Opiniao

O ano dos reencontros

Passada a melancolia do Natal, seguimos para a euforia inconsciente de um novo ano, entusiasmados ao ponto de voltar a vociferar resoluções que tentaremos cumprir


Alexandre Faria 
Escritor, advogado e presidente do Estoril Praia

A humanidade precisa de se reencontrar. De regressar ao hedonismo do seu âmago perdido, vilipendiado por sucessivas perturbações provocadas por elementos da sua própria espécie.

Nestes tempos conturbados onde o discurso negacionista prevalece com uma facilidade desenfreada, negacionista em relação à essência da nossa natureza, à ciência e às qualidades humanas da fraternidade e da solidariedade, o nosso íntimo precisa de adquirir as ferramentas necessárias para se reencontrar e conseguir renascer num espaço minado onde proliferam os especialistas de tudo, à solta na crítica aberta e infundada perante as orientações recomendadas por quem realmente entende.

Crescem, de uma forma assustadora, as supostas análises que misturam dados, que as baralham sem critério, alimentadas nas plataformas das redes sociais, sem filtros, consciência ou rigor. E os arautos separam-se em permanentes campos de batalha verbais, certos de uma defesa ímpia de argumentos vazios, maniqueístas no ódio fácil sem qualquer justificação social, negando sistematicamente os conceitos empíricos e intitulando-se vencedores de duelos sobre factos que nunca irão dominar, movidos apenas pelo destorcido prazer momentâneo de ofender ou gritar mais alto.

A razão tem cedido à barbárie de uma libertinagem que persiste numa direção descontrolada, desregrada, alheia aos princípios básicos de uma comunidade que partilha um espaço conjunto, devassando sem piedade os laços sociológicos do ser e obrigando a que ainda se lute, centenas de anos depois, pela defesa dos direitos humanos.

2021 levou consigo grandes personalidades nacionais e internacionais, pelo que não podemos correr o risco de esquecer os legados humanistas que nos deixaram. Desde a política às lutas pela liberdade e igualdade, passando pela cultura, o próximo ano tem de aproveitar as suas lições de vida, os princípios orientadores que deviam reger, a todo o momento, a suprema qualidade de ser humano.

Passada a melancolia do Natal, seguimos para a euforia inconsciente de um novo ano, entusiasmados ao ponto de voltar a vociferar resoluções que tentaremos cumprir. 

Como os sonhos nunca acabam, temos de nos agarrar às evidências, ultrapassar as cortinas de fumo lançadas por quem só aspira destruir a comunhão e não ignorar os sinais que nos são dados, de modo a encetarmos a maior batalha para a defesa dos nossos fundamentos.

Muito em breve escolheremos novos representantes políticos, num ato eleitoral da maior importância, crucial para as novas gerações como vários insistem, onde se torna necessário reforçar uma maioria que pense o futuro do nosso país, reformando as áreas essenciais por intermédio de planos concretos que tragam a estabilidade e o sucesso que merecemos.

É neste preciso momento que deveremos ponderar com sensatez, fugir ao degredo e participar na melhor escolha para o bem comum. 2022 terá de ser o ano do reencontro, do compromisso pela humanidade e solidariedade, do fim do egoísmo, do individualismo e do extremismo, porque nada é pior do que perder os afetos.

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