Opiniao

China / Boicote dos Jogos de Inverno

A tensão permanente e crescente entre Washington e Pequim, ficou bem visível na Cimeira das Democracias, uma reunião de mais de cem países, por iniciativa dos Estados Unidos, e que foi considerada pelo governo chinês como dirigida contra a República Popular da China, (RPC).


por R.V.

Em 1980, os Estados Unidos, em protesto pela invasão soviética do Afeganistão, boicotaram os Jogos Olímpicos de Moscovo. Quatro anos depois, foi a vez dos soviéticos e dos seus aliados comunistas boicotarem os Jogos Olímpicos de Los Angeles.

A tensão permanente e crescente entre Washington e Pequim, ficou bem visível na Cimeira das Democracias, uma reunião de mais de cem países, por iniciativa dos Estados Unidos, e que foi considerada pelo governo chinês como dirigida contra a República Popular da China, (RPC). Acrescentando lenha à fogueira, em 6 de Dezembro passado, a Secretária de Imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, anunciava que o governo norte-americano não mandaria diplomatas seus aos Jogos Olímpicos de Inverno, a celebrar entre 4 e 20 de Fevereiro de 2022, em Pequim, precisamente no mesmo Estádio Nacional de Pequim (conhecido por “Ninho do Pássaro”) onde, em 2008, com grande sucesso, se realizaram os Jogos Olímpicos de Verão, num momento em que a China estava no auge da sua popularidade e abertura para o mundo.

 

O que é que mudou, entretanto?

Não foi com certeza o poderio chinês que esse não parou de subir e que parece estar no seu auge. As razões são outras.

Por um lado, a Pandemia nas suas variantes e cambiantes está a atacar de novo e Pequim deixou uma má imagem no princípio dos princípios com o sucedido em Wuhan. Por outro, há uma clara mudança no governo e na estrutura do poder e das liberdades na China: o presidente Xi Jinping mudou claramente as regras do jogo dentro do Partido, suprimiu a relativa colegialidade existente ao nível da Comissão Executiva Permanente do Bureau Político e emergiu não já como um “primus inter pares”, mas como um líder de monopolizou o poder e que parece disposto a mantê-lo até ao fim da sua vida, imitando o grande Timoneiro Mao Tse-Tung.

Ao mesmo tempo, usando como pretexto as condições sanitárias e a defesa da ordem pública o governo de Pequim restringiu, sub-repticiamente e sem respeito pelos Acordos firmados com Londres e Lisboa, as liberdades públicas em Hong Kong e Macau. E tem multiplicado as provocações a Taiwan e está a criar uma quadrícula no Mar do Sul da China através de ilhas artificiais.

 

Um Caso de Assédio

Um caso particular veio reforçar as críticas ao governo de Pequim: uma popular jogadora de ténis chinesa, Peng Shuai, publicou um post na Weibo em 2 de Novembro, em que acusava o ex Vice-Primeiro-Ministro, Zhang Gaoli, de ter abusado sexualmente dela. Três semanas passadas sobre a acusação, que entretanto foi censurada, nada se sabia sobre a vítima e o alegado abusador. Zhang tem 75 anos e pertenceu ao mais restrito e poderoso colectivo do PCC, - a Comissão Executiva Permanente do PCC, agora com sete membros.

A tenista, de 35 anos, tem um grande historial de vitórias no país e em competições internacionais. Segundo o seu post, Zhang convidou-a para casa, para jogar ténis e violentou-a. Depois disto vítima e pretenso agressor - estiveram incomunicáveis.

O escândalo é grande e atinge uma das primeiras personalidades do Regime. Zhang Gaoli tinha uma imagem de austeridade, zelo e discrição acima de qualquer suspeita. A sua ligação com Peng era antiga, mas, por razões da sua posição política no topo do Partido Comunista - a Comissão Permanente - ele nunca poderia ter-se divorciado. De resto, a sua carreira foi modelar, começando como um expert económico, no sector petrolífero, promovido politicamente no tempo de Jiang Zemin, passando por sucessivos postos até chegar ao topo em 2012, o ano da posse de Xi Jinping como Secretário-Geral do Partido. Nas suas funções Zhang negociou com Putin e esteve ligado à iniciativa das Rotas da Seda.

Coincidência curiosa, Zhang teve também funções nos preparativos dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, tendo-se encontrado com Thomas Bach, Presidente do Comité Olímpico Internacional.

As últimas notícias sobre este caso reportam uma conversa em “video cal” entre Bach e Peng Shuai, em que esta agradeceu a preocupação internacional com a sua sorte e acrescentou que está bem na sua casa de Pequim.

 

O boicote

Para já o boicote aos jogos de Pequim - que se traduz no não envio de representantes diplomáticos ou governantes aos Jogos - embora os desportistas o possam fazer - resume-se aos Estados Unidos, à Grã-Bretanha, à Austrália e ao Canadá. As razões oficiais do boicote são o mau tratamento pelo governo de Pequim da minoria muçulmana Uyghur. A França e a Itália distanciam-se do boicote e o governo chinês reagiu e um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros avisou que os responsáveis pelo boicote “pagarão o preço dos seus actos errados”.

                                         

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