O mundo em calções

Ao som do canto nómada

Muito ‘red neck’ australiano teve de engolir litros de fel quando uma rapariguinha aborígene venceu no mesmo ano Wimbledon e Roland Garros


O Canto Nómada, de Bruce Chatwin, é um livro diferente de todos os outros, até dos que foram escritos pelo mesmo Bruce Chatwin. Bruce era um fulano de ideias fixas. Em 1958, quando se mudou relutantemente de West Heath, nos arredores de Birmingham, onde o seu pai era advogado e vivia principescamente em casa dos abonados avós maternos, entrou para a leiloeira Sotheby’s como porteiro do departamento de obras de arte, algo muito abaixo das suas capacidades, como rapidamente se percebeu e tão rapidamente se resolveu – tornou-se perito em obras impressionistas e chegou a diretor da empresa. Mas algo dentro dele o mantinha irrequieto, apesar das contínuas viagens pela Europa para avaliar obras que pudessem interessar à leiloeira. Restlestness, chamou-lhe. Ou a anatomia da errância. A sua teoria era simples: o homem era um animal nómada que a sociedade obrigou a transformar-se num sedentário. Com a sedentarização veio a infelicidade. E a única luta contra a infelicidade era a errância. 

Chatwin foi, provavelmente, o último grande viajante dos tempos modernos. Fixou-se em África, percorreu o Sudão em busca dos faraós negros, partiu à procura das ruas de ouro de Timbuktu, no Mali. Fugiu para os confins da Patagónia, instalou-se na velha feitoria portuguesa de São João Baptista de Ajudá onde escreveu o vice-Rei de Ouidha, um estudo sobre o comerciante de escravos Francis Félix de Sousa e, de repente, ouviu um canto de sereia vindo da Austrália. E então surgiu no mundo essa maravilha que se chama Canto Nómada. Os aborígenes e o seu trilho infinito e invisível que percorre todo o território da Austrália.

Segundo os mitos ancestrais da construção do mundo, os indígenas australianos falam de lendários seres totémicos que vagueiam pelo continente cantando tudo o que veem, deixando assim, no canto, o mapa dos cainhos a percorrer por aqueles que hão de chegar depois deles. Cantam o universo para que ele se renove a cada canto. Entre a poesia e a prosa, Bruce dedica aos aborígenes aquela que é, provavelmente, a maior homenagem feita a um povo barbaramente perseguido por um colonização inglesa ascorosamente marcada pelo puritanismo vitoriano. E, por isso, Bondy Beach foi, durante décadas, uma Copacabana onde as mulheres molhavam os pés com saias compridas.

Há quem diga que os aborígenes australianos são os originais habitantes do continente. Também há quem diga que são, provavelmente, descendentes dos primeiros nativos que se deslocaram de África para as ilhas doPacífico. A verdade é que desde a chegada dos ingleses, perderam a sua condição humana. Foram precisas décadas de lutas intensas para que ganhassem o estatuto de cidadãos australianos.

Por isso, quando Evonne Fay Goolagong, uma aborígene de apenas 19 anos, viajou para a Europa para vencer, no mesmo ano, o Torneio de Roland Garros e o Torneio de Wimbledon, houve muito ‘red neck’ obrigado a engolir carradas de fel. Evonne era a terceira de uma fileira de oito filhos de uma família Wiradjuri, considerada como aborígene original. O pai, Ken Goolagong era um nómada, pastor de carneiros, a mãe, Melinda, tomava conta dos filhos e cantava-lhes os merencórios cantos nómadas que indicam todos os caminhos. Viviam em Barellan, e Evonne entusiasmara-se pelo ténis, jogando no court de um vizinho branco e abastado que achava graça ao jeito da garota. Em 1965, conseguiu convencer um amigo, Vic Edwards, professor de ténis em Sidney, a ir até Barellan para dar uma espreitadela às qualidades da pequena. Aos 16 anos, Evonne seguiria Vic até à grande cidade para ter aulas na Willoughby Girls High School. Não era apenas barra no ténis, mas igualmente uma menina inteligente que tirou o curso com a facilidade de um salto de canguru.

A carreira de Evonne Goolagong foi excecional. Venceu um total de sete Grand Slams e atingiu um total de 18 finais. Nos anos setenta ganhou por quatro vezes o Open da Austrália (1974, 1975, 1976 e 1977), uma vez Roland Garros (1971), duas vezes Wimbledon (1971 e 1980), estando presente em quatro finais o Open dos Estados Unidos (1973, 1974, 1975 e 1976), único torneio que nunca ganhou. Os resultados em pares não andaram longe dos resultados individuais. Entretanto, Vic Edwards tornara-se seu tutor e infernizava-lhe a vida com propostas indecentes e avanços sexuais continuados o que a empurrou para um casamento precipitado com um jovem tenista britânico ainda júnior chamado Roger Cawley. Entregue ao mundo dos brancos, foi no funeral do pai – morto num acidente de automóvel em 1974 – e da mãe – em 1991, que reatou os laços que a ligavam ao seu povo. O seu canto nómada calou-se. Quis regressar a casa e viver junto dos aborígenes, comprando uma casa em Noosa Heads, em Queensland. Chamavam-lhe a Super Rapariga do Sol.

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