Opiniao

Contribuições para uma campanha eleitoral

Os partidos têm de sentir que há mais vida para além das eleições e que a sua mobilização por causas que digam algo às populações é recompensada, porque apenas por esta via é possível baixar a abstenção elevadíssima que reflete a atual indiferença nacional perante a política. 


1. À medida que nos aproximamos das eleições de 30 de janeiro, constatamos que a maioria dos partidos políticos de referência continuam, essencialmente, virados ‘para dentro’, a digerirem lutas intestinas recentes ou exclusivamente preocupados a constituírem as suas listas de candidatos a deputados para a Assembleia da República.

Sei que estamos em vésperas de Natal e Ano Novo e gostaria de acreditar que o mês de janeiro de 2022 se encontrará reservado para os partidos passarem as suas mensagens para o eleitorado. Mas o que vemos não é promissor, dado que daquilo que vamos ouvindo, sobretudo no caso particular do PS e através do Governo, são apenas promessas de distribuição de benesses (aumentos de ordenados e/ou regalias). Muito curto para um país cuja economia precisa de crescer, sobretudo através de investimentos, para poder garantir as atuais distribuições estruturais.

O PSD, com nova liderança, anda entretido a discutir as listas em que se constata que o candidato derrotado com 48% teve os seus apoiantes liminarmente saneados. O PCP, assustado com sondagens e finalmente consciente que a decisão impensada de ter derrubado o Governo lhe irá custar votos, volta a manifestar disponibilidade para alianças com o PS. O Bloco insiste em reivindicações laborais sem qualquer ponderação sobre a exequibilidade das mesmas. O CDS, em guerras intestinas intermináveis, lá foi buscar Ribeiro e Castro, mas nem sequer como número 1 na lista de Lisboa. O PAN acena desesperado à direita e à esquerda a ver se casa com alguém, depois do desastre mediático dos investimentos da sua líder. Finalmente a IL, com uma Convenção de consagração do seu líder, ousou dar umas pistas que deveriam merecer maior atenção da imprensa pela validade das propostas.

Regresso à realidade da economia portuguesa, com crescimento anémico nos últimos 20 anos, sobretudo quando comparado ao dos países de leste. Foram 10 os que entraram na União Europeia em 2004 – Chipre, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Malta, Polónia e República Checa, que superaram uma diferença de cerca de 17% (em 15 anos) no rendimento médio per capita em paridade de poder de compra. Esta a realidade dos números, mas à qual os nossos governantes (essencialmente socialistas) parecem estar ‘cegos, surdos e mudos’. 
O surpreendente nisto é que a opinião pública parece adormecida, diria quase satisfeita em receber dádivas governamentais através de pequenos ajustamentos aos ordenados ou atualizações do salário mínimo sem qualquer preocupação com o futuro. Todos discutem direitos básicos como a Saúde e Educação, mas a sua evidente deterioração estrutural e suas causas não é dissecada e muito menos ‘cobrada’ aos governantes. O SNS denota evidentes dificuldades de respostas agravadas pela pandemia e a Educação sofre tratos de polé como vemos na deterioração dos rankings das escolas públicas. Consequências? Absolutamente nenhuma.

Não podendo mudar esta confrangedora realidade, apenas posso deixar a minha contribuição para uma campanha eleitoral mais eficaz e mais dirigida para alguns temas fundamentais que visem dinamizar a economia e possibilitem, a prazo, distribuir mais e melhor riqueza. Assim, deixo aqui umas ideias soltas que gostaria de ver discutidas (i) reintroduzir as PPP’s, sobretudo na Saúde, como forma de solver necessidades básicas identificadas; (ii) a realidade das baixas qualificações laborais que se encontram associadas à reduzida produtividade nacional e como solver esta questão; (iii) a lentidão da justiça, sobretudo económica; (iv) o mercado de capitais e sua dinamização, como forma de angariação de capital para empresas nacionais; (v) a importância da inovação nas empresas; (vi) a discussão sobre o nível de exigência na educação dos nossos jovens e a introdução do empreendedorismo na educação como fator de desenvolvimento futuro.

Continuar nesta modorra é que não. Os partidos têm de sentir que há mais vida para além das eleições e que a sua mobilização por causas que digam algo às populações é recompensada, porque apenas por esta via é possível baixar a abstenção elevadíssima que reflete a atual indiferença nacional perante a política. 

2. A Justiça tem estado na berlinda pelas melhores e piores razões nas últimas semanas. Os casos polémicos sucedem-se, as prescrições incompreensíveis são manchetes de jornais e, o pior, é que a população sente um enorme descrédito perante a existência de uma justiça que seja justa. 

É tempo de criar uma task force que depois de confirmar as dezenas de diagnósticos feitos, atue para criar estruturas de resposta célere, nomeadamente reforço de meios independentes de investigação que permita à justiça atuar. Se possível, combatendo com eficácia as existentes manobras dilatórias que enriquecem advogados, mas minam a credibilidade da justiça, pilar de qualquer democracia. 

A mesma eficácia que a PJ agora demonstrou, ao deter João Rendeiro (por interposta Polícia), corrigindo a forma ‘amadora’ como a Justiça agiu que lhe permitiu a fuga, tem de ser a regra inspiradora para o futuro. A resposta está indiscutivelmente nesta campanha eleitoral.

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