No meio de nós

Haverá alguém que fale de Deus?

Precisamos de cuidar dos pobres e dos frágeis? Sim… mas não é só no Natal, é sempre. Reduzir o discurso do Natal ao discurso secular da solidariedade tem duas consequências: por um lado, esquece o protagonista do Natal que é Jesus Cristo, por outro lado, pode induzir nos fiéis e nos ‘infiéis’, nos crentes e nos descrentes, a ideia de que importa a solidariedade apenas neste período.


Parece que o Vaticano não gostou da proposta da União Europeia de se substituir a expressão «Bom Natal!» pela expressão «Boas Festas!» e com toda a razão. Afinal o que é isto? Agora! Estar a apagar por completo a figura do Natal? Não se falar do Natal?

Abri hoje alguns sites católicos para saber o que havia de escrever para esta crónica que antecede o Natal – falta uma semana para a grande festa do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Achei curioso! Eu contei umas vinte notícias sobre o Natal e do que falavam? De tudo menos de Deus Nosso Senhor! 
Hoje é o dia dos anos do Papa Francisco. As notícias estão ligadas ao seu aniversário, à solidariedade que é exigida nesta quadra, à preocupação com a falta de acesso dos mais frágeis à habitação, na luta contra a pobreza, nos cabazes de natal, nas velas da Cáritas.

Tudo isto é extremamente preocupante… A Igreja está a tornar-se numa grande (mas graças da Deus cada vez mais pequena) ONG que, com um revestimento religioso, se tem secularizado cada vez mais até no centro da sua existência – Deus.

Tudo isto me levou a pensar: afinal, o Vaticano não precisa de estar preocupado com a União Europeia, porque a própria Igreja já se esqueceu d’Ele!

É cada vez mais urgente que, não prescindindo da nossa capacidade de dialogar com o mundo, elaboremos um discurso coerente com o centro da nossa fé!

Precisamos de cuidar dos pobres e dos frágeis? Sim… mas não é só no Natal, é sempre. Reduzir o discurso do Natal ao discurso secular da solidariedade tem duas consequências: por um lado, esquece o protagonista do Natal que é Jesus Cristo, por outro lado, pode induzir nos fiéis e nos ‘infiéis’, nos crentes e nos descrentes, a ideia de que importa a solidariedade apenas neste período.

Ora, a solidariedade, que nas Escrituras é expressa como a caridade (o amor), não tem tempo. As mesmas Escrituras são claras e expressam a predileção de Deus pelos pobres e pelos frágeis. E Deus não pensa apenas nos pobres quando é Natal, mas sempre!

O centro deste tempo encontra-se num acontecimento e isso é preciso dizer: Deus visitou o seu povo e isso traz consigo uma grande alegria para todos os que O aceitam. O nosso Deus não está indiferente aos nossos sofrimentos, mas debruça-se do alto dos céus, rasga as nuvens e desce. A terra abriu-se e germinou o Salvador, isto é, no meio da humanidade, Deus fez-se homem para salvar o próprio homem.

Não deixa de ser curioso que na Basílica da Natividade, em Belém, onde nasceu Jesus, as duas portas para entrar não terão mais de um metro e meio e, por cima da ombreira da porta está escrito «aqui o verbo de Deus se abaixou». Ninguém entra naquela basílica se não se abaixar!

Este é o mistério que celebramos no tempo no Natal: Deus abaixou-se do alto dos céus, isto é, Deus humilhou-se a si mesmo e visitou-nos. Por isso, fazem eco no nosso coração as palavras de Jesus no lava-pés: «Fiz-vos estas coisas para que assim como eu fiz, vós o façais também».

O orgulho matou-nos e mata-nos a nossa relação com Deus e capacidade de nos compadecermos uns dos outros. Talvez seja necessário substituirmos as campanhas de solidariedade por campanhas da humildade. Porque Deus se abaixou, também nós nos devemos abaixar uns diante dos outros.

O verdadeiro núcleo do Natal está aqui celebrado, porque se aceitamos Jesus como o messias, Ele nos libertará de todo o egoísmo que esquece o sofrimento dos demais. Jesus Cristo é, realmente o messias que tem a capacidade de nos libertar dos nossos egoísmos e de nos levar ao amor. E se nos leva ao amor… nunca esqueceremos os pobres.

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