Sociedade

Anselmo Borges: "O grande problema do cristianismo e da Igreja é uma confusão entre autoridade e poder"

No Natal, celebra-se a ‘palavra definitiva’ de Deus, diz Anselmo Borges. Não deve ser um ‘festival’ mas espera que volte a ser a festa normal para o ano e lamenta que haja hoje quem já não conheça a sua origem. Com um novo livro sobre o futuro do mundo e da Igreja, acredita que a Humanidade nunca esteve tão ameaçada e precisa de tempo para pensar. A Igreja arrisca-se a perder as mulheres e tem de se renovar. E também a política exige uma ‘gigantesca atitude de santidade’.  

 


Chegamos ao segundo Natal em pandemia. Como vai ser o seu e como gostava que a festa fosse vivida?

Vou viver o Natal com algum recolhimento. Pensar no aniversário de Jesus, no que representa para mim e para Humanidade. Isso para mim é o fundamental. O Natal na sua dimensão de alegria e celebração deve ter a ver com a ternura daquela criança. Os presentes não devem ser aquele festival de ostentação mas, como diz a própria palavra, devem ser uma expressão da nossa presença para os outros. Vou estar com uma família de quem sou muito amigo e celebrar com eles.

Voltamos a ver restrições e sobretudo receio na hora de juntar a família. A pandemia poderá mudar a tradição do Natal, acabar com as festas muito alargadas?

Apesar de tudo há mais abertura do que em relação ao Natal passado e tenho esperança que esta situação pandémica passe a endémica e que para o ano já possamos realizar o Natal dito normal. Precisamos de ter cuidado este ano, para que possamos ter razões fundas para celebrar o próximo Natal de 2022 como dantes. Tenho essa esperança.

Tem muitas memórias de Natais?
A primeira lembrança que tenho de Natal foi de um dia o meu pai dizer-me a meio da tarde ‘vamos para casa’. E eu pensei tão cedo. E foi quando ele disse que era dia de Natal. Era tudo diferente, mas era uma noite especial. É a minha primeira lembrança, não sei que idade tinha. Tenho lembrança dos grandes natais passados com a família, das rabanadas magníficas que a minha mãe fazia, das festas de Natal com amigos quando vivi na Alemanha. Boas recordações.

Para muitas pessoas é um momento de maior saudade. Tem muitas saudades?
A palavra saudade é muito bonita. Dizem que só existe em português, e acho que sim, pelo menos no sentimento que para nós traduz. Não se sabe exatamente a origem, mas o seu étimo será salutem dare, e é daí que vem também a palavra saudar. Nós saudamo-nos uns aos outros. Se a palavra saudade vier de salutem dare, significa que aqueles amigos que encontramos ao longo da vida, mesmo que já partiram, o que desejamos é que passem bem. Se vier por outro lado do latim solitate, solidão, significa que por que o meu amigo, aquela pessoa querida, já partiu, não está presente, sinto-me só. Saudade exprime ao mesmo tempo esse saudar e evocar dos outros e essa solidão que sentimos. E claro que sinto. Tenho saudades da minha mãe, do meu pai, de queridos amigos e queridas amigas que partiram, dos meus dois irmãos que partiram. Mas acredito que estão bem porque estão em Deus, na vida plena de Deus. 

O que é estar em Deus?
A realização plena de todas as nossas aspirações. O ser humano tem um desejo de infinito. Já Santo Agostinho dizia que o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Deus. Como é exatamente eu não sei, ninguém sabe, mas às vezes temos pequenas experiências... Lembro-me de repente que uma vez ouvi a 9.ª Sinfonia em Berlim, por uma grande orquestra, e esqueci-me completamente de mim. Estive na plenitude. De tal maneira que, quando acabou a sinfonia, eu vinha de outro mundo.

À medida que a idade avança, coloca mais perguntas sobre esse infinito?
Para ser sincero, essa foi a questão que se me pôs desde sempre. Desde muito jovem fui assaltado por essa pergunta do sentido último, da morte. Não de forma pessimista. Viver a gente vive e faz sentido amar, estudar, ter amigos. Mas, a um dado momento, por mais que realizemos, nunca nos realizamos completamente e um dia somos confrontados com a morte. O sentido último da vida foi-me manifesto em Jesus, na sua vida, e foi por isso que, com 19 anos, decidi ser padre, para anunciar às pessoas que há o Evangelho, uma notícia boa e felicitante. Jesus veio revelar que Deus é bom, que é pai, é mãe e que a nossa vida vale a pena nesse amor, tem um sentido último. E Jesus na sua vida não se desdisse, foi até ao fim. Morreu para testemunhar a verdade e o amor de Deus. E por isso lentamente os discípulos, refletindo sobre a mensagem de Jesus, sobre o seu comportamento e a sua morte, tiveram uma experiência avassaladora de que aquele Jesus está vivo. É o vivente, como promessa e esperança para nós. Fiz-me padre para anunciar às pessoas esta esperança que não morre.

E sente que conseguiu fazê-lo?
Fui ordenado em 1967 e tento. É uma tentativa, evidentemente. Nem sempre terei conseguido da melhor maneira, mas tento transmitir esta mensagem que é boa para mim, exatamente por pensar que é a melhor mensagem que alguma vez apareceu na Humanidade.

Esse festival do consumismo, como dizia, é hoje incontornável. Mas com isso a festa do Natal laicizou-se de certa forma, é celebrada certamente por muitos mais do que seria se fosse apenas a festa católica. Isso foi bom ou mau para o cristianismo?
O Natal existe porque Jesus nasceu. Celebra-se nessa época porque no solstício de inverno, quando os dias começam a crescer, havia a festa do Sol Invicto. No séculos III e IV, já o cristianismo estava muito difundido, passou a celebrar-se nessa mesma altura o nascimento de Cristo, o verdadeiro sol invencível, a luz que ilumina todos os seres humanos. Hoje é verdade: segundo uma sondagem feita nos EUA, um terço dos norte-americanos já não sabe que o Natal se relaciona com o nascimento de Jesus. Claro que acho lamentável que se esqueça a origem do Natal como celebração do nascimento de Jesus, mas de uma forma ou outra nesta época somos mais solidários, há um sentido de encontro com a família e isso são valores profundamente cristãos, portanto existe essa luz no Natal.
Há umas semanas, deram uma forte polémica as diretrizes que estavam a ser preparadas na Comissão Europeia para desincentivar o uso da palavra Natal, passando a desejar-se nas instituições boas festas, sem referências religiosas.

Ficou surpreendido?
Era uma iniciativa da comissária para a Igualdade, Helena Dalli, com a preocupação de maior inclusão. Pessoalmente acho-o um caminho suicidário. Nós somos enraizados. Quando esquecemos, ou pretendemos ignorar, as nossas raízes, perdemos a identidade. O incêndio foi apagado através de uma carta que Ursula von der Leyen escreveu pessoalmente ao Papa a assegurar que a União Europeia se inspira na ‘herança cultural, religiosa e humanista da Europa’.

O Papa reagiu de forma bastante dura: disse que era preciso ter cuidado com “colonizações ideológicas”, que podem levar à divisão dos países e ao fracasso da União Europeia. Não é a primeira vez que usa essa ideia. Estava à espera de uma tomada de posição tão forte?
Sim. O Papa insiste muito nas raízes e na importância das raízes. A constituição do ser humano é à maneira de uma árvore. Ensinei antropologia filosófica muitos anos e insistia nisso. Somos produto de uma herança genética e de uma cultura, são as nossas raízes. E somos abertos, também como é uma árvore. Uma árvore sem raízes não se pode abrir. Não devemos colonizar os outros, mas o amor bom também começa por si, não devemos também deixar-nos colonizar de um modo qualquer. O diálogo provém de pôr a nossa identidade em encontro com a dos outros e para isso temos de ter raízes, saber de onde vimos.

No ano passado apelou às famílias que não iam à missa para comungarem em casa. Soube de gente que o tivesse feito?
Algumas sei que sim. O grande problema do cristianismo e da Igreja é uma confusão entre autoridade e poder. A Igreja só se renovará verdadeiramente na medida em que cada católico, cada cristão – a começar pelo Papa, cardeais, bispos, monsenhores, padres, a começar por mim – pare e pergunte a si próprio: eu estou na Igreja, a Igreja tem uma mensagem, eu estou interessado nessa mensagem? O Evangelho é bom para mim? Só a partir do momento em que cada um pergunte a si próprio se essa mensagem é boa e se converta é que ergueremos uma organização. E, no princípio, os cristãos acreditavam verdadeiramente, converteram-se e celebravam a última ceia. Não havia igrejas, não havia basílicas, não havia catedrais. Celebravam a última ceia, o memorial de Jesus, na casa de um cristão, numa casa um bocadinho melhor é certo, mas quem presidia era o dono ou a dona da casa. Na Igreja deve haver um ordenamento, ministérios, como desde o princípio houve também, como os diáconos que se serviam à mesa e ajudavam os mais carenciados, os mais pobres– e hoje a Igreja também serve muita gente, ai de nós se não fosse a Igreja. Mas Jesus disse eu não vim ao mundo para ser servido, vim ao mundo para servir. Há uma distinção fundamental que é preciso fazer entre poder e autoridade. É difícil. O ser humano anseia por poder, porque é carente. Foi Henry Kissinger que disse que o poder é o maior afrodisíaco. Andamos numa ilusão de poder a pensar que chegamos à omnipotência, na ilusão de que aí podemos matar a morte. Agora o que nos diz o Evangelho é que Jesus pregava e fazia-o com autoridade.

Contra o poder.
Não tinha poder formal, nem se quer era vogal de junta de freguesia. As pessoas ouviam-no porque ele pregava com autoridade. Autoridade vem do latim augere, que significa aumentar, fazer crescer. As pessoas sentiam-se maiores, mais felizes, mais realizadas, era uma mensagem de libertação. E, na Igreja, as autoridades têm de ser verdadeiras autoridades nesse sentido, mas também os pais, os médicos, os professores. O Novo Testamento diz que Deus é amor mas também é razão, precisamos unir bondade e inteligência, amor e razão. Se as pessoas parassem todos os dias para pensar um pouco nesta união, não se produziam tantas tragédias, até pessoais. E se não ambicionássemos tanto poder, se calhar não se cometiam tantos disparates.

A pandemia afastou ou aproximou as pessoas de Deus?
Houve de tudo. Houve pessoas que se aproximaram mais. Há estudos que mostram que as pessoas com uma religião tiveram mais resiliência para superar as dificuldades que a pandemia trouxe. Agora, quando refletimos sobre isso temos de pensar que as crianças e jovens não foram socializados na igreja. Quando isto tudo passar, poderemos assistir a uma crise maior. Diante disto é preciso não ter uma religião meramente tradicionalista, personalizar a fé.

O que sente nas celebrações? As pessoas procuram o quê na Igreja?
Estão à espera de uma palavra de confiança e de esperança. Na missa que celebro aos domingos até há muitos jovens e o que lhes digo é que nunca tenham vergonha de se afirmar cristãos. Onde está Cristo está a liberdade. Deus não tolhe, pelo contrário, abre horizontes mais vastos. Muitas vezes há aquela ideia de que ser cristão é viver encolhido. No cristianismo não tem de haver receio de fazer perguntas. Era Heidegger que, com razão, dizia que a pergunta é a piedade do pensamento. Face a Deus, que é infinito, o que é que o ser humano deve fazer? Rezar também é fazer perguntas. Nas dificuldades, Jó até discutia com Deus, fazia perguntas. Julgo que as pessoas precisam de uma palavra de confiança, de abertura e de luz para a vida quotidiana, uma luz que ilumine a vida familiar mas também que ilumine a própria vida política. O Papa Francisco é uma voz político moral global e gostaria que a Igreja em Portugal fosse também iluminante para as grandes questões do país, que vai passar por questões graves. Penso que a Igreja deve ter esse papel de ser luz, como o Natal que celebramos nesta altura porque aqueles cristãos viram que Jesus era luz.

Sobre que questões graves gostava de ver a Igreja pronunciar-se?
Em relação à corrupção, intolerável. Em relação à família e à política de natalidade. À economia: porque é que a economia está estagnada em Portugal há tanto tempo? Em relação à educação. Aos idosos. Há países onde há já hoje um ministério da Solidão. Os Censos mostraram-nos que há muita gente solitária.

Pela primeira vez mais de um milhão de portugueses vivem sozinhos.
Sim. E penso que também é preciso refletir sobre a imigração. Evidentemente que temos de estar abertos mas numa abertura racional, não podemos fazer de tal modo que em vez de resolver problemas criemos mais problemas.
Voltando por exemplo à política de família, não temos ouvido falar disso mesmo agora nesta campanha eleitoral. Faço muitos batismos e digo muitas vezes aos pais meio a brincar que é preciso arranjarem um seguro para os filhos. Como é que vamos aguentar as reformas e toda a política de Segurança Social? Precisamos de rever as nossas políticas a pensar nisso. Em relação aos imigrantes, precisamos certamente de muita mão-de-obra mas é preciso receber imigrantes e refugiados usando a razão e não pensando apenas no imediatismo e pensar de que modo é que podemos integrar e quantas pessoas podemos e devemos receber.

Não falou da eutanásia. Sempre se manifestou contra. Como viu o veto de Marcelo?
Penso que o Presidente da República só tinha de vetar, há contradições no texto. Sou contra a eutanásia como sou contra a obstinação terapêutica. E sou contra a eutanásia porque com uma lei da eutanásia o Estado fica com mais um dever que é matar. Porque é que em vez de se dizer eutanásia se diz morte medicamente assistida? Morte medicamente assistida também quero, uma morte medicamente assistida, familiarmente assistida. Com uma lei da eutanásia entra-se numa rampa deslizante. Nos Países Baixos, a eutanásia é dada a doentes mentais crónicos. Na Bélgica está aberta a menores.

Mas havendo pessoas em sofrimento agudo que poderiam esperar por esta possibilidade, este vai e vem da lei foi um processo claro?
Não percebo porque é que quem defende a eutanásia teme um referendo, parece que há quase uma obsessão em torno disto e quando a Assembleia da República já estava eutanasiada, moribunda, não consigo perceber o porquê de tanta pressa.

Considera que deve haver um referendo na próxima legislatura?
Tratando-se de uma questão civilizacional, e acho que aí não deve haver ilusões, devia haver um referendo. Ao menos, ouvir o povo.

Neste novo livro que tem nas bancas com muitas das suas crónicas semanais e textos escreve sobre o futuro da sociedade e da Igreja. Cita a certa altura uma frase do filósofo francês Abdennour Bidar, que diz que se passará da anormalidade extraordinária de um confinamento imóvel para a anormalidade ordinária do corre-corre febril. «Dois confinamentos, um em casa e outro fora de si». Muitas pessoas hão-de identificar-se com isto. Vivemos nesta encruzilhada?
Sim, o confinamento obrigou-nos a ficar em casa e muitas pessoas quase que desesperavam. Nem imagino aquelas famílias a viver em apartamentos de quinto andar com filhos pequenos. Tenho o privilégio de viver num espaço com uma quinta e não passei por isso. Mas estarmos confinados é sempre complicado. Agora, a seguir, veio esse normal de corre-corre, hoje vive-se numa aflição. Temos carros teoricamente com cada vez mais potência mas em que as pessoas passam horas no trânsito. Não costumo ter necessidade de andar de carro, uso mais o comboio, mas ontem fui visitar uma senhora e é um inferno todo aquele movimento. Aquilo que me é dado a observar é que as pessoas à noite entram em casa esgotadas. Às vezes critica-se, e bem, os programas de televisão, mas eu até percebo que as pessoas querem ver um programa qualquer que quanto mais estúpido for melhor, porque estão cansadas, exaustas. Tudo isto acaba por retirar o tempo que têm para a falar umas com as outras, com as crianças. E todo este duplo confinamento creio que estará ligado aos problemas crescentes de doença mental que temos vistos. Precisávamos de um paradigma novo e diferente para viver. Criámos uma civilização com muitos teres, com pouco ser e autodestruímo-nos. Não vejo as pessoas mais felizes.

Como imagina que se poderá sair desse estado?
Penso que se alguma coisa a pandemia nos ensinou foi que conseguimos viver com menos, podíamos viver com mais moderação, com mais tempo para nós mas isso de facto exigia uma mudança de paradigma. Se soubesse a fórmula para o resolver ganhava o prémio Nobel, todos os prémios Nobel. Penso que neste momento já percebemos que está tudo interligado mesmo quando não o queremos ver. Talvez nunca a Humanidade se tenha confrontado com ameaças e perigos tão graves como agora: temos o aquecimento global, temos a ameaça nuclear, cada vez vemos mais ameaças de guerra e aí o Papa Francisco tem razão quando diz que há uma 3.ª Guerra Mundial em curso mas aos pedaços, por aqui e por ali. Mesmo na Europa há ameaças de guerra. Temos a emergência das NBIC – acrónimo de nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas (neurociências) – com potencialidades mas também novos desafios, a inteligência artificial, que nos levam a pensar em transhumanismo e pós-humanismo. Já se fizeram bebés transgénicos! Tudo isto obrigaria a uma governança global. A política não pode ser apenas nacional, tem de ser regional. Não digo que precisamos de um governo mundial, mas de uma governança global precisamos.

Quando nem vacinas se conseguiram distribuir de forma minimamente equitativa…
Mas por isso é que penso que temos de começar a refletir sobre estes temas e a Igreja deve estar presente neste debate, em união com as outras igrejas cristãs e em diálogo inter-religioso com as grandes religiões mundiais. Têm a obrigação de dar um contributo decisivo no plano ético-jurídico político para esta governação mundial. Diga-se o que se disser, hoje ainda quase 85% da Humanidade se confessa religiosa. Precisamos de meditação e de moderação para pensar o futuro. Não é por acaso que o étimo mederi, curar, com raiz sânscrita em med, deu ao mesmo tempo moderação, medicina e meditação. Mas para mim de facto como conseguir esta governação global é um dos nossos problemas para o futuro.

O ano de 2021 fica marcado pelo anúncio de investigações inéditas aos abusos sexuais praticados na Igreja em Portugal e agora em Espanha, dois dos países tradicionalmente mais praticantes da Europa. A Igreja desconfinou como também escreve neste livro?
Com a pedofilia a Igreja perdeu credibilidade, confiança. É uma situação dramática. Tenho muita confiança no presidente da Conferência Episcopal e nesta comissão independente que foi criada para que investigue e traga transparência e a verdade do que aconteceu também em Portugal neste domínio. E isso será essencial para que a Igreja possa anunciar a Boa Nova. Era Nietzsche que dizia que a Igreja, em vez de anunciar o Evangelho, anunciou um Disangelho, uma notícia de desgraça. E esta foi uma notícia de desgraça, como têm sido os escândalos financeiros, nomeadamente no Banco do Vaticano.

Os próximos anos, à medida que vierem a público os resultados, serão duros para a Igreja e para os movimentos católicos? Poderão gerar um maior afastamento, menos vocações?
Há uma palavra do Evangelho que diz a verdade libertar-vos-á. A Igreja só tem uma coisa a fazer, aliás como todas as pessoas, que é confrontar-se com a verdade. E esse confronto com a verdade vai ser redentor e é essencial para que a Igreja se reconcilie com as pessoas e, principalmente, com aqueles que foram vítimas. Jesus disse ‘deixai vir a mim as criancinhas’. Deu dignidade a todos, mesmo àqueles que na altura não tinham igualdade plena, crianças e mulheres. E acrescentou: ‘Ai de quem escandalizar uma criança, era preferível atar a mó de um moinho ao pescoço e mandá-lo ao mar’. 

Teremos em Portugal uma realidade como a que foi descrita em França?
Não sei. Espero que em Portugal não tenha sido tão catastrófico como se revelou em França, mas aguardo o resultado da investigação.

Continua neste livro, como tem feito ao longo dos últimos anos, a defender o fim do celibato obrigatório para padres e a ordenação de mulheres. Ainda espera ver essas mudanças?
Bom, estou velho, tenho 77 anos, devo ser realista (risos). Mas mesmo que fosse mais novo e sendo sincero, era o Cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão, que dizia que a Igreja está 200 anos atrasada e eu concordo. Martini morreu em 2012, numa altura em que se dizia que podia ser papável.

Francisco também já o disse.
Sim. E por isso para mim estes dois pontos são mudanças fundamentais. A Igreja viveu durante mil anos sem celibato obrigatório. O celibato apareceu no século XI, foi determinado no Concílio de Latrão pelo Papa Gregório VII. Jesus não obrigou ao celibato, o primeiro Papa, São Pedro, era casado. As cartas católicas atribuídas a São Paulo, que era celibatário por opção, dizem que um bispo deve ser alguém casado e que tenha educado bem os filhos. O celibato só foi obrigatório para a Igreja do Ocidente a partir do concilio de Trento, no século XVI. Nas igrejas católicas orientais há padres casados. Podia continuar a dar exemplos... Quanto às mulheres, Jesus tinha discípulos e discípulas. A primeira a fazer a experiência avassaladora de que Jesus está vivo foi Maria Madalena. Na Igreja primitiva, muitas vezes foram mulheres que presidiram à celebração da eucaristia. A Igreja começou por perder os intelectuais, depois perdeu a classe operária, depois perdeu os jovens e por esta andar vai perder as mulheres. As mulheres têm razões para se dar mal com uma Igreja oficial que as discrimina quando Jesus não as discriminou. A emancipação feminina também a partir deste fermento deu-se na sociedade e a Igreja não acompanhou. A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem base no Evangelho mas teve de impor-se contra a Igreja oficial.

Continua a ser rotulado de herege. Mantém-se a sua igreja?
Não são posições hereges. Na Igreja deve haver liberdade de pensamento e diálogo. Quero o bem da Igreja e procuro fundamentar as minhas posições, argumento e estou disposto a debater.

Convidou Paulo Rangel para escrever o posfácio do seu livro, católico que falou publicamente sobre a homossexualidade. Foi também uma tomada de posição?
Pedi à Maria de Belém Roseira para fazer o prefácio e a Paulo Rangel, que na altura era apenas eurodeputado, o posfácio. E convidei-o como alguém que é um pensador e com enorme saber jurídico-político, foi nesta condição que o convidei. Depois a seguir houve a política partidária. E aí se há pouco dizia que a Igreja deve ser uma voz político moral, distingo muito bem entre política – e todo o ser humano é político e por isso a Igreja deve pronunciar-se sobre política –, mas não se deve meter na política partidária.

Mas um padre convidar uma pessoa homossexual ainda causa anticorpos na Igreja portuguesa?
Estou convencido que na Igreja portuguesa ainda há vários setores que manifestam reservas. Mas digo isto tendo convidado Paulo Rangel não por ser homossexual ou do PSD, pelo seu pensamento, como convidei a Maria de Belém Roseira não por ser do PS mas porque a considero uma pessoa cristã e com posições, políticas certamente, mas em prol do bem comum e queria que ela tivesse lugar neste meu livro de forma crítica, um livro em que procuro olhar dessa forma crítica para o futuro, do mundo e da Igreja, um futuro esperançoso mas também ameaçado. 

Disse que a Igreja não se deve meter na política partidária. Como vê a utilização inversa, André Ventura dizer que Deus lhe confiou a ‘missão’ de transformar o país e mostrar o terço que traz no bolso?
Jesus foi claro: ‘Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus’. A Igreja tem o direito e o dever de iluminar a política a favor do bem comum, da salvaguarda da dignidade de todos, a começar pelos mais abandonados e frágeis, mas não se deve meter em política partidária. Do mesmo modo a política partidária não pode servir-se da religião para os seus interesses partidários: isso é invocar o Santo Nome de Deus em vão. 

Aos 77 anos, sente-se um homem mais de esquerda?
Não sei exatamente o que é esquerda e direita. Procuro olhar para a realidade humana, como já disse, unindo amor e razão. Dou-me muito mal com a insensatez e com a crueldade e é nessa base que avalio as políticas e, se quiser, a política partidária, tentando fazer esse cruzamento de forma crítica, olhando para as consequências das atitudes. Às vezes tenho de pronunciar-me sobre economia política e há muito tempo que compreendi a dificuldade, de tal forma que digo do altar para baixo que mais facilmente falo do mistério da Santíssima Trindade do que sobre economia política. Como me dediquei durante muito tempo à antropologia filosófica meditei muito sobre a complexidade do ser humano, que, como dizia Pascal, mora ali algures entre o nada e o infinito. O ser humano é carente, por isso quer tudo. Há os que trabalham, os que não querem trabalhar, os que se encostam ao Estado, há os ladrões, há os corruptos, há os que têm iniciativa – e aqui tenho de louvar os empresários, que reclamam o justo lucro, porque se expõem, criam emprego – e por outro lado há efetivamente quem não quer trabalhar e há quem é explorado. Portanto a realidade é tão complexa e tão difícil que me admira como é que há quem se bata tão veementemente, e se exponha às vezes até ao ridículo, para conquistar um lugar na política. O Papa Francisco diz que o exercício político é uma das maiores expressões da caridade mas, para isso acontecer, eu diria que é preciso quase ser santo. 

E o que vê na classe política portuguesa?
Penso que está numa situação muito complicada bem como o futuro do país. Os políticos deveriam meter na cabeça e no coração que se metem na política para o serviço público. Vão para a política para servir de forma inteligente e da melhor maneira e não para defender interesses de determinadas camadas, interesses político-partidários. O poder político tem de ser exercido para o bem público e é isso que sinceramente nem sempre vejo em todos os que exercem a política e se metem pela política. Digo isto mas na Igreja no exercício do poder é o que se vê... O Papa Francisco queixa-se da cúria, já disse que é mais difícil reformar a cúria do que limpar as esfinge do Egito com uma escova de dentes. Portanto quem se mete pela política tem que ir numa gigantesca atitude de santidade, que é o serviço público, e esse é um caminho difícil.

Que desejos leva para 2022?
Que acabasse esta pandemia para a gente se poder encontrar presencialmente. É um desejo enorme que tenho. Desejava que as pessoas todas parassem um pouco, que entrássemos num novo paradigma em que se desse o primado ao ser e não ao ter. Que haja tempo para pensar! Gostava que a Igreja católica se renovasse e seguisse o Evangelho, que, como repito sempre, é a melhor notícia. E que pudesse contribuir, no meio deste nosso mundo tão ameaçado, em união com as outras igrejas cristãs, para o futuro do mundo e da Humanidade, que se confronta com perigos eminentes e gigantescos. Que acabem as guerras, causa maior da infelicidade de multidões de desgraçados. Quanto aos migrantes e refugiados, é preciso ajudar a resolver os problemas nas suas causas. E deixe-me desejar um bom Natal a todos. Para um crente, o Natal é a palavra definitiva que Deus dirige a cada homem, a cada mulher, a cada jovem, a cada criança: amo-te. É a melhor palavra que a gente pode ouvir. Jesus é essa palavra de Deus para a Humanidade toda.

Li há dias uma passagem de Luigi Giussani num cartaz de Natal: ‘Quando João e André encontraram Cristo, não compreendiam o além, o que queria dizer o paraíso, mas tinham ali uma coisa que era como um paraíso, um pedaço de paraíso: era um pedaço de Outra coisa. Está já, é um presente. Por isso a fé é acolher, reconhecer um presente’. É assim a fé?
Acolher um presente. Fé significa confiança. A nossa vida está baseada na confiança. Se cada homem pudesse confiar em todos os outros homens, se cada mulher pudesse confiar em todas as mulheres, este era um mundo finalmente aberto mas para isso tem de haver razões para a confiança, vontade. Hoje vivemos muito na desconfiança, desconfiança do que o futuro pode trazer, dos outros, dos que fogem de lugares onde há guerra, onde não há confiança. A fé faz-nos falta a todos e, no sentido religioso, é acolher esse presente que Deus dá, Jesus, a humanidade de Deus. 

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