Crónica de uma ópera

No alto da serra

No alto da serra

Por Eduarda Freitas

Quando o meu filho, o Afonso, tinha uns 3 anos, chamava ao Fernando Lapa, o compositor da Mátria, Fernando Lápis.

Sempre que ouvia uma música perguntava: «é do Fernando Lápis?». Não fui capaz de o corrigir porque lápis é uma boa palavra para quem escreve, neste caso, música. Por isso, parecia-me ajustado e, até de certa maneira, o nome correto.

Por essa altura, a Mátria andava já a ser apresentada como uma ópera que estava a nascer no Douro. Para integrar a comunidade, fizemos uma série de concertos de rua com coros amadores. As músicas, quase todas de caráter tradicional, tinham arranjos do Fernando Lapa. Uma delas cantava as palavras de Teixeira de Pascoaes: «Vem do Marão, alta serra, o luar da minha terra». Era um arrepio de pele sempre que se ouvia pelas ruas, mais de 200 pessoas a fazê-lo, todas elas com a serra do Marão nos olhos e nas gargantas. Nessa mesma altura, o meu pequeno Afonso acompanhava todo o processo do Fernando Lápis e ainda com a língua a falar com um «axim» em vez de «assim», não se inibia de cantar: «Vem do Marão motosserra! o luar da minha terra!». Ou seja, «motoxerra». Era um duplo sorriso sempre que o ouvia. E também não o corrigi. O tempo passou. O Afonso já tem 8 anos, já sabe que é Lapa, o Lápis que sempre ouviu, e conhece bem o alto da serra. Do Marão, do Alvão, da Estrela…de todos os sítios onde o céu fica mais perto das nossas mãos. 

Esta Mátria é feita de gente, já o disse. Um dos coros que participou na primeira fase, tinha uma senhora que emoldurou uma t-shirt da Mátria. Nesta segunda fase, o João vem de Lisboa para Vila Real várias vezes ao mês, para participar no coro da comunidade. O Ángel, encenador, faz esquemas e fotografias com bloquinhos de madeira a simular os elementos dos coros. E ele, que tem os olhos feitos de melancolia, faz o milagre de fazer rir, como os palhaços tristes, e de fazer acontecer em palco, o que, sinceramente, parece impossível. Pessoas que nunca fizeram teatro ou dança, fazem agora de tudo: cantam, são calhaus, videiras, cestos, úteros, cartas de amor, e árvores que abanam aos olhos de um bêbado. 

Não sei se as ideias que dançam nas nossas cabeças vão ser percetíveis em palco. Talvez não. Talvez sejam feitas do mesmo material dos sonhos. Acordam-se em nós e já são outra coisa.

Autora do libreto e produtora da ópera Mátria https://www.facebook.com/matria.pt

 

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