Cultura

Adam Zamoyski: "Napoleão foi inseguro até ao fim, tinha medo que deixassem de o respeitar"

Foi em grande parte por causa dos complexos de ser pequeno e ter nascido na Córsega que Napoleão viria a tornar-se um dos homens mais adorados e temidos da História, defende o seu biógrafo. A sua insegurança levou-o a preparar-se para ser melhor do que os outros, mas também precipitou o seu fim.


Nasceu em 1949 em Nova Iorque, para onde os pais, o conde Stefan e a princesa Elizabeth Zamoyski, se tinham mudado dez anos antes para escapar à ocupação nazi da Polónia. Depois, a família instalou-se em Inglaterra e Adam Zamoyski estudou história e literatura em Oxford. O que aprendeu então, assegura, foi-lhe muito útil para escrever a biografia Napoleão – O homem por trás do mito, recentemente publicada em Portugal pela Crítica. O autor conversou com o Nascer do SOL a partir da sua casa de campo em Wysocko, no Leste da Polónia, onde os Zamoyski detêm vastas propriedades.

O facto de ter nascido na Córsega, e não na França metropolitana, influenciou o percurso de Napoleão?

Sem dúvida. A Córsega era um sítio muito, muito atrasado, não tinha nada a ver com o resto da Europa. Quando ele, aos nove anos, foi para para a Academia Militar em França apercebeu-se de imediato que era alguém vindo das colónias e era olhado com desdém. Isso reforçou outros complexos – de ser pequeno, de ser fisicamente diferente, de não saber falar francês corretamente. Embora tecnicamente ele fosse nobre e alguns dos nobres na Academia Militar não pertencessem propriamente à grande aristocracia, faziam-no sentir-se diminuído. Isto espicaçou-o e levou-o a ripostar com tudo o que tinha, que era a sua cabeça.

A turbulência em que Paris estava mergulhada por causa da revolução, quando Napoleão tinha vinte, vinte e poucos anos, fê-lo convencer-se de que França precisava de um líder forte, e esse líder forte podia ser ele?

Sim. Napoleão não era um grande desportista, um grande amante ou um grande aristocrata, mas era muito esperto. Sabia que tinha de se impor pelas suas qualidades, e por isso leu, leu, leu. Leu todos os textos do Iluminismo e olhou em seu redor e viu que a França do Antigo Regime estava organizada de uma forma absurda, que em grande medida não tinha mudado desde a Idade Média. Entretanto deu-se a Revolução e ele pensou que era fantástico, porque a França sofreria a modernização e a reorganização de que precisava. Só que, em vez disso, ele olha para as pessoas que formam a Assembleia Nacional e a Convenção, e eles falam, falam, falam, depois discutem, depois falam ainda mais um pouco, e nada se resolve. É um caos. Ele já antes se ia apercebendo de que conseguia fazer as coisas melhor do que os outros. Por exemplo, era muito apreciado pelo comandante do seu regimento porque dava sugestões sobre onde colocar os canhões e coisas desse género. E muito cedo, em meados da década de 1790, percebe que é capaz, melhor do que qualquer outro, de reorganizar a França. França era o país mais populoso da Europa, tinha as taxas de literacia mais elevadas, tinha todos os museus e bibliotecas – em especial depois de ter invadido outros países –, arte e equipamentos científicos. Penso que a sua ideia era criar uma Europa moderna, maravilhosa, segundo o modelo francês, o seu modelo, e não tanto, como muitas vezes se julga, apenas mandar e ser um ditador. A ditadura era um meio, não um fim. Claro que depois, como tantas vezes acontece, se tornou um vício.

Um dos aspetos fulcrais para o sucesso de Napoleão – e mais tarde para o seu fracasso – parece ser a sua audácia e a sua autoconfiança. Mas estava a dizer-me que no início ele sofria de vários complexos. Houve um momento em que se deu uma mudança na sua personalidade?

Não, ele foi inseguro até ao fim. Mesmo em 1813, depois do desastre da Rússia, foi-lhe repetidamente proposta a paz. Metternich, o chanceler austríaco, estava desesperado por mantê-lo no trono de França, porque queria que a Áustria tivesse um aliado no contrapeso à influência russa. Ele e outros insistiram com Napoleão: ‘Aceite a paz agora’ – em termos ligeiramente humilhantes, é verdade, porque teria de devolver alguns dos territórios conquistados. Os amigos diziam-lhe: ‘Daqui a dois, três anos, quando os exércitos tiverem sido desmobilizados, e a tua posição estiver consolidada, podes atacar e conquistá-los de novo’. E ele simplesmente recusou a paz porque tinha medo de voltar a Paris depois de perder uma guerra. 

Tinha medo de quê?

Achava que ninguém o respeitaria – o que não era verdade. A sua insegurança era extraordinária. E piorou. Esse foi o seu grande ponto fraco, o seu calcanhar de Aquiles.

O seu sentimento de inferioridade levava-o a querer estar sempre em vantagem, caso contrário sentia-se vulnerável?

Sim, achava que se não fosse cada vez mais poderoso as pessoas perdiam-lhe o respeito.

Mais de 200 anos depois, a campanha no Egipto continua a fascinar-nos. O facto de muitas vezes nos esquecermos de que foi um insucesso militar deve-se à propaganda feita por Napoleão no regresso a França?

Justamente. Quando chegou a França contou mentiras terríveis e transformou as suas vitórias, que não tinham sido especialmente notáveis – como a da Batalha das Pirâmides – em coisas absolutamente épicas. Mentiu sobre os seus insucessos, como o cerco de Acre. Mas não nos esqueçamos de que foi ele que revelou o Antigo Egipto à Europa. Nunca ninguém antes se tinha dado ao trabalho de olhar para lá do horizonte da Grécia clássica. E não se tratou de chegar ao Egipto e constatar: ‘Há aqui umas pirâmides’. Não. Antes de partir – e foi por isso que quis levar consigo os savants [uma comitiva de cerca de 160 civis, entre estudiosos e cientistas]– ele disse: ‘Sabemos tudo sobre a Roma Antiga e a Grécia Antiga mas não sabemos nada sobre o Egipto Antigo, que é a fonte de tudo’. Nisso foi visionário. Levou consigo estas pessoas e revelou à Europa uma civilização inteira. Se não tivesse havido essa expedição, quem mais teria ido ao Egipto? Talvez em 1840, 50 ou 60 outros cientistas e arqueólogos tivessem ido, mas provavelmente acabariam mortos pelos habitantes locais.

Ter um exército por trás ajudava?

Foi isso que permitiu a estes savants fazerem desenhos à vontade sem serem assassinados. Portanto Napoleão abriu o caminho e depois embrulhou tudo em contornos épicos. Tudo isso cativou a imaginação dos franceses. E depois, claro, os britânicos foram para o Egipto para o roubar aos franceses, deram seguimento às explorações e também eles ficaram fascinados.

Napoleão também enriqueceu enormemente as coleções do Louvre com as suas pilhagens – em Itália, por exemplo, de onde trouxe As Bodas de Caná, de Veronese, que é a maior e uma das mais famosas pinturas do museu. Era um apreciador de arte?

O seu gosto era curioso. Sabia apreciar uma boa pintura. Mas não diria que era um grande amante de arte. É preciso dizer que a ideia de deslocar todas essas obras não partiu dele, veio do Diretório e de largos setores da sociedade, que achavam que com a Revolução França era a nova Roma, a fonte cuja sabedoria ia derramar-se por todo mundo e iniciar uma era gloriosa. Napoleão aderiu a esta ideologia e foi implacável a pô-la em prática, o que também tem que ver com a rejeição das suas raízes corsas e italianas. Embora não fosse chauvinista por natureza – não desprezava os alemães, os polacos, os russos, os espanhóis ou os portugueses – fazia comentários muito depreciativos sobre os italianos. E penso que sentia que era perfeitamente legítimo tirar-lhes esses bens porque eles também não lhes davam valor. E havia alguma verdade nisso, porque muitas das coisas que ele saqueou estavam a cair aos bocados. Os franceses tinham técnicas de conservação e restauro que mais ninguém tinha, portanto uma boa parte dessas obras de arte ter-se-iam perdido se não tivessem sido levadas para Paris. Trata-se de um assunto altamente equívoco: por um lado, abominamos a ideia de pilhar arte, em especial quando foi feita para um sítio particular, como uma igreja. Mas na época havia uma quantidade de razões lógicas e aparentemente boas para o fazer.

Júlio César, uma das figuras que mais inspiraram Napoleão, acabou por ser esfaqueado até à morte por republicanos convictos que temiam que se tornasse ditador. Napoleão não tinha receio que lhe acontecesse o mesmo?

Curiosamente ele permaneceu excecionalmente indiferente às tentativas de assassínio. Costumava andar com muito pouca proteção. Quando lhe diziam para aumentar a sua guarda pessoal, respondia: ‘O vosso trabalho é descobrir as ameaças e impedi-las, o meu é fazer aquilo que tenho para fazer’. E encarava isso com muita descontração. Até que, de repente, se apercebeu da conspiração do general Pichegru. Soube que tinham vindo pessoas de Inglaterra e que tinham começado a reunir-se, e viu que havia perigo. Também sabia que estavam a conspirar com o general Moreau e estava ciente de que muitos em França, inclusive no Exército, gostariam de o derrubar. Foi um período estranho em que se tornou muito assustadiço. Ultrapassada essa conspiração, voltou a ser muito pouco cauteloso, as pessoas podiam aproximar-se, como aconteceu no palácio de Schönbrunn [Viena, durante uma parada com público a assistir, em 1809], quando um homem chegou muito perto dele com uma faca escondida no casaco. Foi uma questão de sorte. Tirando essa altura específica em que se foi abaixo, não receava acabar como Júlio César. E penso que foi em parte por isso que se tornou imperador. Sentia – e penso que com razão – que os franceses o aceitariam. Não era do interesse de ninguém assassiná-lo, a não ser dos britânicos, claro, mas aí as conspirações começaram a cair. 

Parece-nos uma enorme contradição que uma revolução que quis acabar com a monarquia e com os privilégios do rei e da sua corte acabasse por coroar um imperador…

Sim, é uma ironia. Em certo sentido foi um grande erro. Penso que foi Cambacérès que fez esse remoque: ‘Como primeiro-cônsul sois perfeitamente fiel a tudo o que vos propusestes e a vós próprios. Se vos tornardes monarca, encontrar-vos-eis em contradição convosco’. Acreditaram que se houvesse uma cabeça coroada em França, isso acalmaria as outras cabeças coroadas na Europa. E também havia a questão da continuidade, da sucessão. Depois a vaidade também teve o seu peso. A ideia inicial era que não se tornava Rei, tornava-se Imperador da República Francesa, como um imperador romano. O imperador romano não tinha uma família real e uma corte, o estilo era muito diferente. Mas se a lógica era acalmar as outras monarquias europeias, então ele teria de criar uma corte e de se tornar cada vez mais parecido com os outros monarcas. Começaram a emergir contradições de todo o tipo, a vaidade também interferiu, Napoleão queria que tudo fosse feito como deve ser, desnorteou-se, tornou-se mais parecido com um monarca do Antigo Regime do que qualquer outro. No final passava mais tempo na corte do que Luís XVI e tornou-se uma versão moderna de Luís XIV [o todo-poderoso Rei-Sol que mandou erguer Versalhes e ali instalou a sua corte]. A situação transformou-se numa espécie de farsa, em especial quando começou a vestir-se com os fatos ridículos que criou para si próprio. 

Vemos Napoleão como um brilhante líder militar, como um organizador nato. Mas Goethe, uma das mentes mais brilhantes da época, ficou rendido após um encontro com ele em que falaram de literatura. Será exagerado dizer que, além de um homem de ação, Napoleão também era um pouco intelectual?

Não lhe chamaria intelectual, mas era seguramente alguém sedento de conhecimento. Se surgia um novo tema ou uma nova ideia ele ia ler sobre isso, para tentar chegar ao fundo da questão. Nesse sentido podemos considerá-lo um intelectual, embora eu veja mais os intelectuais como pessoas com mentes especulativas, que debatem ideias e as usam para se desenvolverem a si próprios e aos seus intelectos. Não me parece que Napoleão fosse assim. Era mais o seu instinto que controlava tudo. Identificava um campo de conhecimento, ou de investigação, e tentava descobrir tudo o que pudesse. Mais uma vez acho que isto decorria da sua insegurança: queria garantir que não havia área do conhecimento que ele não dominasse. Adorava sentar-se com matemáticos a discutir álgebra, por exemplo, e de os impressionar com os seus conhecimentos.

Ficou famoso o seu insulto a Talleyrand: «Não passais de um monte de merda em meias de seda!». Napoleão podia ser desagradável e malcriado?

Extremamente mal criado, até com as mulheres. Nomeadamente quando se sentia gauche, quando se sentia pouco à vontade. Nessa ocasião, sentiu que Talleyrand já o estava a trair, o que ainda não era o caso, embora Talleyrand já estivesse a distanciar-se, e teve uma fúria, porque precisava dele. Quando perdia a cabeça Napoleão podia ser horrível – e também ridículo.

Há uns anos li uma edição d’O Príncipe de Maquiavel comentada por Napoleão, e impressionou-me o cinismo dos comentários. Mas há outras situações em que nos parece uma pessoa preocupada, atenta, generosa. Qual deles era o verdadeiro Napoleão?

Penso que se tornou cínico. Começou por ser bastante ingénuo, e de certa forma até idealista. Mas rapidamente se tornou cínico. E quanto mais lidava com pessoas, mais se…

Desiludia?

Considerava todos uns farsantes, e acabou por perder a fé na natureza humana. O que é difícil não acontecer quando se está numa posição de grande poder.

Parece-me curioso que a grande derrota de Napoleão não tenha sido no campo de batalha, mas quando chegou a Moscovo e os russos tinham deixado a cidade e destruído os mantimentos. Podemos ver o abandono de Moscovo como uma inteligente jogada de xadrez?

Mais do que como uma jogada de xadrez inteligente, vejo-o como uma necessidade, que acabou por revelar-se uma dádiva divina. O Exército russo estava a escavar trincheiras para fazer uma última tentativa para defender o que restava da cidade. E se o tivesse feito, teria simplesmente desaparecido. Kutuzov, que não era de modo algum um bom general – e que temeu Napoleão até ao fim – percebeu que resistir seria um completo desastre. Precisava de fugir. Como ele próprio disse, abandonar Moscovo funcionaria ‘como uma esponja’. Iria colocar o seu exército, do qual restava só um esqueleto, e na verdade um esqueleto muito frágil, fora de perigo. Mas tivesse Napoleão assumido um mínimo de iniciativa, e não teria feito qualquer diferença. Podia ter ocupado Moscovo na mesma, descansado as tropas por alguns dias, levado o que precisava. Se mandasse um ou dois corpos do exército para perseguir Kutuzov, Kutuzov não teria conseguido montar o acampamento em Tarutino e passar as cinco semanas seguintes a reconstruir o exército de forma bastante tranquila. Acabou por revelar-se a manobra certa, mas apenas porque Napoleão agiu de uma forma absolutamente idiota. Foi ajudado pelo facto de Rostopchin [governador de Moscovo e avô da Condessa de Ségur] ter mandado queimar Moscovo, o que teve um efeito desmoralizador. E reduziu o valor de possuir Moscovo – que era muito valor, mas enfim. Napoleão ficou em Moscovo à espera, não sabia o que fazer. Omelhor teria sido perseguir Kutuzov, mas não o fez. O desfecho foi inteiramente culpa de Napoleão.

Então ele tinha razão ao recriminar-se por não ter deixado Moscovo duas semanas antes.

Sim, cada dia a mais na cidade custou-lhe caro. Se tivesse partido uma ou duas semanas antes, a retirada de Moscovo não teria sido o desastre que foi. Sim, teria perdido alguns homens, mas teria um exército em perfeitas condições que os russos nunca conseguiriam derrotar. Poderia ter passado o inverno instalado na Polónia, e os russos não teriam invadido a Alemanha. Napoleão tinha promovido subliminarmente através da sua propaganda a ideia de que tinha o apoio da Providência. Costumava chamar a isso ‘mon étoile’, a minha estrela. Tinha tido uma sorte extraordinária. A campanha do Egito, por exemplo, tinha corrido pessimamente e quando ele regressa a Paris é aclamado como estadista. Por mais de uma vez situações desfavoráveis acabaram por virar a seu favor e ele tinha acabado por convencer-se de que era protegido pelo destino. Quando está quieto em Moscovo, tudo lhe diz que Alexandre [o czar russo] não vai negociar. Mesmo assim ele insiste, mostra a sua fragilidade enviando cada vez mais enviados que suplicam a Alexandre para negociar, mostrando a sua fraqueza. Acreditava que ia aparecer alguma coisa e tudo se resolveria. Foi por isso que ficou ali à espera. Ele tinha milhares de soldados de cavalaria sem cavalos. Podia mandá-los para trás para irem buscar cavalos aos armazéns na Polónia e na Alemanha. Tinha uma quantidade enorme de homens com ferimentos ligeiros. Podia tê-los mandado para trás para se restabelecerem. Tinha canhões de que não precisava e que podia ter mandado de volta. Mas queria mostrar que estava lá para ficar, achando que Alexandre acabaria por quebrar. O grande erro foi esse. E tentar derrotar a Rússia, porque a Rússia, estrategicamente, é impossível de derrotar. Em qualquer outro Estado europeu, se ocuparmos a capital e o seu principal centro administrativo, ele paralisa e tem de se render. Na Rússia, o centro administrativo era S. Petersburgo. Por isso o Estado russo continuou a funcionar na perfeição. Ele avaliou tudo mal desde o princípio, mesmo assim podia ter saído com uma vitória, se não tivesse sido esta teimosia. Este homem, que tinha um raciocínio lógico, que via as coisas com clareza, que sabia avaliar as pessoas, de repente ficou paralisado, hipnotizado.

Não é certo quantos homens tinha o exército que invadiu a Rússia, há quem fale em perto de 600 mil, outros em cerca de metade disso. Em todo o caso as estimativas são de que perdeu qualquer coisa como nove em cada dez homens, e que só regressaram a França 40 ou 50 mil. Estas mortes não pesavam na consciência de Napoleão?

Acho que ele não era insensível, ou pelo menos mais insensível do que Wellington, Blücher, Kutuzov ou qualquer outro líder militar. Mas, chegado a esse ponto, estava tão determinado a varrer tudo para o lado que dizia: ‘Sofremos uma pequena contrariedade por causa do mau tempo, mas batemo-los em toda a linha’. Não queria confrontar-se com o que tinha acontecido. De um modo geral era muito sensível às perdas. Na campanha da Áustria de 1809, ficou horrorizado com a escala das perdas em Wagram e depois da batalha, quando os franceses estavam a perseguir o que restava do exército austríaco, ele travou-os: ‘Não, já foi derramado demasiado sangue’. O que foi um erro enorme, em termos militares, porque embora Wagram tenha sido uma grande carnificina, porque a coluna vertebral do exército austríaco sobreviveu e acabou por derrotá-lo em 1813 e 1814. Desse ponto de vista ele não era um monstro. Simplesmente, depois do desastre da Rússia, não quer confrontar-se com o resultado das suas decisões.

Depois de regressar da ilha de Elba [ao largo de Itália, para onde os ingleses o exilaram após a sua deposição] e reconquistar o poder, rapidamente voltou a declarar guerra aos seus inimigos. Isto deve-se a não saber governar em paz, ou foi forçado a isso?

Um historiador não deve especular demasiado, mas tudo me leva a crer que ele ficaria perfeitamente satisfeito em França com a mulher e o filho. Estava cansado, em muitas alturas sofria com variados achaques, não ansiava pela guerra. Se os aliados lhe tivessem devolvido a mulher [a arquiduquesa Maria Luísa, filha de Francisco I da Áustria, com quem casou em 1810, e que depois acabou por ser enviada para junto da família em Viena, onde ficou retida] e o filho [‘Rei de Roma’], penso que ele provavelmente teria mantido a paz. Quando ele chega à ilha de Elba tem uma sensação de alívio. Se o tivessem deixado em Elba e lhe entregassem o dinheiro que estava prometido, os Bourbons [dinastia reinante em França] não enviassem assassinos e não houvesse a decisão, de que ele tomou conhecimento, de que o iriam enviar para Santa Helena [pequena ilha britânica no Atlântico, quase equidistante de África e do Brasil], penso que ele teria ficado em Elba. E se em 1815 os aliados o tivessem deixado ficar em França não o imagino a iniciar outra campanha militar.

O seu livro tem mais de 700 páginas, das quais apenas 50 são dedicadas ao período entre a abdicação em 1814 e a morte em Santa Helena. Isso significa que a ascensão de Napoleão foi rápida, mas a sua queda foi ainda mais rápida?

Não. O que acontece é que a ascensão é mais difícil de explicar do que a queda. E por isso temos de lhe dedicar mais espaço. A queda é muito simples, já antes começa a perceber-se que tudo está a correr mal. A descrição da sua vida em Santa Helena é uma história fascinante, muito humana, muito triste – mas precisaria de outro livro. A minha intenção foi explicar quem era Napoleão, de onde veio, como chegou onde chegou, e por que caiu do poder.

Houve anos em que Napoleão escreveu três mil cartas. Além disso, há incontáveis testemunhos da época. Nalgumas alturas, é possível acompanhar a sua vida dia a dia. E depois temos todos os estudos, biografias, etc. Como lidou com esse enorme caudal de informação? Como escolheu o que interessava e o que não interessava?

Obviamente não tem de se ler as cartas uma a uma. Tenho aqui, atrás de mim, todas as que foram publicadas. É muito interessante folhear, ler algumas, umas vezes são sobre logística militar, outras vezes sobre abastecimentos de material médico, outras vezes sobre novos edifícios, outras sobre as colheitas – isso dá-nos uma ideia do homem. A maioria das biografias percebo ao fim de poucas páginas que não me interessam minimamente, porque [mostra-se quase impaciente]... são demasiado polémicas. Querem à partida provar alguma coisa. E geralmente percebem-se logo os preconceitos do biógrafo. Se é inglês, começa com a ideia de que Napoleão é um monstro – à exceção de Andrew Roberts, que tenta fazer dele um homem que nunca se engana. Os franceses, de um modo geral, não conseguem libertar-se de terem aprendido na escola que ‘Napoleão é Napoleão’. Não conseguem vê-lo como um homem. Temos de pensar que ele é um homem como os outros. Felizmente, há uma nova geração de historiadores franceses que estão a libertar-se desta bagagem cultural e têm reequacionado tudo, recuando às fontes primárias e dinamitando uma série de mitos. no meu caso, restringi-me a coisas que aparecem nas fontes e que podem ser verificadas, pus de parte tudo o que nos chegou em segunda mão. Mesmo que seja uma boa história, e até credível, optei por não a incluir. E depois há coisas completamente inúteis, como dizer que quando ele era miúdo gostava muito de brincar com um tambor ou com uma pequena espada. Seja ou não verdade, nada nos diz sobre o homem, é uma perda de espaço na página. Temos de ser muito rigorosos naquilo que escolhemos e atermo-nos só àquilo que pode ser factualmente demonstrado. Mas o mais importante foi – e nisso tive muita sorte – conhecer o ambiente cultural, porque Napoleão foi enormemente influenciado pela literatura francesa da época. Estudei essa área aprofundadamente em Oxford, e isso permitiu-me acompanhar e compreender os seus processos mentais.

Além de conhecer essas fontes, e das leituras e estudos, também fez viagens para conhecer seja museus, seja campos de batalha, por exemplo?

Não. Estive em Elba há muitos, muitos anos, desde a infância que conheço Paris, conheço muitas partes de França, já estive em Moscovo, em Madrid, em Lisboa, em Roma, em Nápoles, em Viena… Os campos de batalha têm interesse quando foram preservados, como o de Austerlitz. Mas na maioria dos casos construíram edifícios, as coisas mudaram muito. O problema da história militar é que na maioria das batalhas é impossível saber o que se passou exatamente. Apenas se consegue ter uma imagem muito geral. Naquela época, se alguém disparava um mosquete, fazia uma nuvem de fumo à volta. E havia milhares de mosquetes a disparar, para não falar dos canhões. Além disso, as pessoas não tinham relógios. É engraçado, porque os relatos muito pormenorizados de Waterloo se baseiam em testemunhos contraditórios, que dependem de quem esteve onde e quando. E ainda não é muito claro o que aconteceu. O que é claro é que Blücher voltou, apanhou o flanco de Napoleão e cortou-lhe a retirada, o que resultou numa derrota estrondosa. Uma coisa que fiz quando estava a investigar para o meu livro sobre 1812 foi fazer a viagem de carro. Por diversão, mas também por curiosidade. Os relatos dizem todos que quando atravessaram para a atual Bielorrússia, todos os soldados pensaram que estavam a ir para lado nenhum. E mesmo hoje – ou há vinte anos quando fiz esse trajeto – anda-se quilómetros e quilómetros e não há aldeias. Até lá, na Polónia, por exemplo, apesar de tudo há aldeias e quintas. Na Bielorrússia há um espaço vazio gigantesco. Onde fiquei fascinado foi na travessia do [rio] Berezina. Está tudo exatamente igual e consegue perceber-se o feito extraordinário que foi fazer com que o exército atravessasse o rio naquelas circunstâncias. Também fui a Ajaccio, na Córsega, e confirmei a ideia que tinha. É um sítio horrível, minúsculo e claustrofóbico.

O facto de ter nascido numa família nobre polaca tem alguma coisa que ver com o seu interesse por Napoleão?

Nem por isso. É uma grande vantagem ter crescido com diferentes culturas, com um forte sentido da velha Europa, porque a minha família tem ligações à Alemanha, Áustria, Espanha e até Portugal. E isso permitiu-me também perceber como era a Europa que Napoleão estava a desestabilizar.

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