Sociedade

Que "seja natal o ano inteiro" em 2022

Adelina Onofre, de 72 anos, e Bram Steller, de 74, não veem a filha há quase dois anos, mas têm esperança de que tudo mude em 2022. Elisabete Antunes, de 53, não sabe como é que o negócio de fabrico de próteses dentárias sobreviveu, mas não vai desistir. Já Sónia Simões, de 47, almeja continuar a ajudar os mais necessitados através do Grupo de Milharado de Apoio aos Sem Abrigo.


Em Portugal há seis anos, Adelina Onofre – de 72, natural de São Paulo, no Brasil –, veio por motivos pessoais, mas agora chama casa ao concelho de Oeiras, onde reside com o marido Bram Steller, de 74, e, até ao início da pandemia, com a filha de 33. Contudo, como esta «viaja pelo mundo porque é professora de jiu-jitsu» e estava no Brasil em março de 2020, não a veem há quase dois anos. «Não temos medo de que ela venha cá. Só queremos que a pandemia acabe».

«Sou vacinada, tal como o meu marido, mas fico muito triste por ver as pessoas perderem os empregos, fecharem os negócios... Gostaria que tudo ficasse normalizado porque há sempre desgraças como pessoas a passar fome», diz, recordando as agruras de vários cidadãos brasileiros e portugueses que, separados por um oceano, sentiram o mesmo desespero no início do ano. 

A título de exemplo, a 25 de fevereiro, o i dava a conhecer os casos de Luana, Filipe, Vinicius, Ana Carolina, Hugo e Eliene que, á época, representavam os 520 cidadãos que pretendiam regressar aos dois países com urgência. Os voos humanitários da TAP, agendados para os dias 27 e 28, geravam muita controvérsia. Tal ocorria porque quem não comprou bilhete na companhia aérea portuguesa foi obrigado a pagar 837,90 euros para poder embarcar. Das 520 pessoas com urgência em regressar aos dois países, apenas 200 tinham bilhetes da TAP. Em grupos de WhatsApp e do Telegram, os brasileiros residentes em Portugal partilhavam agruras e desabafos. Destes, haviam adquirido passagens da Azul, 30 da TAP e 35 da LATAM.

Um dos casos mais preocupantes era o de Luana Aires de Souza, de 28 anos, bióloga de formação que decidiu licenciar-se igualmente em Dança. Tendo curiosidade em experienciar o cenário cultural português, decidiu realizar um intercâmbio de seis meses. «Considerando as dificuldades do primeiro confinamento e o aproveitamento quase zero dos estudos, que ficaram online, renovei o intercâmbio por mais seis meses sem bolsa. Consegui me manter aqui com trabalho, mas fiquei desempregada», revelou, à época, a jovem que padece de endometriose profunda, uma doença crónica que necessita de tratamento. «Meu estoque de remédios acaba em março. Também tenho uma cirurgia para fazer no Brasil e o ano letivo para encerrar na faculdade», continuou a brasileira natural de João Pessoa, capital do estado de Paraíba, que acabou por conseguir regressar ao país de origem.

Apesar de lamentar a dor sentida pela jovem e por outros imigrantes, Adelina aceita as restrições de viagens impostas e, ao contrário de muitos, acredita que Jair Bolsonaro «deve estar como todo mundo procurando fazer o melhor». «Podem fazer errado, em todos os sítios, mas penso que não querem prejudicar propositadamente ninguém. Não posso dizer que ele está errado porque todos os governantes que não são loucos estão procurando fazer aquilo que devem. É tudo muito novo», refere a idosa formada pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, enquanto o companheiro anui.

«Evitamos aglomerações, viajamos só para hotéis com máximo rigor nas regras de segurança… Como somos reformados, em 2022 queremos poder receber mais amigos e família e voltar ao trabalho de voluntariado», na medida em que apoiam o Banco Alimentar e a Ajuda de Mãe, tarefas que não concretizam há um ano e dez meses por temerem ficar infetados com covid-19. «Fomos lá sempre levar coisas para as crianças, mas já não participamos tão ativamente. De jeito nenhum. Mas sempre ficámos isentos desta doença, felizmente», admitem, vivendo a pandemia de uma forma completamente diferente de Elisabete Antunes, de 53 anos, residente no centro do Barreiro, na Margem Sul.

Mãe de Raquel – de quase 15 anos – e Miguel – que está perto dos 30 –, Elisabete Antunes levanta-se pelas 5h em alguns dias da semana porque a filha pratica ginástica rítmica no Ginásio Clube Português, em Lisboa. «Os treinos são da 7h às 12h. E depois ela vem de transportes para casa. No ano letivo passado, ela treinava três dias por semana e a logística era muito complicada porque ia buscá-la ao meio-dia. Como o número de infetados não tem sido tão dramático como no ano letivo passado, deixo-a ter mais liberdade», explica a mulher que é proprietária do Projecto Fixa – Laboratório De Próteses Dentárias, Unipessoal Lda. há 18 anos.

«Quando vou levá-la, aproveito a viagem de regresso, por vezes, para deixar trabalho nas assistentes dentárias porque o negócio de fabrico de próteses dentárias é a minha vida há quase 20 anos. Já tivemos muitos altos e baixos e, quando pensávamos que estávamos a melhorar, veio a pandemia», desabafa a mulher que tinha duas empregadas em março de 2020 e, em setembro desse mesmo ano, não teve condições financeiras para tornar uma delas efetiva, ficando apenas com uma.

«Consegui sobreviver em termos empresariais porque o dinheiro que existia foi todo canalizado para a empresa. Fomos obrigados a fechar com o encerramento por decreto das clínicas dentárias, mas a questão é que os laboratórios de próteses não tiveram as mesmas ajudas», declara, admitindo que trabalhou sozinha nos meses de maio e junho do ano passado pois, tendo recorrido ao layoff – habitualmente definido como a redução temporária dos períodos normais de trabalho ou suspensão dos contratos de trabalho por iniciativa das empresas –, não considerava que fosse moral e eticamente correto manter as empregadas a exercer funções. «Mas sei que muitas pessoas não pensaram assim».

«Acordava de noite e não sabia o que fazer. Ia às janelas e via o Barreiro em absoluto silêncio, parecia que estávamos em guerra. O meu marido é polícia e trabalha por turnos. O meu pai tem 67 anos e a minha mãe 63 e não lhes prestei o auxílio devido para protegê-los»,observa, notando que, quando pensou que existiria um período de franca melhoria, «veio a Ómicron». «Sempre disse que este inverno seria crucial. Na semana passada, quando vi a mudança de discurso do primeiro-ministro, entendi que poderemos voltar para casa».

Porém, confiando numa «entidade superior», espera que o próximo ano «seja de crescimento». «Acho que toda a gente ficou afetada. Se falamos nas crianças, não têm os anos letivos normais, por exemplo. Os nossos medos são justificáveis, mas costumo dizer que isto é um ‘abre-olhos’. Aprendemos que aquilo que é hoje, amanhã pode não ser. Foi tudo ao mesmo tempo, sentimos todos a mesma coisa», reconhece a mulher natural de Linda-a-Velha, em Lisboa, que estudou na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa e tem «uma opinião muito formada com muitas certezas embora não haja certezas nenhumas».

«Acho que o coronavírus surgiu para equacionarmos aquilo que queremos das nossas vidas. Se dávamos atenção à família, demos ainda mais por recear a perda, por temermos não ver mais certos familiares… Quem já tinha por natureza mau íntimo tornou-se pior porque a revolta que sentiu perante isto agudizou o sentimento e tornou-se ainda mais amargo». Apesar de fazer esta análise da sociedade, frisa que «se nos isolamos na nossa bolha, não podemos fazer a diferença generalizada» e, assim, acredita que ainda vamos respirar de alívio. «Desistir não é a minha praia – nunca foi – e espero que não seja a das outras pessoas. Temos de acreditar que tudo vai correr melhor no próximo ano».

À semelhança de Elisabete, também Sónia Simões, de 47 anos, que vive na Malveira, em Mafra, protegeu a mãe a todo o custo. «A minha mãe vive comigo e tem 71 anos. É asmática, mas não teve medo nenhum porque ao contrário de mim, da minha irmã e do meu filho. No início, não a deixámos mesmo sair de casa e ia morrendo de tédio durante três meses. O meu filho ia fazer caminhadas com ela porque achávamos que não era suficientemente cuidadosa e podia colocar-se em perigo e estar exposta a um maior risco de contágio», sublinha a mulher formada em Gestão de Empresas que trabalha há 15 anos na Vorwerk, integrando a equipa Bimby e vendendo o robô de cozinha homónimo.

«A covid-19 não foi uma coisa má para mim a nível laboral, por isso, a minha expectativa é que as pessoas continuem a adquirir este robô. É claro que tive de mudar a minha estratégia: comecei a dinamizar o grupo de clientes no Facebook, a fazer demonstrações online, diretos e a apostar nas redes sociais… Teve de ser», destaca, acrescentando que o filho de 21 anos, licenciado em Publicidade e Marketing, está sempre a dar-lhe dicas para que melhore a sua performance nas redes sociais e capte mais facilmente a atenção do público-alvo. «Está sempre a picar-me!».

«Readaptei-me, mas correu tudo bem. Para o ano, espero ficar mais perto das 1500 vendas, mas o meu principal objetivo é outro: não quero ver as prateleiras do Grupo de Milharado de Apoio aos Sem Abrigo vazias», constata, indicando que é membro do mesmo há aproximadamente sete anos. «Confecionamos cerca de 300 refeições de raiz e levamos tudo para Lisboa aos domingos. Durante o resto dos dias, entregamos comida e cabazes às 50 famílias que acompanhamos e àquelas que precisarem de nós», confessa. «Não somos uma IPSS: dependemos apenas de nós, dos nossos amigos e das empresas que nos apoiam».

«No Natal, toda a gente é solidária, mas a expectativa é que seja Natal durante o ano inteiro. Tanto que precisamos de levar menos coisas para a rua nesta época, enquanto nas outras sabemos que há mais pessoas sem nada para comer», esclarece, com tristeza, elucidando que formou nove equipas distintas com os colegas para que cada grupo se dedique a refeições e snacks diferentes. 

«Fazemos questão de levar um miminho como arroz doce, um bolinho… Acalentar-lhes a alma. As coisas que são corriqueiras para nós e que para eles não são. Recebo muito mais do que aquilo que dou e é isto que, acima de tudo, desejo que aconteça em 2022». 

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