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Covid-19. "Perante a incerteza, esperar por mais informação é perder a oportunidade de intervenção", diz Filipe Froes

Peralta Santos defende restrições “já”. Filipe Froes subscreve alerta: “Perante a incerteza, esperar por mais informação é perder a oportunidade de intervenção”.

Covid-19. "Perante a incerteza, esperar por mais informação é perder a oportunidade de intervenção", diz Filipe Froes

“Estamos a cometer os mesmos erros do Natal passado”. A crítica é de André Peralta Santos, ex-diretor de serviços de Informação e Análise da Direção-Geral da Saúde, que deixou a autoridade nacional de saúde em setembro. No Twitter, o médico de saúde pública alertou este domingo que a progressão da nova variante Omicron está “três a quatro dias” atrás do que se vive no Reino Unido e na Dinamarca, antecipando uma explosão de casos esta semana. “Portugal ainda não teve a explosão de casos mas muito provavelmente terá na próxima semana de 20 a 26 de dezembro”, escreveu, defendendo que uma decisão sobre novas medidas deve ser tomada “já” e propondo que seja equacionado algo “semelhante ao que a Dinamarca fez: encerrar sítios onde há risco de super disseminação (bares, discotecas, espetáculos) e limitar lotações de espaços públicos”, com apoios públicos. “O risco que corremos é de um janeiro com níveis de doença na comunidade muito elevados e pressão muito elevada nos hospitais com degradação da qualidade e acesso a cuidados não-covid”, escreveu, sublinhando que Portugal, mais uma vez em comparação com o Reino Unido, tem uma maior cobertura vacinal mas maior atraso no reforço. E que os dados do Reino Unido não mostram menor risco de hospitalização com a nova variante. “No ano passado decidimos aliviar restrições no natal e pagámos caro essa decisão com um janeiro de 2021 de má memória. Janeiro de 22 (mesmo que fique tudo na mesma) será melhor que janeiro de 21 (graças a maior cobertura vacinal). Mas com a Omicron, janeiro de 22 será muito pior do que esperávamos há 3 semanas.”

O alerta do ex-quadro da DGS, que foi um dos rostos nas reuniões do Infarmed, não motivou ontem reações da parte da autoridade da saúde nem do Governo. Questionados sobre o i, não responderam se equacionam novas medidas – esse cenário no final da semana não foi descartado, mas o plano manteve-se a semana de contenção, “para cumprir a sério”, depois das festas. Peralta Santos escreve que será uma intervenção com duas semanas de atraso. O técnico trabalha atualmente nos EUA com uma consultora em nome individual e na Universidade de Washington.

“Esperar é perder oportunidade de intervenção” Ao i, Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos, subscreve o alerta de Peralta Santos, considerando ser necessário um reforço de medidas, sem defender no entanto encerramentos de setores no imediato. “Precisamos de ganhar tempo”, sublinha, defendendo que está em causa diminuir o impacto da covid-19 e assegurar que se mantém a capacidade de resposta nos hospitais a todos os doentes. “A variante Omicron veio reavivar o conceito de incerteza e da oportunidade das medidas. Perante a incerteza, esperar por mais informação é perder a oportunidade de intervenção”, sublinha. O médico defende o reforço do uso de máscara em todos os locais, o reforço da testagem, em caso de escassez de testes dando prioridade no caso de pessoas assintomáticas a quem ainda não tem a dose de reforço e a limitação de eventos de massa e dos convívios na quadra festiva. Quanto a encerramentos/confinamento, não os recomenda nesta fase, considerando que devem depender da evolução da situação pandémica e que, para isso, deve haver “elasticidade” na sua análise. “Estamos a fazer avanços importantes na cobertura vacinal, mas idealmente devíamos ter começado a investir nesta frente mais cedo mas chegarmos a este momento com uma maior cobertura dos mais vulneráveis”, diz.

Reunião de urgência Já esta segunda-feira de manhã, Infarmed, Associação Nacional das Farmácias e laboratórios vão reunir-se para procurar soluções para as dificuldades na marcação de testes, um dos conselhos antes dos convívios de Natal que tem esbarrado na dificuldade em fazer marcações ou comprar autotestes.

No fim de semana, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde António Lacerda Sales garantiu que todos poderão testar-se, admitindo um aumento os testes comparticipados pelo Estado – atualmente quatro por mês: “Garantidamente que chegaremos à época de Natal com tranquilidade e serenidade para que todas as pessoas se possam testar”.

Ao i, Ema Paulino, presidente da Associação Nacional de Farmácias, diz que estão a ser feitos esforços para aumentar a capacidade de resposta das farmácias, com o reforço das equipas, e que os autotestes estão também a chegar. No fim de semana aumentaram para 1200 as farmácias que fazem testes gratuitos comparticipados pelo Estado, adianta, sendo já 40% do total. Já nos supermercados o cenário era ontem de escassez de autotestes – e já custam agora o dobro de novembro, quando foram vendidos em saldo, estando agora a 4,99 euros. Continente e Pingo Doce limitaram as vendas a cinco testes por cliente mas mesmo assim as caixas “voam”. Num Pingo Doce de Sintra, apurou o i, 500 testes recebidos na sexta-feira venderam-se numa hora. A cadeia esteve sem testes no fim de semana e recebe mais esta terça-feira.

 

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