No Meio de Nós

O tempo disse ao tempo!


Chegamos ao fim do ano e, se o tempo suspender a vida com a morte, entraremos, necessariamente num ano novo. Os especialistas dizem que em breve vamos ter quinhentas mil pessoas (ou seja cinco por cento da população) confinadas ao mesmo tempo, mas parece que a desmancha prazeres da Direção-Geral de Saúde diz que se está a pensar em reduzir os dias de confinamento. Em todo o caso, vai ser um tempo ótimo para cada um ‘fumar um pensativo cigarro’, debruçado sobre o tempo suspenso que irrompe abruptamente na vida de cada um.

Não é fácil o tempo dizer alguma coisa, mas a falta de tempo, seguramente, não diz nada. Hoje corremos: corremos do levantar ao deitar e dormimos a correr porque não temos tempo para nada fazer. Vai resultar mal, como já o deu! Às vezes carrancudos e angustiados e revoltados! Pensamos que tudo está mal, mas o problema? É o sono! Durmam… durmam porque ao sétimo dia, Deus descansou das obras realizadas.

O tempo passa e o que era ontem já não é hoje, porque o ontem passou e já não volta. O amanhã ainda não veio, porque ainda não é e não sabes se lá chegas. O agora está constantemente a passar e o agora transforma-se constantemente num já foi. O agora passa e já não é constantemente. O tempo suspende-se constantemente e vai correr, mas nunca sairás do mesmo sítio. Já passou tudo. Ainda ontem nasceste e vislumbras já hoje o tempo em que já não serás.
Porque tudo passa! Tudo há de passar! 

Não te perturbes, diz a Santa de Álvila, nada te espante! Deus não se muda! A paciência tudo alcança! Quem a Deus tem nada lhe falta! Só Deus basta!

Como não se perturbar neste tempo? Como não se espantar? Como a paciência? 

Este viver não vivendo de cada dia, como se só Deus bastasse faz-nos viver cada momento como único, como se a história tivesse parado só para nós. Sim a história parou porque o eterno abriu os céus e desceu. O eterno entrou na história e parou a história. O véu do templo rasgou-se, a terra estremeceu e os túmulos abriram-se e a multidão dos mortos que dormiam ressuscitaram.

Esta é a base de uma nova história, onde o tempo parou. Cristo suspendeu o tempo e contraiu o kronos que nos engolia em cada dia. Por isso, São Paulo, diz que a nossa condição de hoje em diante é efémera: «Irmãos, o que vos desejo fazer entender é que o tempo se abrevia sobremaneira. De agora em diante, aqueles que têm esposa, vivam como se não tivessem, aqueles que estão tristes, como se não chorassem; os que estão alegres, como se não tivessem alcançado a felicidade; os que podem comprar o que desejam, como se nada possuíssem; os que possuem, como se não tivessem nada; porque a forma presente deste mundo contraiu-se» (1Cor 7,30-31).

Acredito que ficarás com esta palavra para este novo ano que se apresenta. Fica ao menos com esta interpelação de pensar que ‘o tempo tem mais olhos que barriga’ e o que fazes ou deixas de fazer depende, em muito, da relação que estabeleces com o tempo. 

As rugas que te esperam não são uma marca da pele, mas um tempo que te atravessa. Não tenhas medo que te atravesse porque a sabedoria só aparece no tempo que te espera. Agora conquistas mundo, mas virá um dia que olharás para trás e nada viste, porque tudo passou e nada fizeste. E o que fizeste, nem queres lembrar!

Aproveita o tempo que passar e que se suspende em cada movimento, para se transformar em passado, porque este é o tempo que te é dado viver hoje, que se transforma num ontem em cada momento.