Pátio das Cantigas

O inverno da Justiça...

A verdade é que, ao contrário de Ricardo Salgado – outro ex-banqueiro a contas com a Justiça –, Rendeiro precipitou-se e, em vez de escolher a Sardenha ou a Suíça de férias, foi parar misteriosamente a Durban, e desatou a gabar-se desse feito, em directo nas televisões, alegando que se tratava de um «acto de legítima defesa contra uma Justiça injusta».


Em vésperas de Natal e em plena quadra festiva que se prolonga até às despedidas do ano, os jornais costumam desesperar com a falta de assunto e as televisões não menos.

Não é agora o caso. Apesar da pandemia estar novamente em crescendo e o SNS aflito com as suas mazelas crónicas, sobram as alternativas noticiosas e há fartura de temas, que rivalizam com a rotina das listas diárias de milhares de novos infectados com as variantes do covid.

Coube à Justiça voltar a ser o epicentro de todas as atenções, desde a fuga e detenção de João Rendeiro na África do Sul, até à detenção domiciliária do ex-ministro Manuel Pinho, vergado a uma caução multimilionária que, alegadamente, não pode pagar.

O juiz Carlos Alexandre goza da fama de ter ‘mão pesada’, ao contrário do seu colega Ivo Rosa, cuja popularidade se tem consolidado entre os arguidos, ao ponto de Pinho confessar ao Expresso que critérios tão antagónicos são «uma Justiça totoloto»…

Os media têm-se desdobrado no seu afã, e, mau grado as dificuldades financeiras de que se queixam, não haverá memória de tantos jornalistas portugueses ‘enviados especiais’ à África do Sul, nem quando ocorreu a histórica libertação de Mandela...

Se a visibilidade mediática está garantida, sempre que a Judiciária ou o Ministério Público se afoitam na ‘caça grossa’ com nome na praça, imagine-se o ‘suplemento de alma’ quando se trata de um enredo invulgar, com o picante de ser um ex-vip já condenado, foragido à Justiça.  A repercussão está garantida. 

Por isso, no caso de Rendeiro, deu nas vistas o esforço do director da PJ, Luís Naves, ao circular de estúdio em estúdio televisivo, a louvar-se e a louvar a eficiência das polícias sul africanas, bem como a pronta resposta de advogados ‘especialistas’, ao atropelarem-se para comentar as atribulações de um ex-banqueiro capturado em pijama. Uma indignidade, note-se. 

Foi uma humilhação pela qual não passou a autarca socialista Fátima Felgueiras, quando regressou do Brasil, em 2005, onde se refugiara após uma fuga rocambolesca nas barbas da Justiça, que deu muito que falar à época. E nem sequer comparável com a de Sócrates, ao ser detido à chegada ao aeroporto de Lisboa, em novembro de 2014. 
A fuga de um arguido com notoriedade pública tornou-se, aliás, uma proeza mediática. Rendeiro limitou-se, afinal, a seguir os ensinamentos de Pedro Caldeira, do padre Frederico ou de Vale e Azevedo – além da ex-autarca de Felgueiras –, imitando-os ao tentar a sua sorte. 

Bem poderá lastimar o destino madrasto, atirado para uma cela despida de confortos, quando se sabe de suspeitos  por não poucas malfeitorias, que continuam a somar expedientes processuais e a viver tranquilamente dos rendimentos.

A verdade é que, ao contrário de Ricardo Salgado – outro ex-banqueiro a contas com a Justiça –, Rendeiro precipitou-se e, em vez de escolher a Sardenha ou a Suíça de férias, foi parar misteriosamente a Durban, e desatou a gabar-se desse feito, em directo nas televisões, alegando que se tratava de um «acto de legítima defesa contra uma Justiça injusta».

Não aprendeu nada com o sarilho em que se meteu Joe Berardo – constituído arguido juntamente com um respeitável elenco de gente ligada à Banca – quando, um dia, ao ser ouvido numa comissão parlamentar de inquérito, resolveu gozar os deputados, com sobranceria displicente, mas saiu-se mal.

Mais comedido desde que o juiz Ivo Rosa o isentou da maioria dos crimes de que era acusado, José Sócrates simula estar retirado, mas não perde pitada de tudo o que agita os media, e insiste em assinar ‘artigos de opinião’, que desaguam, invariavelmente, na Operação Marquês e na defesa própria perante a ‘vergonha’ da Justiça de que se diz vítima. 

O que ninguém pergunta a Sócrates – talvez com medo de uma resposta intempestiva, como esboçou numa entrevista já longínqua à RTP – é sobre a origem do amparo financeiro que lhe permite   suportar as despesas processuais (perdeu mais um recurso no Constitucional e vai a julgamento) e pagar a advogados de elite, contrariando a sua frequente ‘oração de pobreza’.  
Mas isso são contas de outro rosário, onde Sócrates não está sozinho. 

A realidade é que continuamos a assistir no PS à repescagem de indefetíveis ‘socráticos’ para o governo, e para as listas de candidatos a deputados, como se fossem de uma inocência imaculada, ansiosos por servir a grei…
E só isso explica que se fale em Edite Estrela – uma das mais devotas apoiantes de Sócrates –, para ser candidata a presidente da Assembleia da República, se o PS ganhar as próximas eleições. 

Depois do desastre que foi Ferro Rodrigues, só faltava mesmo Edite Estrela ser eleita para segunda figura do Estado. Um susto. 

Afinal, a influência de Sócrates continua a ‘dar cartas’ no PS de António Costa. Quem diria…

Os comentários estão desactivados.