Sociedade

Nuno Barahona Abreu está "com muita esperança" após terem sido angariados quase 160 mil euros

Até às 18h40 deste domingo, Nuno, médico de 42 anos que ficou tetraplégico depois de sofrer um acidente na praia de Supertubos, em Peniche, havia conseguido angariar 159 mil e 173 euros, ou seja, 83% do montante ambicionado para conseguir ter um quotidiano adaptado à sua nova realidade. Para além disso, se atingir a meta dos 190 mil euros, poderá também ir aos EUA para ser submetido a uma cirurgia ortopédica inovadora de Regeneração e Bypass Medular.

Nuno e os filhos Henrique e Jacinto DR
O médico durante uma das atividades no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão DR
A família Abreu reunida em Alcoitão DR

Atende a chamada. Entretanto, vários amigos perguntam-lhe se precisa de algo. "Ó Nuno, queres uma tosta mista?", ouve-se, sendo que o médico responde sempre com amabilidade a todas as questões que lhe são colocadas por aqueles que passam longos dias consigo no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. "Sim, por favor. Este meu amigo é espectacular, arranja-nos uns lanches fantásticos", explica, antes de pedir desculpa e esclarecer que, por não estar presencialmente com a irmã Marta Barahona Abreu há cerca de duas semanas, esta não narrou os pormenores relativos aos tratamentos que realiza de acordo com aquilo que se tem vindo a suceder. "O que aconteceu foi que, quando começou a haver mais casos de covid-19, algumas pessoas estiveram em isolamento profilático. E houve um grande esforço por parte das fisioterapeutas para garantir que continuávamos a reabilitação. E agradeço especialmente à Catarina Silva, a fisioterapeuta responsável", desabafa o cirurgião de 42 anos que, no passado dia 29 de setembro, teve um acidente na praia de Supertubos, em Peniche, que o deixou tetraplégico.

"O que se sente é que podia haver mais recursos humanos e isto leva a que haja dificuldades no dia a dia, mas não há falta de empenho. Houve de facto greves, mas acho que se sentiram mais repercussões ao nível da enfermagem e das auxiliares de ação médica. A higiene é feita mas, nos dias de protesto, os doentes mais dependentes, muitas das vezes, não fazem o levante. E isso é muito duro para quem tem uma dependência. Têm o cuidado de mudar as pessoas de posição, mas a verdade é que passar muito tempo deitado aumenta a rigidez muscular, a mobilidade diminui e existem consequências psicológicas, até porque o resto dos doentes anda de um lado para o outro", narra, contando que este primeiro internamento, que teve início no dia 4 de novembro, tem o objetivo primordial de potenciar as suas capacidades físicas "que sobram" como a mobilidade do tronco e membros superiores e também torná-lo o máximo possível. "Para que me consiga deslocar de cadeira de rodas, mas também sentar-me e levantar-me". 

Nos internamentos seguintes, as metas serão outras porque a função urinária ficou igualmente afetada. "Isso depois também tem de ser tratado, mas não nesta fase. A nível psicológico, tenho estado estável desde o início. Com momentos de tristeza e frustração. A maior falta que sinto é a da família e há um sentimento comum entre os internados de dificuldade em lidar com isto. Seria bom para nós podermos ir mais ao jardim do Centro e aos restantes espaços livres que estão também limitados devido à covid-19", sugere, evidenciando que os doentes se apoiam incondicionalmente. “Fazemos fortes amizades e não é raro um colega ir buscar a cadeira do outro, ajudar um a sair da cama, as moedas caem ao chão e um apanha-as, vamos todos juntos beber café e à varanda ver o mar no quarto piso... Todos conversamos e contamos histórias. Partilhamos as tristezas e alegrias”, refere, revelando que já criaram um grupo de WhatsApp e, inclusivamente, trocam fotografias para se animarem. “E temos regras no quarto: por exemplo, não devemos ressonar, mas é uma brincadeira! Emprestamos roupa uns aos outros, pagamos cafés… Há uma entreajuda enorme”, afirma o profissional de saúde que, antes de ser transferido para Alcoitão, esteve internado 15 dias na Unidade de Cuidados Intensivos e mais de um mês na enfermaria de Ortopedia do Hospital de Santa Maria.

“Converso com todos, damo-nos bem e cada um tem o seu lugar especial: foi sempre isso que fiz na minha vida, isto é, dar importância a todos sem querer destacar ninguém”, justifica, declarando que, no quarto onde se encontra, é o doente mais novo, mas, mesmo a seu lado, encontra-se um homem de 47 anos. “Há um funcionário de uma junta de freguesia, outro da construção civil, um holandês que era músico… O grupo é muito heterogéneo. Aqui há pessoas vítimas de agressão, que sofreram quedas aparatosas, que tiveram um AVC, que padecem de doenças da coluna… Existem muitas razões”, partilha, notando que há quem o chame doutor. “Prefiro que não o façam, sou muito informal, mas é inevitável. Muita gente pede-me conselhos. Por exemplo, digo para a pessoa ir a x especialidade. A questão é que eu também recebo dicas sobre Direito, construção e mais áreas sobre as quais sabia pouco ou nada”, indica, salientando que, todos os dias, os doentes acordam pelas 7h para tomar a medicação. “Depois, somos despertados realmente às 8h30 e é feita a higiene para podermos chegar às terapias à hora marcada e, geralmente, começam pelas 10h”.

“Às 12h, temos o almoço. Às 13h30, tenho uma nova sessão de fisioterapia e a tarde toda ocupada com a terapia ocupacional até por volta das 17h. Há um lanche entre as 16h e as 17h. Às 19h, jantamos. Há um bar onde por vezes vamos comer coisas diferentes como uma torrada, um bolinho… Aquilo que nos apetecer. A comida que nos dão é boa. Vamos para o quarto e temos de desligar as luzes e a televisão às 22h. Temos acesso à internet e não há restrições. Também tenho atividades da vida diária, mas há quem tenha terapia da fala, hidroterapia...”, nota, voltando a frisar que um dos seus maiores prazeres sempre foi criar laços e ajudar o próximo, sendo que agora é brindado com uma espécie de “retribuição”. “Sem saber, ao longo da vida, conheci muitas pessoas. Agora leram o artigo, muitas nem sequer tinham conhecimento daquilo que me tinha acontecido, e querem fazer um donativo. Mas não consegui avisar toda a gente, tenho mais de 2 mil contactos na lista telefónica”, diz, avançando que nunca se inibiu de dar o contacto telefónico aos doentes e, por isso mesmo, não se sente confortável por não os ter contactado. “Gostaria de ter falado com cada um, mas não consegui. Eles sabem que os guardo a todos no coração”.

Antes do trágico dia 29 de setembro, Nuno tinha a vida pela qual lutara. No entanto, não esconde que sofreu um burnout e teve de tomar a árdua decisão de abandonar o Serviço Nacional de Saúde (SNS) para preservar a sua sanidade mental. “Estive num ótimo serviço no Hospital de Setúbal – de cirurgia tem um diretor incrível que é o doutor Luís Cortez e guardo muito boas memórias desses tempos –, só que o problema do SNS é de organização. Resiliência temos nós desde o liceu: quando decidimos que vamos para Medicina, sabemos que vamos sofrer um bocadinho mais do que os colegas de escola. Há cursos dificílimos, mas o nosso também o é e, desde cedo, temos de nos privar de muitas coisas. Entramos no curso e ainda é pior. Acabamos e temos as provas para ingressar no internato. Entramos e o internato é mais complicado. E, de repente, vamos trabalhar. Portanto, resilientes já nós somos!”, exclama, aludindo ao dia 24 de novembro, data na qual a Ministra da Saúde adiantou que a resiliência é um aspeto tão importante como a competência técnica no que toca à seleção de profissionais de saúde. No dia seguinte, Marta Temido realçou que "não disse, em momento nenhum, que é necessário recrutar profissionais mais resilientes, disse que é necessário que todos façamos um investimento em mais resiliência, sobretudo quem trabalha em áreas tão exigentes como as da Saúde".

“Vamos perdendo colegas: uns desistiram de ser médicos e alguns tiveram depressões graves e suicidaram-se devido à exigência do nosso trabalho. Durante o curso, posso dizer que éramos perto de 200 e não acabámos todos. Há muita gente que desiste e outros reprovam. E sei de colegas que estiveram à beira de sentir que tinham a vida em risco. Quem entra em Medicina tem de ter muito cuidado com a Saúde Mental e, muitas das vezes, o nosso espírito de sacrifício leva a que nos esqueçamos de nós. E isto é transversal a quase tudo e é o mal da nossa sociedade atual: vivemos demasiado rápido e com demasiada intensidade e esquecemo-nos de que somos frágeis. Eu pensava que era forte, mas a privação de sono – que temos devido às urgências e o trabalho noturno – é extremamente prejudicial uma questão de tempo até ficarmos exaustos”, reconhece, revelando que as semanas de trabalho podem chegar às 120 horas no SNS e ultrapassar este valor durante o internato, não existindo sequer folgas em muitas ocasiões. “Os internos podem ter até duas ou três urgências por semana sem folgas. E muitos profissionais continuam a fazer isto após o internato. Eu deixei de fazer isso, mas percebo que quando somos funcionários de um hospital é difícil porque temos de assegurar as escalas de serviço. Portanto, optei por sair, achei que não era a maneira de trabalhar com a qual me identificava”.

“A Medicina é uma área demasiado sensível para estarmos tão exaustos. Reconheço o esforço de todos e sou solidário com os colegas que tentam assegurar os cuidados de saúde e não veem escapatória nem melhoria. O setor privado sofre dos mesmos problemas do SNS. Eu estive numa instituição privada muito prestigiada e na qual, apesar de não haver trabalho noturno, o excesso de trabalho e o incumprimento do horário era a norma. Acabei por ser demitido desse local. Por mim, teria ficado”, observa, explicando que quem o substituiu foi um colega que havia trabalhado num dos melhores hospitais da Alemanha. Contudo, este também não exerceu funções durante muito tempo. “Essa pessoa disse-me que, quando esteve na Alemanha, o dia a dia era organizado: começava às 7h e acabava às 15h. E ninguém exigia mais ou menos: cumpria as suas funções, tinha condições para se doutorar, tinha os melhores equipamentos… O que sentimos é que há uma grande desorganização no nosso país. A sociedade civil respeita muito os médicos, mas nós temos de saber valer os nossos direitos: temos de ter consciência de que não podemos estar sem dormir e/ou permitir abusos de poder da chefia. Temos de estar muito bem para tratar dos outros”.

Nuno foi demitido porque deu prioridade aos filhos e entendeu que, tendo em conta que a mulher, Marisa, é hospedeira de bordo e passa muito tempo fora de casa, os pequenos Henrique e Jacinto precisavam ainda mais do pai. “Ao fim de um ano de trabalho, e a exceder diariamente o horário estipulado, a ter alguém que fosse buscar os meus filhos à escola e cuidasse deles, chegava a casa depois das 20h. E isto era diário. E, a certa altura, disse que achava que não podia continuar e disseram-me que tinha de ter uma empregada interna e dedicação à profissão, assim como estar grato pela oportunidade de trabalhar com quem estava a trabalhar. Eu discordei e houve uma discussão com um colega, também cirurgião, e ele insultou-me”. Aí, o profissional que fez o internato de cirurgia geral no Centro Hospitalar e Universitário de Lisboa Central denunciou a situação à administração do hospital e não escondeu que estava a sofrer represálias.

“Eu chegava de manhã para operar, imaginemos, seis doentes e diziam-me que não podia. Tinha conhecido as famílias, acompanhado as pessoas e não me deixavam sequer ir falar com elas. Obrigavam-me a ficar naquele hospital à espera. Ia para a biblioteca estudar ou fazer outra coisa qualquer durante o tempo em que estava a ser feita a cirurgia. Entre as 8h e as 20h, ficava lá”, lamenta, admitindo que tal se prolongou durante cerca de três meses. “A certa altura disseram-me que, como não estava a operar, teria de fazer as teleconsultas para compensar. E há uma coisa que é a relação médico-doente, um valor essencial da medicina: e em cirurgia, é estabelecida na consulta, é feita a cirurgia e posteriormente o acompanhamento. Os doentes chegavam ao hospital para serem operados, estavam fragilizados, tinham as mazelas da quimioterapia e, de repente, aparecia um desconhecido que os ia operar. E choravam. Parecia que iam a uma oficina de carros: iam ali fazer uma cirurgia e eram despachados. Ia ter com eles ao quarto, explicava-lhes aquilo que estava a acontecer e chorávamos juntos”. “É um péssimo cuidado médico. Ao fim desses meses, fui dispensado definitivamente sem ter oportunidade de me despedir dos meus doentes e, após a saída, foi indicado à administração para não dizerem onde estava. Alguns funcionários informaram os doentes e eles foram à minha procura, mas muito do pessoal tinha medo de eventuais retaliações”.

“Globalmente, a saúde, em Portugal, tem muito que melhorar: não é só o SNS. E em termos de regulação, o SNS é muito mais uma garantia de qualidade. Há serviços antigos estabelecidos com pessoas com muita experiência. E, no privado, pode haver pessoas que foram lá colocadas e até podem ter menos mérito. Era preciso haver uma reformulação global da saúde e o nosso principal problema reside nas urgências. Não temos cuidados de saúde. O SNS está saturado”, constata o homem que, na PPL, plataforma de financiamento colaborativo, contando com a dedicação dos familiares e amigos, bem como com a bondade dos portugueses, espera chegar aos 190 mil euros em donativos. De acordo com informação disponível no espaço dedicado à história de Nuno, como o Nascer do SOL noticiou ontem, deste montante, 30 mil euros estão destinados a “obras necessárias para adaptar a casa da família a pessoas de mobilidade reduzida, nomeadamente uma nova casa de banho, restruturação da cozinha, abrir vãos de portas, acesso por plataforma elevatória”, 20 mil serão gastos na construção da rampa exterior de acesso à casa, 7 mil serão utilizados para adquirir uma cadeira de rodas, 4 mil e 500 para uma cadeira de rodas, 3 mil e 500 para uma cadeira giratória para o automóvel e 5 mil para “equipamentos para instalar dentro de casa (rampas, cadeira de banho, acessórios da casa banho, colchão, etc)”.

“Eu tenho alta em breve, mas há várias coisas para resolver como a função urinária. E cada coisa demora o seu tempo. Portanto, temos de planear os internamentos para não haver sobrecarga. A tetraplegia é uma doença crónica que passa por diversas fases de tratamento. Os fisiatras vão coordenar-se com outras especialidades. Troquei e-mails com colegas norte-americanos, mas a terapia ainda é experimental e ainda não sei se a usarei a nível experimental ou quando estiver à venda. Isso implicará quase sempre outro internamento e, provavelmente, lá”, afirma, fazendo referência a uma cirurgia ortopédica inovadora de Regeneração e Bypass Medular, com recurso a nanotecnologia. “Há um grupo – que inclui médicos da Holanda, da Suíça, do Reino Unido e dos EUA – que investiga a possibilidade de recuperar a função motora com estimulação elétrica. O que tenho de fazer é consultar todas essas pessoas e tentar traçar um plano. Posso até não poder entrar numa terapia se tiver feito outra antes, por exemplo. Não quero estragar hipóteses de tratamento”, destaca Nuno, sabendo que tem pela frente “um percurso que durará alguns anos”, mas que o deixa “com muita esperança”.

“Vou dar um grande peso à minha família. Eu é que devia cuidar dos meus pais, vai ficar tudo um bocado invertido. É claro que ninguém me cobra isso, mas custa-me muito. O meu filho mais pequeno costuma dizer ‘Estou muito triste por estares no hospital, mas feliz por estares vivo’. E é exatamente isso que sinto. Porque fiquei a boiar, engoli muita água e poderia ter morrido. Não consigo reconstituir os acontecimentos. Felizmente, alguém me viu e tirou-me da água. Senão, teria morrido afogado. Houve um anónimo, a quem gostava de dar um abraço, que foi a primeira pessoa a tirar-me da água. Gostava muito de o ver e agradecer-lhe por me ter salvado”, confessa, desejando igualmente a agradecer a este anónimo por ter permitido que continue a ver os filhos crescer. “Sou muito ligado a eles e, quando tive o burnout, realmente decidi que tinha de deixar o trabalho intensivo de urgência para trás. Portanto, fui um pai muito presente ao longo deste tempo todo. Tentei ao máximo ir buscá-los e levá-los à escola e fazer tudo aquilo que estava ao meu alcance. Foi uma mudança drástica para todos. Eles sofrem muito com a nossa falta, têm sido uns heróis. Agora consegui mobilizar montes de gente. Se conseguisse fazer o mesmo por uma causa maior, seria ótimo!”.

Até às 18h40 deste domingo, Nuno havia conseguido angariar 159 mil e 173 euros, ou seja, 83% do montante ambicionado. Se quiser fazer um donativo, clique aqui.