Sociedade

Bem-haja 2021, sê bem-vindo 2022

365 dias serão sempre pouco tempo para tudo o que somos e pretendemos viver e fazer acontecer. Chega ao fim mais um ano repleto de desafios, sofrimentos, alegrias, conquistas e perdas. Como se sentem os jovens portugueses ao fecharem a porta de 2021, abrindo o ‘portal’ para 2022?


A passagem de ano é, quase sempre, um final de ciclo. Sentamo-nos a refletir, ‘viajamos’ até aos locais onde fomos felizes, relembramos o rosto daqueles que nos acompanharam e colocamos em retrospetiva todas as ambições, objetivos, desejos e expectativas outrora criadas. O que é que aconteceu? Onde estive? O que senti? De que maneira me sinto, de que forma vejo o meu trabalho? O que é que não aconteceu em 2021 que tem de se realizar em 2022? São muitas as perguntas que podem ser utilizadas para mergulhar numa reflexão interior, tão típica nesta altura do ano.

Uma coisa é certa: independentemente da experiência, não há nenhum ano igual ao outro. Não há ninguém igual a ninguém. E, se nos pudermos despedir deste ano com a plenitude de quem viveu e cresceu mais um bocadinho, se estivermos de peito aberto para receber o que aí vem, talvez seja meio caminho andado para que também 2022 nos receba com ‘um sorriso’. Quatro pessoas, várias profissões, diferentes histórias. Rafaela Jacinto, Marcos Soares, Maria Madalena e Daniela Rodrigues ‘abrem a porta’ das suas memórias e partilham aquilo que perspetivam para a criação de tantas outras que aí vêm. 

Rafaela Jacinto e a fé na Humanidade 

«No Canto IV do Purgatório de Dante Alighieri, existe uma personagem ‘menor’, considerada o pináculo da preguiça, da indolência e da generosidade de Deus ao ser salva do Inferno mesmo que a troco de alguns grunhidos – de seu nome Belacqua. Este nosso amigo que é encontrado no Ante-Purgatório, a cumprir um penoso tempo de espera, em posição fetal, junto a uma rocha, recusando-se a subir a montanha mas ainda assim salvo, faz-me transitar diretamente do ano 1300 para 2021, num estalar de dedos», começa por refletir Rafaela Jacinto, atriz, poetisa e estudante de mestrado em História e Cultura das Religiões, que deseja partilhar com o mundo uma Teologia Queer «que seja inclusiva» e não ter de se «desfazer em part-times» que a deixam «profundamente miserável» ainda que o trabalho lhe seja profícuo de certa forma, «para poder ter comida na mesa ao final do mês».

Em 2021, com 27 anos, a atriz regressou ao Bombarral, para voltar a viver com a sua mãe «na impossibilidade de pagar uma renda hiperbólica na cidade de Lisboa» onde viveu durante 10 anos. Rafaela admite que, esse acontecimento, a fez perder independência, ao mesmo tempo que terminava um relacionamento amoroso e «uns quantos de amizade».

«A minha saúde mental decaiu, mas comecei a respirar melhor com o ar do campo, a aproveitar o que a mudança das estações oferece em relação ao entendimento dos tempos do ser humano, a ser mais paciente e a cultivar um amor próprio que não abdico por nada nem ninguém deste mundo», contou. «Assim sendo, quem de nós, não se recusou a subir as montanhas-desafios de 2021 a braços com a precariedade laboral, injustiça social, ‘coisas’ próprias da pandemia?», interrogou.

A poetisa acabou por visitar Locarno, na Suíça, na sequência da estreia de um filme que protagonizou, criou e apresentou performances no espaço de semanas, escreveu e publicou o seu segundo livro, gravou dois programas de televisão, voltou a apaixonar-se, fez uma endoscopia, leu cerca de 40 livros, reforçou uma relação saudável com a sua família, deu entrevistas via Zoom, roubou laranjas e teve crises agudas de ansiedade, «um provável problema de coração para descobrir em 2022», revela. A sua fé na Humanidade, explica, «continua em estado de Purgatório».

«Não sei se amo se detesto, inclusive atualizei a minha biografia do Instagram para: ‘Persona non grata’», admitiu. Rafaela termina o ano «rica no campo das ideias e pobre financeiramente, a desejar o devido reconhecimento dos artistas em Portugal e o fim dos preconceitos do costume para 2022». «Não seremos nós Belacquas contemporâneos à espera de um 2022 emocionalmente disponível para nos dar colinho?», questiona. 

Um ano cheio de desafios profissionais 

Marcos Soares, consultor informático de 27 anos, relembra um 2021 marcado pelos desafios profissionais que o alimentaram e o fizeram superar-se sempre de alguma forma. «O ano 2021 teve obstáculos interessantes, principalmente no modo como se interage e comunica com os colegas e superiores», começou por afirmar, sublinhando que «o trabalho remoto veio para ficar na área de IT, o que traz bastantes vantagens assim como alguns inconvenientes».

No seu caso em particular, evidencia «a confiança que a empresa onde trabalha deposita nos colaboradores sem necessitar da supervisão constante do seu trabalho». «Este ano consolidou a ideia de que é possível entregar com qualidade sem a presença física constante dos colaboradores nos escritórios», frisa o consultor.

Em contrapartida, sente falta das pequenas interações sociais que existiam no escritório, dos eventos de teambuilding, da companhia para almoçar, ou meter a conversa em dia durante a pausa de 10 minutos, «que apesar de também ser possível remotamente, não é tão natural», revelou.

Marcos Soares considera o ano 2021 «um crescendo»: «Houve momentos monótonos, frustrações e conflitos, mas também houve lugar para crescer, arriscar e, no fundo, aprender», admite. «Entrei em 2021 com alguma apreensão, mas com novos desafios a surgirem perto do termo deste ano. Entrarei certamente em 2022 com a garra e a ambição que necessito para concretizar os meus objetivos e ser feliz», desejou.

O gosto em cuidar dos outros

«Este ano conseguiu ser ainda mais louco do que o ano passado», afirma Maria Madalena, terapeuta-massagista de 23 anos. «Vivermos na esperança de que tudo vai voltar à normalidade e, de repente, voltarmos ao mesmo ponto de partida, não é fácil», refletiu, apontando que a falta de consciência nas pessoas a preocupa, mas a vontade de viver e a esperança nas mesmas, continua a imperar no seu interior. 

«Como terapeuta tem sido um desafio. Por mais estranho que pareça, as pessoas estão mais atentas a elas próprias, querem e precisam de cuidar de si e isso é muito bonito nesta profissão… Estamos sempre a cuidar do próximo! Aprendi este ano que isso me preenche o coração!», contou. «As pessoas virem ter comigo com a vontade de se tratarem e saírem gratas… A pandemia não tem trazido apenas coisas más», defende.

Segundo a terapeuta, como no setor da saúde começaram a existir imensas falhas e falta de tempo para algumas pessoas, começaram-se a procurar outras alternativas e, as massagens e tratamentos, são uma das opções que, para além de tratarem do corpo, ajudam na alma e permitem algum relaxamento. «Confesso que, cada vez mais, me parece um momento sagrado. Assistir à maneira como as pessoas se permitem, nesse momento, a acalmar toda a ansiedade trazida pela azáfama do dia-a-dia…», admitiu.

Aliada à profissão, encontra-se a paixão pela música. Foi este ano que Maria combateu as inseguranças que não a deixavam pegar numa caneta e num pedaço de papel para escrever aquelas que serão as suas primeiras letras. «Dedico-me muito entre as minhas quatro paredes. Escrevo e aldrabo no meu piano. Foi o investimento deste ano!», explicou, acrescentando que tem sido mais difícil do que pensava. «Porque na tua cabeça vivem as ideias mais bonitas e passá-las para fora é o problema, nem sempre corre bem», elucidou, sublinhando que tem sido desafiante e que, nesses momentos, se tem conhecido mais um pouco.

«É um exercício de repetição até ao momento em que te apaixonas por uma melodia que te sai da alma e soa na cabeça. Pode acontecer em pleno autocarro e tu tens de gravar no telemóvel para não a perderes. E não é que são as melhores? Pelo menos para mim!», admite a também aspirante a cantora. 

Maria Madalena acredita que 2022 nos vai trazer «mais sorrisos e alguma tranquilidade». Segundo a mesma, até agora, tivemos a aprender a viver neste mundo ‘novo’ e será muito importante consciencializarmo-nos que este não nos pertence. «É apenas um lugar onde podemos viver», frisou. «Quero continuar a poder cuidar das pessoas e quero ter a força para conseguir seguir o meu sonho na música».  

Um ano de perdas e conquistas

Para Daniela Rodrigues, Marketing Specialist, de 25 anos, o ano 2021, foi no mínimo «surpreendente». «Penso que todos sonhámos com o fim da pandemia e o regresso da normalidade, mas não chegou a acontecer na sua totalidade», começou por refletir, acreditando que este foi também o ano em que, no geral, as pessoas se começaram a aperceber de quanta falta nos fez socializar, «o quanto desaprendemos essa capacidade inata e quão importante é contrariar essa tendência uns com os outros porque nos torna, sem dúvida, mais pessoas».

O seu ano trouxe-lhe, como costuma dizer, «o sabor mais agridoce que provou na ementa da vida». «Em junho perdi o meu avô, a luz dos meus olhos, e o caminho parecia mais turvo que nunca… Afinal nunca estamos preparados para que a vida nos enfrente com a morte. E como ser humano que sou, parecia que tudo tinha entrado numa espiral da qual não havia forma de sair – pelo menos tão cedo», revela.

A verdade é que não conseguimos prever o futuro e, por mais que lhe custasse acreditar, o seu «sorriu-lhe» muito pouco tempo depois. Depois de muito tempo à procura, conseguiu finalmente arranjar trabalho como redatora de artigos em regime de freelancer. Redigia artigos para plataformas digitais sobre os mais variados temas e, este trabalho, admite, foi um trabalho que a realizou. «Porque me obrigava a manter contacto com muitas pessoas diferentes, a fazer muita pesquisa, a treinar a escrita», explicou a Marketing Specialist.

«Claro que tive receio, porque foi muito inesperado e podia não estar à altura, mas com o tempo e a prática tornou-se uma parte de mim quase automática», acrescentou, revelando que se manteve nessa função até há poucos mais de duas semanas, altura em que recebeu a notícia de que começaria a fazer parte da empresa num cargo diferente, o de Especialista de Marketing – que lhe traz uma estabilidade «que há muito tempo esperava». 

O maior desafio que enfrentou foi tentar explicar ao seu núcleo próximo o que faz atualmente, «mas de uma forma mais simples, passa por conseguir posicionar conteúdo na internet», elucidou. Basicamente, quando é feita uma pesquisa por um determinado tema, por exemplo, o Natal, Daniela pretende que o «seu» conteúdo seja aquele no qual a pessoa vai clicar. «Além disto, faço algumas traduções e análise de resultados! Sinto-me muito feliz e é desafiante», sublinhou.

Agora com as festividades à boleia do ano que está quase a terminar, afirma que, apesar de tudo, «foi um ano bom». «2021 ensinou-me a ter mais paciência, a acreditar mais no incerto, a aprender a lidar com emoções que nunca tinha experienciado».

Para Daniela «enquanto por aqui andarmos, temos de viver cada momento num espaço temporal chamado agora, quase como fazemos na contagem decrescente para a mudança de ano». Por essa razão, para 2022, deseja por em prática precisamente «o agora», sem pressas, sem expectativas, com um esforço diário por ser mais e melhor. «O resto? A vida encarrega-se disso», acredita. 

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