Cultura

Olga Benário. Uma mulher misteriosa

Nascida em Munique, na Alemanha, com Guttmann como nome de família, foi enviada para o Brasil, em 1934, por determinação da InternacionalComunista. Com o seu companheiro, Luís Carlos Prestes, procurou armar uma revolução. Acabou deportada e executada pelos nazis numa câmara de gás em Bernburg.


Eduardo Galeano escreveu sobre ela no seu livro Mulheres: «Olga Benário imaginava-o gigantesco e devastador. Grande surpresa teve ao conhecer o Grande Capitão. Prestes mostrou-se um homenzinho frágil que corava muito quando Olga o olhava nos olhos. Ela, forjada nas lutas revolucionárias na Alemanha, militante sem fronteiras, veio ao Brasil. E ele, que nunca tinha conhecido mulher, foi por ela amado e edificado». Este momento romântico entre dois idealistas de revoluções teve lugar no ano de 1934. Olga Guttmann Benário tinha uma missão a cumprir e essa missão fora-lhe entregue pela Internacional Comunista, o Comintern, organização fundada por Vladimir Lenine e pelo Partido Comunista da União Soviética (PCUS) em Março de 1919, com o objetivo de reunir os partidos comunistas dos mais variados países possíveis.

Não restam dúvidas que o encontro entre Olga e Luís Carlos Prestes mudou definitivamente a vida de ambos. E não apenas por razões do coração. Nascida em Munique, a 12 de Fevereiro de 1908, Olga começou por ser uma menina fina.

O pai, Leo Benário, advogado de renome, destacado membro do Partido Social Democrata Alemão, era um benemérito. Fazia o que podia para auxiliar todos os que recorriam à sua natural bondade. Algo que criou na jovem filha uma ideia igualitária e solidária que viria a marcar toda a sua existência. 

Aos 15 anos, Olga tornou-se membro do Grupo Schwabing, uma organização comunista para adolescentes, mas não tardaria a mudar-se para Berlim na companhia do namorado bem mais velho, o professor Otto Braun. De episódios de amor entre professores e alunas está o Inferno cheio. O Inferno e a literatura. Apesar de tudo, Olga não perdeu a sua atitude independentista. Se fora capaz de confrontar o pai com frequência, não tornou fácil a vida do professor Otto. Se o Grupo Schwabing a aproximara do comunismo, em Berlim tratou de se filiar no Partido Comunista e de assumir o cargo de Secretária da Agitação e Propaganda. Uma tarefa que encaixava como uma luva de pelica na sua personalidade inquieta e empreendedora.

Tal como costuma acontecer a jovens intervencionistas, não tardou a ganhar consciência do desconforto das esquadras. Em 1926 estava presa. Fora acusada de rebelião contra a República de Weimar, essa experiência não muito bem sucedida de implantar na Alemanha uma Democracia Representativa Semi-Presidencial logo a seguir ao final da I Grande Guerra e que seria arrasada com a chegada do Partido Nacional Socialista ao poder. Os alemães continuavam a considerar-se, pomposamente, um Império, a despeito da humilhação a que foram submetidos pelo Tratado de Versalhes.

Os inquiridores estavam interessados na figura do professor Otto Braun e procuraram sacar, através da mulher, todo o tipo de informações que consideravam úteis. Depois de três meses de firme intransigência e silêncio absoluto, Olga voltou à liberdade. Não tardaria a agir. Até porque Otto fora, entretanto, encerrado na terrível prisão de Moabit, sentenciado por traição à pátria, coisa nada agradável, como se pode imaginar.

De Moscovo a Natal

O ataque à prisão de Moabit, um edifício sinistro no centro da antiga Berlim, executado em Abril de 1928, ganhou foros de episódio marcante para o Partido Comunista Alemão. E fez de Olga uma figura marcante no espetro revolucionário da época. Informações que levassem à sua captura atingiram os cinco mil marcos, motivo mais do que suficiente para que tivesse decidido fugir para Moscovo na companhia de Otto que conseguira tirar da cadeia. Na União Soviética, e colocada num cargo importante do PCUS, recebeu formação militar, algo que viria a ser tão útil como fatal no decorrer da sua existência. Em 1931, a relação de Olga com Otto chegou ao fim. A missão de Olga não contemplava uma vida familiar. Pelo menos no imediato. Fora-lhe atribuída a chefia de uma missão que a ia levar para o outro lado do mundo.

Luís Carlos Prestes entrou na existência de Olga ainda em Moscovo. Entre 1925 e 1927, Luís, um militar gaúcho, tinha posto em marcha a Coluna Prestes, um movimento com duas frentes de atuação, nos Estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul, com o objetivo de derrubar militarmente a República Velha, um período da história brasileira que abrangeu as presidências de Arthur Bernardes e Washington Luís, que viria a ser deposto pela Revolução de 1930. O historiador Boris Fausto descreveu assim esse movimento: «A Coluna realizou uma incrível marcha pelo interior do país, percorrendo cerca de 24 mil quilómetros até Fevereiro/Março de 1927, quando seus remanescentes deram o movimento por terminado e internaram-se na Bolívia e Paraguai. Seus componentes nunca passaram de 1.500 pessoas, oscilando muito com a entrada e saída de participantes transitórios. A Coluna evitou entrar em choque com forças militares ponderáveis, deslocando-se rapidamente de um ponto para o outro. O apoio da população rural não passou de uma ilusão, e as possibilidades de êxito militar eram praticamente nulas. No entanto, teve um efeito simbólico entre setores da população urbana insatisfeitos com a elite dirigente. Para esses setores, havia esperanças de mudar os destinos da República, como mostravam aqueles heróis que corriam todos os riscos para salvar uma nação».

As ordens de Olga eram claras e vinham diretamente do topo do Comintern: fazer Prestes regressar ao Brasil em plena segurança de forma a retomar a sua ação revolucionária. Conhecida na Rússia como Olga Sinek, planeou uma viagem longa, com várias etapas, de forma a despistar qualquer possibilidade de vigilância e de controlo. Cabia-lhe o papel de se fazer passar por mulher de Luís e, como geralmente acontece com os homens e mulheres que passam muito tempo juntos, acabaram por partilhar tudo, até a cama.

Nessa altura, a presidência do Brasil era ocupada por Getúlio Vargas, o antigo governador do Rui Grande do Sul que submergira da Revolução de 1930 com a missão de reorganizar a República e se manteve no cargo durante 15 anos, de 1930 a 1945, tendo regressado mais tarde, em 1951, à cadeira presidencial da qual cairia três anos e meio mais tarde dando um tiro no coração num momento de solidão nos seus aposentos do Palácio do Catete. Nas eleições de dia 1 de Março de 1930, foi ele que impediu Júlio Prestes de Albuquerque (que era parente de Luís), apoiado por 17 dos vinte governadores dos Estados brasileiros, de agarrar a presidência que lhe tinha sido entregue. Pela contagem oficial reconhecida pelo Congresso Nacional, Júlio batera Getúlio pela confortável Margem de 1.091.709 votos contra 742.794. E assumiu o cargo viajando em digressão por Paris, Londres e Washington, local onde proferiu um profético discurso, afirmando que o Brasil nunca mais seria dominado por uma ditadura. Quando regressou ao Brasil já tinha sido deposto e viu-se obrigado a pedir asilo político ao consulado britânico. A famosa Revolução de Novembro de 1930 tinha deixado o país nas mãos dos militares que entregaram a cadeira de Júlio a Getúlio Vargas, conhecido popularmente por O Pai dos Pobres. No ano seguinte, Júlio Prestes dava início ao seu exílio em Portugal ao mesmo tempo que a Era Vargas dava os primeiros passos da sua presença no poder no Brasil. Foi em Lisboa que escreveu o seu mais pungente lamento: «O que não compreendo é que uma nação, como o Brasil, após mais de um século de vida constitucional e liberalismo, retrogradasse para uma ditadura sem freios e sem limites como essa que nos degrada e enxovalha perante o mundo civilizado!».

Consultando os canhenhos da História, pode caracterizar-se a Era Vargas pela centralização do poder político e o consequente enfraquecimento das oligarquias regionais, especialmente a paulista; pela modernização económica, sobretudo após a Crise de 1929, que exigiu uma aceleração na política de substituição de importações, isto é, a produção de maquinaria industrial em solo brasileiro, que resultou no desenvolvimento dos setores como a siderurgia e a metalurgia; o enfrentamento da insatisfação de São Paulo, que exigia uma Assembleia Constituinte, já que Getúlio governava de forma provisória com o apoio do Exército, tendo dissolvido o Poder Legislativo.

A Intentona e a prisão

É contra esta situação que Olga e Luís levam a cabo a preparação de uma insurreição militar. Prestes, com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (apesar de, mais tarde, ter surgido a teoria de que a sua sublevação se tinha dado à revelia da direção do partido) e a aura de poder que lhe era reconhecida pela intervenção da Internacional Comunista, não tardou a pôr em marcha a que ficou conhecida por Intentona Comunista (ou por Revolta Vermelha) de 1935. A sua amante, Olga Benário, não era o único elemento estrangeiro que incorporava o movimento. Com ela, tinham chegado ao Brasil figuras como Rodolfo Ghioldi, um dos dirigentes da Federación de Juventudes Socialistas da Argentina, criada logo após a subir ao poder dos sovietes, em 1917, e o alemão Arthur Ernest Ewert, conhecido pelo nome de Harry Berger, com funções de destaque no Escritório para a América Latina do Komintern.

Luís Prestes havia sido um apoiante do tenentismo, movimento político-militar baseado em numa série de rebeliões de jovens oficiais de baixa e média patente do Exército Brasileiro (tenentes), de camadas médias urbanas, que estavam insatisfeitos com o governo da República Oligárquica no início da década de 1920. Agora, à frente da Aliança Nacional Libertadora, procurava conjugar outra série de insurreições como nunca se vira noBrasil até então. Tudo teve início no Rio Grande do Norte, na cidade de Natal, no dia 23 de Novembro, com a queda do governador Rafael Fernandes Gurjão, que fugiu para o Chile. Instalou-se um Governo Revolucionário Provisório – o primeiro governo comunista da história sul-americana –, mas sem grande sucesso já que as principais guarnições militares não aderiram ao amotinamento, acabando os revoltosos por serem perseguidos, presos e mortos pela Polícia Federal.

No Estado de Pernambuco, no dia seguinte, instalou-se a violência. Civis armados atacaram as esquadras em Olinda e no Recife. Na capital, no Largo da Paz, a batalha concretizou-se com os rebeldes a instalarem metralhadoras na torre da igreja e iniciando um tiroteio com as forças governativas que durou 28 horas. 720 cadáveres ficaram para trás quando os comunistas, obrigados a recuar, fugiram para o interior do Estado. Precisamente no mesmo dia e à mesma hora, o movimento avançou no Rio de Janeiro, tendo como objetivo tomar de assalto os quartéis do 2º e do 3º Regimentos de Infantaria, avançando para o Batalhão de Comunicações e para a Escola de Aviação, neste caso com a missão de capturar aparelhos para bombardearem a cidade. 

Não restam, hoje, dúvidas que Luís Carlos Prestes se convenceu erradamente que o seu prestígio popular levaria ao arrasto de multidões. Isso não aconteceu. Além do mais, tinha no seio do seu grupo, um infiltrado, membro do M16 britânico, Johann Heinrich Amadeus de Graaf, que ia dando conhecimento às forças governamentais dos locais escolhido para as rebeliões. Um a um, os motins caíram como uma fila de peças de dominó. Desaparecido na clandestinidade, Luís viria a ser preso na manhã do dia 3 de Março de 1936, ingenuamente instalado na casa da família situada no Méier, um dos subúrbios do Rio. Filinto Müller, chefe da Polícia do Distrito Federal, mandou-o para os calabouços ainda de pijama. Olga Benário acompanhou-o. O casal utilizava passaportes portugueses com os nomes de António Vilar e Maria Bergner Vilar – estado civil: casados. Olga estava grávida.

Os magistrados do Superior Tribunal Federal Brasileiro estiveram-se nas tintas para a gravidez de Olga. Mesmo tendo conhecimento de que era judia, ordenaram a sua deportação para a Alemanha que já caíra sob o jugo nazi. Metida no navio La Coruña, foi recebida em Hamburgo pela Gestapo e enviada para a prisão feminina de Barnimstrasse, em Berlim, onde nasceu a sua filha Anita Leocádia Prestes. Por via de uma forte pressão internacional, Anita acabaria por ser entregue à avó paterna, Maria Leocádia Felizardo Prestes. Tinha, na altura, 14 meses de existência. A sua mãe, entretanto, andava de campo de concentração em campo de concentração: primeiro Litchtenburg, depois Ravensbrück, finalmente Bernburg. Aos 34 anos entrou numa câmara de gás e o seu nome desapareceu nos arquivos da polícia secreta alemã. 

Pelo caminho, Luís aguentou-se. Depois de lhe ter sido retirado o posto de capitão, cumpriu uma pena de prisão que durou nove anos. Em 1940, noutro julgamento, foi condenado a trinta anos de prisão pela participação como mandante no assassinato da militante Elza Fernandes, conhecida pela alcunha de Elvira Cupello Colônio, membro do Partido Comunista Brasileiro morta por estrangulamento em 1936 pela suspeita de trair a luta comunista. Amnistiado por Getúlio Vargas em 1945, em troca de apoio político, ficaria a saber, com o fim da II Grande Guerra, do que acontecera à sua mulher Olga. Já estava distante como nunca. Foi eleito governador pelo Estado do Rio Grande do Sul, mas trocou o cargo pelo de senador. Com a proibição do Partido Comunista Brasileiro em Maio de 1947, regressou à clandestinidade e à vida de casado, desta vez com Altamira Rodrigues Sobral, que se denominou Maria Prestes, com a qual teve sete filhos: João Antonio, Rosa, Ermelinda, Luís Carlos, Zoia, Mariana e Yuri. Não por acaso, Prestes é um nome no plural... 
 

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