Opiniao

O jovem candidato a deputado

O PSD, com excepção do acto eleitoral de 2019, tem elegido sempre um deputado pelo círculo de Portalegre, pelo que é expectável que possa recuperar esse lugar perdido há dois anos, sendo, assim, razoavelmente provável que o jotinha agora catapultado para lides de responsabilidade acrescida se venha a mudar, muito brevemente, de armas e bagagens para Lisboa.


Por Pedro Ochôa

Finalmente, os principais partidos deram a conhecer as listas dos candidatos que se vão bater por um assento naquele salão a que alguém, em tom jocoso, certamente, se lembrou de baptizar como “casa da democracia”!

Destaca-se, pela ironia, o escolhido por Rui Rio, recentemente legitimado para o efeito, para encabeçar a equipa que concorre pelo distrito de Portalegre.

Nada mais, nada menos, do que um distinto jovem de 19 anos, estudante de direito numa das mais prestigiadas universidades portuguesas, e cujo papel com alguma relevância em prol da sociedade tem sido o de presidir aos jotas do PSD naquela cidade alentejana.

Confesso que não conheço o rapaz de lado nenhum, pelo que não me é permitido adjectivá-lo com atributos de qualquer espécie, sejam negativos ou positivos, mas tão só surpreender-me com a entrega de um encargo, de importância objectiva, a alguém que ainda não tem um percurso de vida cimentado para ir parar a um órgão de soberania.

O PSD, com excepção do acto eleitoral de 2019, tem elegido sempre um deputado pelo círculo de Portalegre, pelo que é expectável que possa recuperar esse lugar perdido há dois anos, sendo, assim, razoavelmente provável que o jotinha agora catapultado para lides de responsabilidade acrescida se venha a mudar, muito brevemente, de armas e bagagens para Lisboa.

É suposto que um deputado da Nação tenha uma experiência de vida, em particular com pergaminhos no mundo do trabalho, que sirva de exemplo e de inspiração a quem nele deposite o seu voto de confiança, situação que, obviamente, não se verifica com este jovem, que ainda ocupa o seu precioso tempo num estabelecimento de ensino, por maior inteligência e esperteza que possa já ter evidenciado.

Rui Rio insiste em dar tiros nos pés e parece firmemente apostado em oferecer a Costa, de bandeja, o governo que sairá das eleições legislativas de Janeiro.

Costa, para vencer o escrutínio que se avizinha, não precisa de fazer absolutamente nada, basta ficar calado e quieto. Outros, por acaso militando em partidos adversários, farão a campanha por si!

No entanto, será injusto atribuir-se somente a Rio a irresponsabilidade resultante da nomeação de imberbes para uma legislatura parlamentar. Basta espreitar para a maioria das bancadas que recentemente se viram forçadas a cessar o mandato para o qual foram eleitas, para se ter uma noção das capacidades cognitivas das almas que nelas se destacam.

Competência, credibilidade, maturidade e educação são atributos que só em casos pontuais, cada vez mais escassos, se vislumbram junto dos deputados com que fomos abençoados.

Naturalmente que os primeiros culpados pela completa ausência de qualidade que grassa entre os deputados são, sem margem para dúvidas, as chefias partidárias que têm como incumbência seleccionar as pessoas que, em teoria, representam os portugueses no órgão legislativo por excelência.

A fazer fé nos queixumes que se fizeram ouvir, tanto no Rato como na São Caetano, Costa e Rio tomaram em mãos uma verdadeira purga, afastando do hemiciclo de S. Bento todas as vozes discordantes com o pensamento que eles, quais queridos líderes, querem impor entre o rebanho que têm como obrigação pastorar.

Restam disponíveis, como não podia deixar de ser, os meros engraxadores de serviço, verdadeiros serviçais capazes de chafurdar em qualquer lama apenas com o objectivo de agradar ao pastor que veneram.

Longe vão os tempos em que vozes autorizadas se impunham nos debates parlamentares, cabeças pensantes que se moviam pelo seu próprio raciocínio, precisamente o oposto aos tempos actuais, em que um deputado pode ser um iletrado qualquer, porque a sua única função é a de levantar o braço quando o chefe assim o ordena.

Infelizmente, não é apenas no parlamento que a mediocridade, imagem de marca da partidocracia em que se transformou o regime, é elevada ao seu máximo expoente. Hoje, qualquer badameco, que nunca teve outro ofício para além das conspirações geradas nos corredores partidários, marca presença nas reuniões do conselho de ministros.

Nem no Estado Novo se assistiu a tanto despudor na escolha das peças do tabuleiro em que se constitui a causa pública. Critique-se Salazar por muitas razões, mas nunca pela qualidade daqueles que eram investidos em cargos de responsabilidade governativa.

Claro que esta visão é totalmente antagónica à que se ensina hoje nas escolas, mas a verdade é que os seus ministros eram escolhidos entre a elite dos académicos, com uma carreira de sucesso nas diversas áreas profissionais em que se distinguiam, tendo como exclusiva ambição a de administrarem o bem comum.

Oriundos de quadrantes políticos diversos, muitos deles abertamente críticos do salazarismo, e geralmente sem apetência para a missão que aceitavam com relutância, porque não era da política que viviam, nem desta recebiam rendimentos suficientes para a sua subsistência, gozavam de real autonomia no exercício das suas funções, gerindo os seus ministérios sem interferências do presidente do conselho de quem dependiam.

Nada comparável com a realidade actual, em que os membros do governo são simples executantes de uma política que não é por eles definida, limitando-se a obedecer cegamente ao chefe que os nomeou, sem questionar rigorosamente nada, não vá o vento que levantarem virar-se contra eles.

E este é, para mal dos nossos pecados, o drama que nos empurra para uma pobreza cada vez mais irreversível, fatalidade que somente poderá ser revertida se nos livrarmos, definitivamente, desta inábil e corrupta classe política.

Temos que voltar a ter profissionais na política e correr com os políticos profissionais!

 

 

 

 

 

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