh – conhecido muito expressivamente por Huge Deal – a desembolsar 30 mil dólares para lhe pagar a derrota mais do que provável. Já Johnson, pelo simples facto de não ter nascido louro e de olhos azuis, recebeu 5 mil. Aproveitou para se desforrar, pondo Burns de joelhos ao 14.º de 20 assaltos.

Tommy era meio folião, mas não levou a derrota muito a bem. Tanto assim que se recusou a aceitar a decisão do árbitro Hugh McIntosh de o dar como incapaz e obrigou a polícia a intervir e terminar definitivamente o combate no meio de uma confusão tremenda que evoluiu para diretos, jabs e uppercuts por entre o público. De cara à banda e queixo partido, Burns insistia que estava perfeitamente em condições para ainda dar, segundo ele, uma lição a Jack. Não deu. Deixou de ser campeão do mundo e não tardou a ser o proprietário de um speakeasy em Nova Iorque, aqueles bares que serviam álcool clandestinamente no tempo da Lei Seca. Pode dizer-se que a sua digressão mundial fez dele um homem rico. Mas, como gostava de correr riscos, investiu na bolsa tudo o que tinha e ficou sem nada na Wall Street Crash de 1929. Sobreviveu a vender seguros antes de ser ordenado ministro da Igreja Evangelista de Coalinga, Califórnia. Tinha sempre um sorriso nos lábios, apesar de ser um sorriso torto. O golpe que Johnson lhe deu no queixo marcou-o para sempre.

Os comentários estão desactivados.