Sociedade

Natal das famílias numerosas. "Faz-me falta ter a casa cheia"

Teresa tem 12 irmãos e não imagina viver esta quadra sem os mesmos. Inês tem cinco filhos e Sofia é mãe de quatro, no entanto, ambas continuam a manter as tradições familiares e a reunir a família inteira à mesa de Natal. Após um Natal vivido via videochamada com a família que está em Portugal, Vanessa, mãe de quatro, vem com os filhos e o marido a Portugal.

Natal das famílias numerosas. "Faz-me falta ter a casa cheia"

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Quando nasceu, Teresa já tinha 12 irmãos. Entre ela, de apenas 19 anos, e o irmão, de 46, distam 27 anos. «Tenho 34 sobrinhos – alguns mais velhos do que eu – e vêm mais dois a caminho», começa por explicar, esclarecendo que, nos primeiros anos de vida, esteve sempre acompanhada por nove dos irmãos. No entanto, hoje em dia, em casa da família Castro estão apenas a mãe, Teresa – que estuda Economia e Sociologia à distância numa universidade francesa – e o irmão Lourenço, de 24 anos.

«Estar numa casa tão vazia é horrível porque gosto de estar com todos e é estranho aperceber-me do silêncio. Faz-me falta ter a casa cheia. Quando nos juntamos todos, é uma festa», diz com entusiasmo. Apesar de não ser possível afirmar com exatidão quantas famílias numerosas (com três ou mais filhos) existem em Portugal atualmente, os últimos dados disponíveis, dos Censos de 2011, apontavam para 1.939 com 6 ou mais filhos, como a de Teresa. Havia então 1.131.639 famílias sem filhos, 1.222.547 com um filho, 717.936 com dois filhos, 124.961 com três filhos, 22.349 com quatro filhos e 5.000 com cinco filhos.

Tal como o i noticiou em agosto passado, a título de exemplo, no final de julho, foram divulgados os resultados preliminares dos Censos 2021 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), de acordo com os quais há 10.347.892 pessoas a viver em Portugal, menos 214 mil do que há dez anos – uma redução de 2%. Estes dados foram confirmados na última terça-feira e, por outro lado, o país tem um dos índices sintéticos de fecundidade mais baixos da União Europeia, com 1,4 crianças por mulher em idade fértil no ano passado.

Em 2013, era de 1,21, mas em 1960 era de 3,20 – o valor mais elevado registado pela Pordata. Se Portugal desceu abaixo da fasquia dos cem mil nascimentos anuais há 11 anos, tendo os valores oscilado de ano para ano, prevê-se hoje um panorama ainda mais negro: este será o terceiro ano consecutivo com quebras e, se ficarmos abaixo dos 80 mil nascimentos até ao final de dezembro, poderemos dizer que nunca nasceram tão poucas crianças em território nacional.

Mas não é essa a realidade da família Castro e a época natalícia é vivida com a mesma intensidade todos os anos. «No ano passado, juntámo-nos todos nos dias 24 e 25 de dezembro. É ótimo porque um leva a guitarra, outro toca piano, outro veste-se de Pai Natal… Há sempre muitas gargalhadas, cantamos músicas e a agitação é grande. E a minha mãe faz comida ótima como o peru, o bacalhau, as filhoses ou as azevias», conta. «Em nossa casa, como a minha mãe não tem receio da covid-19, não deixámos de estar com ninguém por causa da pandemia. Costuma dizer que ‘Temos de viver um dia de cada vez e entregar tudo nas mãos de nosso Senhor’».

Os irmãos vivem perto uns dos outros, em Cascais, e são quase todos vizinhos. O único evento recente que não passaram juntos foi a Páscoa do ano passado. «Somos muito unidos. É claro que há sempre divergências, somos todos muito diferentes e temos personalidades extremamente fortes. Mas, depois, perdoamo-nos e voltamos a ficar bem. É preciso saber superar os problemas».

Em 2011, quatro em cada 100 famílias portuguesas eram numerosas, mas hoje esse valor é incerto. «Não sabemos, mas temos muitos mais associados. Neste momento, contamos com 19 mil e 331 sócios ativos, correspondentes a 9.887 famílias», disse, há quatro meses, em declarações ao i, Ana Cid Gonçalves, secretária-geral da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), criada em 1999.

À época, elucidou igualmente que as famílias numerosas são prejudicadas em muitos âmbitos porque não se tem em conta o consumo per capita. Se assim é, sendo difícil suportar despesas como a da água. eletricidade ou alimentação, a célebre troca de prendas mantêm-se nestas famílias? «Quando eu era pequena, lembro-me de que havia imensos presentes. A nossa sala é enorme e era difícil andar lá! Houve a crise e a minha mãe disse ‘Só se dá um presente’. Houve uma grande redução».

Deste modo, em casa dos Castro, «o que se faz é dar um presente por família. Não queremos acabar com a essência do Natal para os mais novos, mas os mais velhos sabem que não são os presentes que importam». Em jeito de brincadeira, Teresa frisa que, à semelhança do irmão Lourenço, não é casada e nem tem filhos, portanto, são «sortudos» e recebem presentes de todos os familiares.

Na terça-feira, foram dadas a conhecer ao público as conclusões de um estudo levado a cabo pelo Observador Cetelem que indica que os gastos dos portugueses com as compras de Natal alegadamente aumentarão quase 40% e passarão para os 300 euros. «Este ano, os portugueses planeiam gastar cerca de 300 euros com as compras para o período de Natal, um aumento de 39% face ao ano anterior, em média, mais 83 euros, sendo que este valor inclui presentes, mercearia e decoração da época. Em 2020, o valor previsto rondava os 216 euros», lê-se.

Entendeu-se também que os portugueses com idades compreendidas «entre os 34 e os 54 anos são aqueles que tencionam gastar mais no Natal, cerca de 390 euros». Os mais novos, entre os 18 e 24 anos, esperam gastar aproximadamente 150 euros, mas são também aqueles que vão «alocar a maior parte do seu dinheiro à compra de presentes (74%)».

Concluiu-se que, dos 300 euros, uma média de 147, que corresponde a um aumento de 24% em comparação a 2020, destina-se aos presentes. Para a mercearia e a preparação da Consoada a previsão é de 140 euros, mais 59% face ao ano anterior. Em terceiro lugar, estão as decorações de Natal e os inquiridos «revelam que vão reutilizar os enfeites de Natal (44%); reutilizar a árvore artificial (36%) e, até mesmo, fazer as suas peças de decoração (7%)».

Ainda que reconheça que tanto ela como os familiares apreciam a vertente mais consumista da quadra natalícia, Teresa não reduz os dias de festejo à mesma. «Sempre disse que a minha fé não está nos homens: para mim, é óbvio que Deus existe. Houve alturas em que me questionei devido ao mal. O meu pai morreu quando eu estava no 6.º ano, tinha 12 anos. Aí revoltei-me um pouco e perguntei ‘Então, Nosso Senhor? Está a ser injusto’. Mas não há dúvidas de que Ele existiu. E foi realmente uma pessoa que ressuscitou e deu a vida pelos Homens. Este amor é sobrenatural!», transmite a jovem que fez a Primeira Comunhão com o Padre Bento XVI, quando o mesmo veio cá em 2010.

«Andava a pedir, desde muito pequena, a comunhão. Queria e consegui. O meu irmão que é padre perguntou à minha mãe: ‘Não se importa de que a Teresinha faça a comunhão no dia 11 de maio e não no seu aniversário?’. Tinha oito anos», lembra com orgulho o momento que decorreu no âmbito da visita papal que teve por objetivos primordiais a celebração do 10.º aniversário da beatificação dos pastorinhos de Fátima, Francisco e Jacinta Marto, videntes de Nossa Senhora, e o contacto com as dioceses de Lisboa, de Leiria-Fátima e do Porto.

«Na véspera de Natal, comemos o peru e fazemos a troca de prendas antes ou depois da Missa do Galo. A verdadeira tradição é comer, ir à missa do meu irmão, na Bobadela, e depois voltar para casa. Há dois anos, jantámos no salão paroquial e depois subimos as escadas e lá estivemos todos na Igreja», clarifica a estudante universitária que também desempenha funções enquanto professora e tutora, adicionando que, no ano passado, juntaram-se na casa dos pais como é habitual.

«Aqueles que estão menos preocupados são os que têm a vacina», porém, não é este o seu caso. «Não a tomei. O risco é muito pequeno nos jovens. Se cada família, de cada irmão meu, quiser, por consciência, pode fazer autotestes, mas não temos regras. Sabemos que nos dias 24 e 25 estamos em casa da minha mãe. Não é preciso ligar a ninguém. Faltam poucos dias e ainda nem falámos sobre isso».

No último Natal, ninguém ficou infetado. «Não temos tido problemas aqui em casa, mas há pessoas que já estiveram mal como uma irmã minha que já era vacinada. O meu 10.º irmão tem problemas de coração, uma sobrinha filha do 3.º e outro sobrinho que é filho da 2.ª sofrem do mesmo. O meu irmão chegou a ser dado como morto quando era bebé: foi um milagre. A minha mãe não quis que desligassem as máquinas, foi rezar a Fátima, a máquina começou a apitar e o coração voltou a trabalhar, digamos assim».

«Na fase terminal do meu pai, que morreu de cancro, ele estava muito agarrado à oração. Acreditamos que, depois da morte, há vida eterna e, por isso, a morte dele revolta-me um pouco. Sabia que não estaria mais com ele, mas ficava feliz por saber que ele já não sofreria. A quimioterapia, andar com o oxigénio, o cansaço… Eu sabia que ele estava em boas mãos e teria o descanso eterno», partilha a rapariga que sente a presença do pai, conversa com ele e, quando alcança as metas que define, diz «Pai, isto é para ti. Aposto que se estivesses aqui, estarias muito orgulhoso de mim».

«Às vezes, parece que ele ainda está vivo. O meu 11.º irmão casou-se em setembro e sentimos uma presença fortíssima, parecia que o nosso pai estava entre nós. E o mesmo acontecerá no Natal».

"Ter filhos é a melhor coisa do mundo"

«A APFN tem lutado para que os municípios portugueses criem tarifários familiares da água, que avaliem o consumo per capita, uma vez que os tarifários base estão construídos para penalizar os consumos excessivos, através de um aumento por escalões à medida que o consumo da casa aumenta, sem terem em conta a dimensão da família», acrescentou Ana Cid Gonçalves, em entrevista ao i, tendo rematado que «um copo de água custa mais na casa de uma família numerosa do que noutra qualquer».

Por outro lado, «ao nível do IRS, há uma necessidade de alterar a situação atual. O que acontece é que têm um conjunto de despesas elevado e é preciso ter isso em conta. O nível de rendimentos que alimenta e veste uma pessoa não é o mesmo que alimenta e veste cinco ou mais pessoas. O Estado não tem prestado atenção às famílias numerosas», acusou, lembrando que «quantos mais rendimentos uma pessoa tem, mais pode contribuir», mas «aquilo que acontece é que depende de quantas pessoas sustenta».

«Se pensarmos num casal de professores no primeiro escalão da carreira que passa a ter de rendimento ilíquido mais cem euros e, portanto, decidem ter um filho, ninguém pode dizer que têm maior capacidade financeira porque o filho até absorve mais do que esses 100 euros».  «Mas a verdade é que vão pagar mais impostos e com a eletricidade acontece a mesma coisa: há necessidade de mais potência, paga-se mais por kilowatt», elucidou.

E salientou que em outubro do ano passado foi anunciado que as famílias numerosas que quisessem beneficiar do IVA a 13% na eletricidade para os primeiros 150 kWh consumidos em cada mês, a partir de março de 2021, tiveram de ser elas próprias a tomar a iniciativa de pedir esse benefício adicional – até quatro pessoas, só teriam o imposto reduzido para 100 kWh – às suas fornecedoras de energia elétrica.

À sua vez, os agregados familiares constituídos por cinco ou mais pessoas somente tiveram acesso a esta majoração a partir de 1 de março e para isso o pedido teve de ser feito por escrito às comercializadoras e com base num requerimento-modelo divulgado pelo Executivo.

«Temos muitas vertentes de ação. Uma mais política, mas não partidária, no sentido de mudar as políticas aos níveis local e regional, pois avaliamos e premiamos os municípios com maior conjunto de boas práticas adotados e trabalhamos com todos os ministérios», esclareceu a dirigente da associação que acompanha uma família com 17 filhos, mas 72% das associadas têm três. Qualquer associado pode contactar os serviços jurídicos da APFN para «qualquer questão pontual relacionada com a resolução ou minimização de situações concretas e urgentes de famílias numerosas e defesa dos seus legítimos interesses».

Além disso, por meio do projeto Famílias em Rede, a APFN promove «uma rede de apoio entre famílias para abordar temas atuais e outros desafios que fazem parte integrante das suas rotinas», fomentando debates sobre temáticas como a da gestão do orçamento familiar. Como só subsistem por meio das quotas dos associados, não têm meios financeiros para auxiliar as famílias necessitadas. No passado mês de março, a associação criou uma plataforma online para promover a ajuda direta entre as famílias numerosas associadas, servindo esta «como plataforma de partilha de informação entre a família que precisa de ajuda e a família que quer ajudar».

Para as famílias necessitadas, o SOS Famílias disponibiliza categorias, onde os associados da APFN podem integrar os seus pedidos, tais como: Apoio Alimentar e Bens Essenciais; Apoio de Tempos Livres; Desemprego; Doação de Outros Serviços; Telescola e Teletrabalho. «Desde o início da pandemia, temos famílias a passar mal com o desemprego e a redução de rendimentos. Acaba por haver um empobrecimento muito agudo agravado pela covid-19», finalizou.

Assim sendo, como é que as famílias numerosas, para além da de Teresa, gerem o orçamento no Natal? Inês Palhares Falcão , de 42 anos, é arquiteta e tem cinco filhos: o mais velho tem 13 anos, o segundo 11, o terceiro nove, o quarto cinco e o mais pequeno três. «Somos três irmãs, 20 primos – o meu pai tinha cinco irmãos. Sempre quis ter uma menina e quando tive o meu primeiro filho, entendi que adorava bebés. Foi um gosto que fui tomando e acho que é a melhor coisa do mundo».

«Por norma, celebramos o Natal nos dois lados. Nos últimos anos, como a minha casa é grande, juntamos as famílias lá. Somos sempre acima de 25 pessoas. No ano passado, estiveram cá as minhas irmãs com os filhos, os meus pais e a minha cunhada com o filho», sublinha, confessando que ninguém ficou infetado com o novo coronavírus até ao marido ter ido aos EUA em novembro.

«Ele testou positivo. O teste de um dos miúdos deu negativo, como o meu e, até agora, todos passámos bem exceto o meu filho que vai fazer 12 anos no fim do ano. Teve uma semana horrível. Este ano, acho que esta casa será a mais segura de todas. Já falámos em fazer os autotestes antes de nos reunirmos, toda a gente aceita bem e confesso que estou mais descansada», garante, adiantando que o pai tem 71 anos e a mãe 64, sendo esta última profissional de saúde.

«Tivemos sempre os devidos cuidados, mas nunca stressámos muito. Com o lado da família do meu pai, comemoramos no dia 24 porque o meu filho de 11 anos faz anos no dia 25 de dezembro. Queremos que ele tenha o dia de aniversário como os irmãos. E no dia 25, fazemos um lanche de aniversário e ao jantar reunimo-nos todos», afirma, declarando que nunca faltam o bacalhau, o polvo, o peru assado no forno ou os famosos bolinhos de abóbora fritos, «parecidos com os sonhos», que a mãe faz apesar de serem as filhas a tomarem as rédeas da confeção das refeições atualmente.

«Fazemos troca de presentes. Este ano, decidimos que nos juntávamos para comprá-los. Ao fim e ao cabo somos muitos, gasta-se muito dinheiro e, por vezes, compramos coisas sem utilidade. Achámos que faria mais sentido vermos o que cada um quer e dividimos a despesa. Em termos de quantidade, será menor, mas com mais qualidade», acrescenta, realçando que a família passou um Natal «muito tranquilo» em 2020 e espera que o mesmo aconteça este ano.

Com apenas menos um filho, mas tradições semelhantes, Sofia de Melo Breyner, de 51 anos – mãe de um rapaz de 25 anos e de três raparigas com 22, 18 e 14 anos – tem oito irmãos e, no total, têm 23 filhos. «Juntamo-nos em casa da minha mãe, em S. João do Estoril. No ano passado, cada irmão esteve em sua casa. Juntei-me com os meus filhos, os namorados deles e as pessoas que estão sozinhas. Não deixo de fazer a minha vida por causa da covid-19, fui à Missa do Galo com todos – é a parte mais importante para mim – e depois a minha mãe ficou para aí 15 dias a comemorar o Natal saltando de casa em casa!».

«Ela tem 87 anos. O meu pai morreu há 16 anos. Antes, a tradição era o pequeno-almoço do dia de Natal e sentíamos falta disso quando nos casávamos. Até aos três filhos, saía da cama direta para a casa deles, íamos todos de pijama, mas começámos a ser muitos», justifica, recuando até às decisões que tomaram no primeiro Natal vivido em pandemia. «Fizemos autotestes – apesar de não serem muito confiáveis – e ninguém estava infetado. Eu não senti medo, mas sim os meus irmãos: há uns que continuam a não se juntar aos restantes. A minha mãe teve covid há pouco tempo, mas agora está ótima! Vamos fazer todos testes e depois estamos com ela».

Sofia «sempre quis ter muitos filhos» e não teve mais «porque a economia não deixa». Agora, quer ter netos e observa que «o Natal sem brinquedos é tristíssimo. Não há nada como uma criança». «Eu sempre fiz uma coisa engraçada: no meio dos presentes, embrulhava troncos de lenha! Ficavam zangados e eu dizia sempre ‘Podia ser a PlayStation ou outras coisas, mas é um tronco por causa das birras», aponta, avançando que, hoje em dia, são fãs do chamado ‘Amigo Secreto’, cabendo a cada pessoa dar uma prenda a um dos familiares e aos afilhados.

Mas na família Melo Breyner, a comida é um dos pontos mais relevantes tanto na véspera como no dia de Natal. «Cozinha cada um em sua casa e depois levamos tudo para casa da minha mãe. Eu cozinho com os meus filhos porque o meu mais velho e a mais nova adoram. Comemos uma coisa estranhíssima: comemos cozido à portuguesa no próprio dia, feito pela minha mãe, e o peru e o bacalhau no dia anterior».

«Somos católicos praticantes. Desde o início da pandemia, não questionei as minhas crenças, só me preocupava com o facto de não ser possível ir à missa. Tenho 18 sobrinhos. E do outro lado, do meu marido, são mais 18, 14 sem contar com os meus filhos. No dia de Natal, andamos de um lado para o outro sempre divididos! O que vale é que é tudo perto», refere, não escondendo que, no Natal de 2020, juntaram-se 14 pessoas em sua casa. «Eu acho que as restrições, se vierem, serão implementadas depois das eleições de janeiro porque agora não lhes interessa com a campanha eleitoral à porta. Vai haver a primeira semana de contenção e, depois, veremos o que acontece».

A esperança depois de um Natal vivido por videochamada

Tanto Teresa como Inês e Sofia sabem que nem todos os portugueses encaram esta quadra com otimismo, pois um em cada dois acredita que o Natal não voltará a ser como era antes do surgimento da pandemia. De acordo com dados apurados pela Intrum, as famílias com menor rendimento são aquelas que mais se identificam com este pensamento : 55% acredita que os futuros Natais serão piores do que aqueles que já passaram e a percentagem desce apenas para 50% nos agregados de rendimento médio e 48% nos de rendimento alto.

Estes dados não são surpreendentes porque 62% das famílias inquiridas notam que a sua vida financeira está pior hoje do que antes, tendo em conta que a média europeia é de 52%. Entre os 24 países europeus analisados, Portugal é o terceiro com expectativas menos positivas, ficando atrás de Espanha - com 52% - e Itália - com 51%. No extremo oposto estão os Países Baixos - com 26% -, a Áustria - com 26% - e a Dinamarca - com 22%.

Importa igualmente mencionar que, no dia 17 de outubro, Dia Internacional pela Erradicação da Pobreza, foi veiculado um relatório realizado pela Pordata – Base de Dados de Portugal Contemporâneo, que é organizada e desenvolvida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, criada em 2009 –, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), através do qual se podia percecionar que muitas famílias numerosas - tal como quem vive sozinho, idosos, crianças, estudantes e trabalhadores  vivem em condições precárias. Mais de 1,6 milhões de portugueses vivem abaixo do limiar da pobreza, isto é, com menos de 540 euros por mês.

Não desejando viver esta precariedade, Vanessa Batista Coutinho - engenheira de formação -, de 37 anos, mudou-se para Bruxelas com o marido - funcionário europeu - e os quatro filhos - uma rapariga com 15 anos, um menino de oito, uma menina de seis e um menino de três - há sete. «Gostámos bastante e acabámos por ir ficando».

Segundo dados oficiais do Observatório da Emigração, em 2020, 37 mil e 376 residentes da Bélgica haviam nascido em Portugal. Em 2019, foram 3.215 os portugueses que decidiram ir para este país, de acordo com a OCDE. Das 129 mil e 450 entradas de estrangeiros em território belga, 2,5% diziam respeito a portugueses.

«Este ano vamos a Portugal no Natal, mas no ano passado não fomos. Tenho três irmãos, comigo somos quatro. A minha mãe tem onze irmãos. O meu pai biológico tinha sete irmãos. Não passámos juntos o Natal de 2019, mas a minha família veio cá», diz a mulher que, desde criança, dizia que tinha o sonho de ser mãe de quatro crianças. «Acho que se não fosse a pandemia já teríamos outro bebé».

«Na noite de dia 24, comemos bacalhau com todos. No dia a seguir, a minha avó faz a roupa velha, o borrego ou cabrito e o leitão assado porque ela é angolana, mas o meu avô era da Mealhada», partilha a autora do blogue ‘Sem Alergias à Mesa’ e do livro ‘Crescer Feliz com Alergias Alimentares’.

«Na noite de 24 para 25 de dezembro, o Pai Natal vem trazer as prendas. Quando os miúdos começaram todos a ficar mais velhos, alguém reconhecia a pessoa que se tinha disfarçado e decidimos parar para que os mais novos não perdessem a inocência», narra, contando que, no ano passado, os familiares que estavam em Portugal não se juntaram como antes. «Cada um ficou em sua casa e a minha avó não quis passar o Natal só com uns e sem os restantes».

«É mais fácil quando são todos pequeninos ao contrário daquilo que se possa pensar. Sinto que agora exigem muito mais. Noto que precisam muito mais de atenção, disponibilidade. Tive a sorte de colocar a minha profissão de lado, a engenharia, e quando tive o meu segundo filho deixei de trabalhar. Em setembro, o meu mais novo foi para a escola e estou a começar a pensar em trabalhar novamente. Para mim é uma sorte e um privilégio poder decidir tudo com calma». Todavia, Vanessa não tem quatro filhos por não ser apologista dos métodos contracetivos.

«Eles nasceram porque quisemos. Somos católicos praticantes, mas por muito católica que seja, acredito muito na Ciência e na parentalidade com responsabilidade. Tem de haver condições financeiras, sociais, etc. para garantir que ficam bem porque não são nossos filhos apenas quando são pequeninos, temos de lhes dar apoio em todas as fases da vida», comenta a mãe que está «a torcer para que ninguém apanhe covid até terça-feira» para que possam viajar.

«Este ano vai ser bom porque vamos estar todos juntos, até aqueles que estão noutros países como o Reino Unido ou Angola. Todos tínhamos planos como o batizado do meu filho, a primeira comunhão de outro… Foi uma separação forçada», lamenta, indicando que tem sido complexo lidar com o sofrimento do filho de oito anos que «tem uma sensibilidade muito elevada e sente tudo em dobro ou triplo. Está a perceber bem o que é a distância, a saudade, o que são primos, tios...».

«Habitualmente, todas as crianças e a minha avó, a matriarca da família, recebem prendas de todos. E o resto da família recebe dos irmãos e dos pais. Temos uma casa em Coimbra, em Tábua, e era lá que passávamos o Natal.  Agora, passamos no hotel onde trabalha uma prima minha. Alugamos os quartos e ficamos lá, é em Setúbal» 

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