Crónica de uma ópera

Do alto do Marão vê-se o mundo

A Mátria é mãe e conta uma história, talvez feche um ciclo, talvez seja o começo de uma nova vida. Uma ópera, a música, não tem de ser privilégio nem crença só de alguns. 


Por Eduarda Freitas, autora do libreto e produtora da ópera Mátria - https://www.facebook.com/matria.pt

Perguntam-me muitas vezes porque é que decidi escrever um libreto para uma ópera. Eu tento articular um discurso coerente mas, sinceramente, escrevi um libreto porque tive vontade de o fazer. A escrita é aquele espaço dos meus dias onde gosto de viver. Hoje é sábado, a ópera estreou na noite de ontem, dia 17, ou seja, antes de eu escrever a crónica que agora estão a ler. Sei como correu.

Aliás, sempre soube como ia correr. Que ia ser difícil, que ia ter de me resignar com um país que fala mais do que aquilo que faz, que ia perceber na pele que os pequenos interesses não percebem que por vezes as coisas surgem só porque existe vontade de as fazer, sem segundas intenções, sem protagonismos à mistura. Que muitas vezes, surgem só pelo prazer de pôr os dedos nas teclas e contar uma história, e de ficar horas e horas a pensar naquelas personagens como se fossem parte do quotidiano. Ou a desejar que fizessem parte.

E também de incentivar outras pessoas através das nossas vontades. De estar à mesa com os amigos e ver que as ideias podem acontecer, podem sair do sofá, podem chegar a outras vidas. A Mátria foi assim. Uma ideia. Agora é de muitos. A noite de ontem foi o chegar a casa.

O melhor, para mim, foi sempre fazer a viagem. Às vezes, chegar a casa, até custa um pouco, porque é o fim de algo, que contado, parece diferente, menos relevante. A viagem não. A viagem tem todas as possibilidades em aberto, tem todas as vontades à nossa espera, todos inesperados. Viajar é existir de várias formas. E que bom que é olhar um palco e desenhar com os corpos uma história. Sou muito agradecida a todos os que se deixaram contagiar pelo improvável. A todos os que fizeram acontecer.

A Mátria é mãe e conta uma história, talvez feche um ciclo, talvez seja o começo de uma nova vida. Uma ópera, a música, não tem de ser privilégio nem crença só de alguns. A vida não tem de ser só para alguns. Não deveria ser notícia uma ópera que nasceu em Trás-os-Montes, porque de Trás-os-Montes vê-se o mundo. E o mundo é muito grande e infinitamente repleto de sonhos por concretizar. 

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