Carta de Wall Street

Cancel Culture vs Cooperação

 Reduz-se a tolerância de opiniões diversas. Aumenta a tentação de se entrar em guerras de ódio com quem está do outro lado e ‘não vê o óbvio!’. Elimina-se o tempo, espaço e convite para ver o mundo do ponto de vista do outro.


Por Pedro Ramos

Nova Iorque, dezembro de 2021

United we stand, divided we fall
WWII USA Propaganda

A vida não examinada não vale a pena viver
Sócrates

Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir os outros, igualmente medirão a vós.
Jesus em Mateus, 7:1-2

Queridas Filhas,

Um dos maiores tesouros da vida é ter amigos. Amigos são aqueles que dizem presente nos momentos em que estamos mais vulneráveis, em que os nossos sonhos ou a nossa saúde nos falham. Aproximam-se, dão-nos a mão e ajudam-nos a andar para a frente. Não há dinheiro que pague isso. 

Dizem que se tivermos cinco amigos como os descritos acima temos muita sorte. Pessoalmente não tenho cinco, mas tenho mais do que um. Eu espero que vocês consigam ter mais do que eu.

As amizades nascem, crescem e por vezes decrescem ou morrem. Mas algumas sobrevivem crises e aprofundam-se com as dificuldades. 

Crescendo sem telemóveis, internet ou mesmo televisão de cabo, eu tive a sorte de passar muito tempo com amigos e colegas em lazer. Havia muito espaço de tempo e silencio para nos conhecermos bem. Naturalmente tínhamos muitas diferenças de opinião. Mas a troca de impressões, examinando as perspetivas de cada lado, ajudava a perceber melhor de onde vinham as perspetivas diferentes. 

Não era uma utopia. Havia discussões e muitas vezes pessoas zangavam-se. Prometíamos nunca mais falar uns com os outros. Mas com o tempo, com cabeças mais frias e com a convivência física forçada pelas nossas circunstâncias, encontrávamos forma de andar para a frente juntos na maioria dos casos.

Conto isto não para fazer uma apologia do regresso ao passado, mas para partilhar uma experiência que talvez esteja a escapar à vossa geração. Especialmente aqueles que não fazem parte de uma equipa grande, desportiva ou de outra atividade. 

Hoje em dia, muitos de nós socializam maioritariamente pela internet e telemóveis. Isso traz as vantagens óbvias de se poder falar com pessoas de todo o mundo e que estejam disponíveis no mesmo momento que nós. Este sistema facilita também encontrar um número elevado de pessoas que acreditam no mesmo que nós: por exemplo há um clube das pessoas que acreditam que a terra é plana. E têm mesmo encontros organizados!

A desvantagem é que se atrofiam os nossos músculos de reconhecer a humanidade de quem discorda de nós. Reduz-se a tolerância de opiniões diversas. Aumenta a tentação de se entrar em guerras de ódio com quem está do outro lado e ‘não vê o óbvio!’. Elimina-se o tempo, espaço e convite para ver o mundo do ponto de vista do outro.

O expoente máximo desta tendência é aquilo que se apelidou de ‘Cancel Culture’. Qualquer pessoa que tenha uma opinião que não concordo deve ser completamente ostracizada. Não só por mim, mas por todos. Muitos ativistas pressionam empresas e organizações para tomarem posições semelhantes. Ninguém escapa. Nem mesmo J. K. Rowling, a autora dos livros de Harry Potter. Por uma posição menos clara de apoio a quem acredita na ‘fluidez do género humano’ tem sido isolada e ostracizada.

Isto é trágico porque o que tem de bom a sociedade que herdamos foi assente num princípio exatamente oposto a esse. Não procurar pontos de fricção entre pessoas diferentes, mas celebrar os pontos comuns. O mundo ocidental criado na filosofia Judeo-cristã celebra isto, que foi eloquentemente expresso por Jesus Cristo no sermão da montanha na passagem transcrita acima.

Mas não foi só a filosofia e a Religião que nos deram este tesouro. O próprio comércio entre as nações, da qual Portugal foi um dos pioneiros também. Isto foi-me ensinado pelo saudoso historiador José Hermano Saraiva. Discursando num jantar de homens de negócios, ele começou por dizer a admiração que tinha pela nossa profissão. Disse que durante séculos os negócios entre nações e a prosperidade que criavam dos dois lados levou a que a paz se espalhasse. Por exemplo produtores de especiarias nas Índias queriam que ocidentais as comprassem. E as suas comunidades prosperavam com isso. Ninguém tinha interesse em conflitos.

Mas isso não fez os dois povos ser iguais. Continuaram muito diferentes, com opiniões, culturas e religiões diferentes. Mas encontraram algo em que ambos tinham interesses comuns e focaram-se nisso. Acarinharam essa descoberta. O movimento ‘Cancel Culture’ é o oposto disso. Podemos encontrar uma pessoa que concorda connosco em quase tudo. Mas se algo que eles discordam de nós nos ofende, é nisso que nos fixamos. Começam-se guerras e o objetivo é destruir a reputação do outro. 

O meu desejo é que em 2022 vamos ser mais como os descobridores. Descobrir o que temos em comum e não deixar que outras diferenças nos distraiam da nossa humanidade comum. Feliz Ano Novo!

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