Opiniao

Umas eleições sob o Covid, uma Educação a inovar e uma TAP a reinventar

Infelizmente, nos últimos anos, temos constatado uma clara deterioração da qualidade do ensino público, medida por rankings discutíveis, mas que constituem a única fonte de informação comparativa face ao ensino privado (absolutamente credível, dado o exame ser igual para ambos).


1. No rescaldo do Congresso do PSD, podemos afirmar com alguma segurança que, se Rio ganhou as diretas, o Partido continua bem dividido, dada a eleição de Paulo Colaço para Presidente do Conselho Jurisdicional e, sobretudo, porque o Conselho Nacional ficou uma mescla de tendências. No entanto, Rio saiu de Santa Maria da Feira com a certeza de que até às legislativas de 30 de janeiro irá ter um PSD bem unido, não só pelas juras de fidelidade dos seus principais opositores, mas sobretudo porque as prometedoras sondagens ora conhecidas serão a argamassa que irá unir todos os “laranjas” até àquela data.

No seu discurso de encerramento, muito bem estruturado e profundamente crítico da governação da Geringonça, Rio galvanizou as suas hostes. Nunca “abrindo o jogo” sobre os caminhos que defenderá se for Governo, foi certeiro nas críticas que fez nas diversas áreas, sobretudo impiedosas na Educação e Saúde. Tanto assim foi que José Luis Carneiro (PS), quando entrevistado à saída do Congresso onde estivera como convidado, sentindo o perigo e eficácia destes ataques e que Rio tinha “marcado pontos”, saiu de imediato à liça numa estratégia que o PS acredita que lhe renderá votos, ou seja, encostando o PSD ao Chega.

Veremos como os eleitores irão reagir nas próximas semanas a estes e outros discursos de campanha que irão endurecendo à medida que a data se aproximar. PS e PSD disputam a grande massa dos votantes “ao centro” e, simultaneamente, ambos tentarão demonstrar a inutilidade dos votos nos restantes partidos. 

Pelo meio, a atrapalhar os cálculos de todos os políticos, o Covid entrou na 4ª vaga e, indiretamente, nas eleições. As fortíssimas medidas restritivas que o Governo do PS já anunciou e as que poderá anunciar nas próximas semanas, poderão causar estragos violentos na Economia e as consequências para todos os partidos serão imprevisíveis. 
Para já, o Governo (e o PS), temendo um mês de janeiro infernal, vai-se desdobrando em comunicações tentando minimizar qualquer impacto nas eleições. O PSD de Rio que em matérias de Covid sempre manifestou excessiva condescendência ao considerar que a luta é comum, continua a resguardar-se nestas matérias, por enquanto. Mas todos sabem que, na hora de votar, a resposta (ou falta dela) à Covid, poderá ser determinante no resultado final.

2. A Educação em Portugal continua a inovar. Desta vez, anuncia-se no Secundário a possibilidade de os alunos escolherem as disciplinas que querem estudar. Por enquanto, em turmas-piloto, quiçá no futuro, uma generalização à esfera nacional.

Infelizmente, nos últimos anos, temos constatado uma clara deterioração da qualidade do ensino público, medida por rankings discutíveis, mas que constituem a única fonte de informação comparativa face ao ensino privado (absolutamente credível, dado o exame ser igual para ambos). Por muito que se afirme que as realidades são incomparáveis porque as respetivas sociologias são diferentes, a verdade é que sempre assim foi e a qualidade medida do ensino público já esteve bem melhor.

Com mais esta inovação receio bem que, a prazo, a qualidade média do ensino público ainda se agrave mais. Ou seja, por muito bem-intencionados que sejam os autores destas alterações de percurso estudantil, existe a forte probabilidade da existência de uma fuga generalizada dos alunos às dificuldades de determinadas disciplinas, como a matemática ou físico-química, perante a complacência das direções de escolas (até me arrepio a pensar na escassez futura de certos quadros como por exemplo engenheiros, dada a importância primordial damatemática…).
 
Mal comparado, faz lembrar os doentes que fazem auto-prescrições à revelia médica! Veremos as consequências futuras de mais estas liberdades originais, mas receio fortemente que se traduzam em facilitismos perniciosos para a Sociedade, porque, infelizmente, as alternativas existentes (os estudos no setor privado) não são acessíveis para a maioria da população e, no longo prazo, agravar-se-ão as diferenças sociais.

3. Com um custo estimado de cerca de Eur 3,7 MM para os contribuintes portugueses, a TAP sobreviveu e Pedro Nuno Santos (PNS) veio legitimamente vangloriar-se porque sempre defendeu e acreditou na sua viabilidade a longo prazo, ora confirmada por Vestager! Pelo caminho, as dolorosas reduções exigidas nos salários e quadros de pessoal, a alienação de participações, a separação da Portugalia e a sorte da exigência da cedência de apenas 18 slots. 
No entanto, mal se soube da decisão europeia, logo PNS veio admitir o óbvio: a possibilidade de integração num grupo de aviação (como sucedeu à Ibéria com a British Airways). Fica esta questão: para este fim, era necessário o contribuinte português ter financiado a TAP?

PS. Aleluia! O Banco de Portugal fez esta semana um alerta absolutamente pertinente que versou sobre: (i) a necessidade de se corrigirem as contas públicas (em dois ou três anos); e (ii) o risco do agravamento dos custos de financiamento de Portugal nos mercados internacionais, dada a persistência da subida da inflação. Salvé Governador Mário Centeno, longe vão os tempos de Ministro das Finanças!

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