Economia

Economia. Nuvem cinzenta persiste

A nova variante da pandemia faz soar alarmes junto dos economistas contactados pelos Nascer do Sol em relação ao futuro do país. E entre alertas e recados para o futuro Governo, as incertezas mantém-se.


Aeconomia portuguesa começa a dar sinais de recuperação. O Banco de Portugal aponta para um crescimento forte em 2021 (4,8%) e 2022 (5,8%), após uma queda histórica em 2020 (-8,4%). O regulador fala mesmo na «recuperação a mais rápida das últimas crises» (ver páginas 56). Os economistas contactados pelo Nascer do SOL reconhecem os sinais positivos, mas continuam a apontar para sérios riscos de crescimento.

‘Continuamos a ser uma das mais frágeis economias’

João César das Neves está menos otimista face às metas anunciadas pela entidade liderada por Mário Centeno e fala num crescimento na ordem dos 4% este ano. E justifica este número:«A pandemia ainda não acabou e pode ainda trazer algumas surpresas», ainda assim, lembra que com a maioria da população vacinada poderão não ser esperados grandes impactos. «As medidas recentes pareceram algo prudentes, com efeitos negativos mas moderados», disse ao nosso jornal, sobre as últimas medidas de restrição avançadas pelo Governo com vista a controlar a pandemia. 

No entanto, mesmo face ao cenário «muito incerto», o economista reconhece que «o Governo não lhe parece ser excessivamente iludido», acrescentando ainda cabe ao Executivo «ser animador». 

Mas lamenta o facto de o crescimento da economia não ser uma prioridade política. «O crescimento da economia há muito que deixou de ocupar a agenda dos nossos dirigentes, os quais se ocupam a colocar-lhe entraves, em nome de outros excelentes objetivos. Assim não admira que ele há anos que não seja significativo».

E deixa um recado: «Os alertas, nomeadamente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico são muito sérios. Portugal teve uma recuperação razoável da crise de há dez anos, mas ainda estava longe do equilíbrio financeiro, quando o vírus estragou tudo outra vez. Continuamos a ser uma das mais frágeis economias da Europa», salienta ao Nascer do SOL.

Face ao chumbo do Orçamento do Estado para o próximo ano, o economista lembra que o Governo está em gestão e, como tal, está impedido de tomar medidas de grande impacto, não havendo assim o risco de gastar mais do que deveria. E sobre o problema da falta de mão-de-obra que afetada quase todos setores no mercado nacional, César das Neves não hesita: «O problema tem solução fácil, se ele realmente ocupar as autoridades. Mas esse é mais um dos problemas esquecidos numa governação demasiado centrada na gestão de curto prazo e a satisfação de interesses instalados, esquecendo os grandes problemas de fundo do país». 

‘Incerteza sobre a economia mantém-se’

De acordo com Luís Mira Amaral, estas medidas face à nova variante «vêm aumentar a incerteza sobre a economia». No entanto, garante que as atenções estão agora viradas para as decisões por parte do Banco Central Europeu (BCE) ao lembrar que a inflação continua a estar ser persistente, o que vai obrigar o o banco central «a pensar duas vezes antes de endurecer a política monetária». 

Uma situação que, de acordo com o economista, é contrária ao que se verifica há uns meses. «Nessa altura, havia a perspetiva de grande recuperação económica mundial: dos Estados Unidos, da Europa, da Ásia, mas agora com esta nova variante e com a rapidez com que se está a difundir põe graves incertezas sobre a economia. É preciso ter uma bola de cristal para se saber o que é que se vai passar, em todo o caso, acho que as perspetivas são menos otimistas do que seriam há três meses», refere ao Nascer do Sol. 

Ainda assim, Mira Amaral tem as atenções viradas para o que se vai passar após as eleições. «O Orçamento do Estado que foi reprovado era péssimo para a economia portuguesa. Não estou nada preocupado com o chumbo daquele documento. E espero que a composição do novo Parlamento diminua a peso da esquerda, com o reforço do PSD e do centro de direita». 

Uma solução que, de acordo com o responsável, «isso iria ter consequências, não só ao nível não só da formação do Governo, mas também sobre a discussão em relação ao Orçamento e quanto a outras medidas que tenham de ser implementadas no país». E vai mais longe: «Nesse cenário deixaríamos ter estas maiorias de esquerda a ditar a sua lei, o que isso será extremamente benéfico para a economia». 

Para Mira Amaral, a solução apresentada por Rui Rio seria a mais benéfica para o crescimento económico do país. «A ideia de Bloco de Central não é para formar Governo. A ideia é o partido que tiver o maior número de votos formar Governo e negociar com o segundo partido para que possa passar um Orçamento. Isto significa que, no caso do PS ganhar as eleições, em vez de negociar com uma maioria de esquerda deve negociar com o segundo partido. Se for o PSD a ganhar, o PS deve respeitar o resultado, coisa que não respeitou há seis anos, e deve deixar o PSD governar. Isto não é formar um bloco central. É os partidos ao centro entenderem-se sobre questões fundamentais para o país», disse ao nosso jornal. 

Uma solução que, segundo o mesmo, iria trazer um maior equilíbrio. «Estes Orçamentos sempre apresentaram medidas para aumentar os subsídios, os apoios públicos, onde nunca houve preocupações no sentido de estimular a paz económica do país. E como um economista americano dizia ficou como uma frase célebre na economia. ‘Quando se passa muito tempo com a preocupação de distribuir sem criar riqueza acaba-se a distribuir pobreza’. É o que estava a acontecer ao nosso país que estava a encaminhar para ser um dos mais pobres da Europa. A minha estimativa é que em 2025 até a Roménia nos ultrapassa, só a Bulgária é que ficará atrás de nós». 

Quanto ao problema de falta de mão-de-obra, Mira Amaral não hesita ao garantir que esse problema já existia antes da covid. «Sou consultor e as empresas já me falavam desse problema: ‘Temos produto, preço, mercado, tecnologia, só não temos é mão-de-obra’», acrescentando que o problema que se está a verificar diz respeito não só à falta de mão-de-obra qualificada, mas também à  não qualificada. «É um problema dramático que condiciona o nosso crescimento económico e que tem de ser resolvido com alguma imigração qualificada e seletiva», lembrando que, muitos portugueses têm pouca vontade de trabalhar porque contam com os apoios governamentais. 

Outro entrave ao crescimento diz respeito à escassez e aumento de muitas matérias-primas. Mas apesar de garantir que é um problema que não podemos controlar, admite seja reflexo de um período de reajustamento da economia mundial depois da covid e que poderá levar meses até estabilizar. 

‘Estamos longe de ter recuperado’

Para Nuno Teles não há margem para dúvidas: «A economia portuguesa ainda está longe de ter recuperado dos efeitos da pandemia em 2020 e 2021. Embora, o crescimento económico anual vá rondar os 5% do PIB a queda de 8,4% em 2020 está ainda longe de ser ultrapassada. É certo que 2021 foi um ano muito afetado pela pandemia no primeiro semestre, por isso é expectável que a recuperação económica continue no próximo ano», disse ao Nascer do SOL. 

Também o futuro, segundo o economista, não parece otimista. «As incertezas em relação a 2022 são grandes, já que a pandemia, com os seus efeitos nacionais e internacionais, está longe de estar ultrapassada como as novas variantes mostram. Com uma economia internacional em recuperação volátil, a retirada de importantes medidas de apoio à economia, como as moratórias de crédito, e a complacência do Governo português aumentam os riscos para a economia portuguesa em 2022. A recuperação do PIB aos níveis de 2019 poderá arrastar-se para lá do primeiro semestre».

Nuno Teles aponta ainda o dedo aos alertas que têm sido feitos pela OCDE. Se por um lado, defende que o relatório reflete algumas das mudanças de política económica no cenário internacional, chamando a atenção para a questão da desigualdade, dos serviços públicos, sobretudo na saúde e a necessidade de investimento pública para uma recuperação robusta, por outro lado, lembra que apesar de considerar que essas preocupações são legítimas «chocam com o que foi a prática da OCDE na pressão política no sentido da liberalização e privatização feita durante anos».

E vai mais longe: «Chega a ser irónico a OCDE alertar para a insuficiente cobertura do subsídio de desemprego em Portugal, tendo sido uma das organizações que promoveu a sua redução durante os anos da troika. De sublinhar também o caráter contraditório das suas recomendações. Por um lado, defende-se reforço dos serviços públicos e o aumento do investimento público. Por outro lado, recomenda-se já medidas de austeridade assim que a economia atingir o PIB de 2019 - previsto segundo a organização para meados do próximo ano», disse ao nosso jornal. 
Mais otimista está em relação aos gastos dos próximos meses, uma vez que, o país está em duodécimos. «Não vejo como se poderá apresentar novas medidas estruturais neste período pré-eleitoral».

Quanto ao problema da falta de mão-de-obra, o economista admite que está longe de se manifestar de forma transversal na economia. «Estamos ainda muito longe do pleno emprego. O que existe, devido aos ritmos de recuperação assimétricos e mudanças de hábitos de consumo nacionais e internacionais, são certas empresas e em certos setores, normalmente aqueles com salários mais baixos e piores condições de trabalho, a sentir eventuais dificuldades, mas isso será certamente passageiro». Ainda assim, refere se trata de um fenómeno conjuntural e limitado a alguns setores, mas garante «que não será certamente um estrangulamento relevante ao crescimento».