Internacional

Antevisão 2022: Europa em tempo de mudança

Há preocupação com a saúde de Isabel II e aponta-se para a regência de Carlos. Macron quer afirmar-se como líder da Europa, com Merkel de saída e Scholz a estabelecer-se, mas nem sabe se ainda será Presidente no final de 2022.


Inglaterra - Isabel II pode abdicar?

Após mais um annus horribilis para a família real britânica, o Ano Novo aproximou-se entre rumores de que Isabel II poderá abdicar do trono e receios quanto à sua saúde, numa altura em que foi abalada pela morte do seu marido. Muitos até se questionam se não ficará para a história como a última monarca britânica. Todos sabem que a Rainha não pode durar para sempre, já tem uns vetustos 95 anos, e os protocolos no caso da sua morte, a chamada ‘Operação London Bridge’, há muito que estão a ser preparados. No entanto, há grande incerteza quando ao que se segue, dada impopularidade do seu filho, Carlos, o príncipe de Gales, que está há tantos anos à espera do trono, mas que somente 34% dos britânicos acham que daria um bom Rei, segundo o Yougov. 

Entretanto, uma opção muito debatida tem sido uma regência. «Isso significaria que o príncipe de Gales seria então declarado príncipe regente, capaz de exercer todos os deveres do monarca – incluindo as poucas prerrogativas constitucionais que restam – legalmente, mas também que a Rainha não precisaria de abdicar, e que ainda manteria o seu título, estatuto e posição», opinou Sean O’Grady, jornalista do Independent.

«Creio que ele teria a hipótese de se estabelecer sobre o seu olho atento, e nós todos habituávamo-nos à ideia», acrescentou a comentadora de realeza Sarah Vine, ao tabloide Express. O certo é que todos concordam que «a Rainha precisa de descanso», nas palavras de O’Grady. E que, para os monarcas britânicos «a abdicação é anátema». 

No caso de Isabel II, viu bem de perto o que acontecia quando um monarca quebra essa regra, no caos após a abdicação do seu tio Eduardo VIII, em 1936, para casar com Wallis Simpson, uma americana divorciada, andando o casal a passear pela Alemanha nazi uns anos depois, sendo acusados de simpatizar com Hitler.

Como tal, a Rainha Isabel II «é mesmo, mesmo contra a abdicação. Ela cresceu a acreditar que fosse um absoluto bicho papão. Há uma resistência mental», frisou Penny Junor, biógrafa do príncipe de Gales, ao Daily Beast. «Creio que seria muito difícil para o Carlos falar com ela sobre isto». 

Aliás, alguns especialistas na realeza até apontam para a possibilidade de Carlos – consciente da sua impopularidade e da sua mulher, Camilla Parker-Bowles, duquesa da Cornualha, para sempre associados pelo público à tragédia em volta da princesa Diana – optar por ceder o trono ao seu filho mais velho, William

O príncipe de Gales «pode não ficar com trono, pode entregá-lo ao seu jovem filho. Ele não o quer fazer, uma tarefa tão difícil», considerou Stewart Pearce, antigo confidente de Diana, em declarações ao Sun. 

No entanto, esperemos que não seja este ano que vemos o resultado da ‘Operação London Bridge’, que já tem toda uma série de cenários desenhados há anos, desde a comunicação ao primeiro-ministro, até uma cobertura mediática avassaladora da vida e morte da monarca, o símbolo vivo do fim do império britânico. A cobertura que vimos da morte do seu marido, Filipe, é só um cheirinho do que seria com Isabel II. 

Esta operação está envolta em grande secretismo, mas a premissa é que «o laço entre um soberano e os seus súbditos é uma estranha coisa, impossível de conhecer. A vida de uma nação torna-se numa pessoa», escreveu o Guardian, que revelou parte do plano em 2017.

Boa parte dos programas da BBC já estão feitos e prontos a sair. Aliás, ainda este ano, quando houve uma vaga para diretor de política da BBC, o jornalista veterano Andrew Marr não pôde ser opção, porque o seu programa de domingo, o The Andrew Marr Show, estava no alinhamento da cobertura da morte da Rainha.

Alemanha - Uma Europa sem Merkel

Provavelmente, Angela Merkel não começa 2022 como chanceler alemã porque não quis. Conseguiu um feito raro para um político, ainda para mais após mais de 15 anos no seu posto, à frente da maior economia europeia. Saiu pelo seu próprio pé, mantendo-se como uma das políticas mais populares da Alemanha. Ainda que tenha deixado para trás os destroços do seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU, em alemão), batido nas eleições de setembro pelo seu antigo parceiro de Governo, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), de centro-esquerda, que conseguiu colocar Olaf Scholz como chanceler.

Se o começar de um novo ano acarreta sempre alguma incerteza, ainda para mais com um novo governo baseado numa coligação tão improvável, que junta o SPD aos verdes e ao Partido Democrático Liberal (FDP), mesmo assim os alemães sabem mais ou menos com o que contar. Scholz, eleito quando ainda era ministro das Finanças de Merkel, reconhecido como um político pragmático mas pouco carismático, oriundo da fação mais centrista do SPD, venceu as eleições apresentando-se como a verdadeira continuidade em relação à chanceler, a mudança necessária para que tudo continuasse na mesma.

O resto do mundo, já habituado a ver Merkel liderar o Estado alemão, e, através deste, a União Europeia, questiona-se sobre o que esperar de Berlim. Paris, sob a égide de Emmanuel Macron, há muito que se tenta afirmar como novo polo do poder na UE – não que seja Macron seja uma figura comparável, só 14% dos europeus, se pudessem, votariam nele, comparado com os 41% que votariam em Merkel, segundo uma sondagem recente do Conselho Europeu de Relações Internacionais – e até o primeiro-ministro italiano, Mário Draghi, mostra pretensões a ser o novo rosto da Europa.

São esperadas algumas mudanças cruciais no rumo da UE, num contexto de uma espécie de Guerra Fria entre os Washington e Pequim. Se durante anos Merkel fez com que a Europa funcionasse como tampão entre os dois, oscilando entre a estreita colaboração militar com a NATO e os seus laços comerciais com a China, Macron sempre quis fazer da Europa uma potência a título próprio. 

Poucos analistas consideram que isto seja mais que um sonho, o futuro da economia mundial passa pela Ásia-Pacífico, onde se acumulará cada da vez mais do PIB global, mostram praticamente todas as projeções, tornando o continente europeu cada vez mais periférico e menos relevante. Mas isso não impede Macron de prometer uma criar uma Europa «poderosa no mundo, plenamente soberana, livre nas suas escolhas, no comando do seu destino».
Para o Presidente francês, isso pode implicar a criação do ‘exército europeu’, uma proposta sua, cuja definição – seria uma força militar permanente, semelhante aos exércitos nacionais, mas europeia? Ou uma cooperação mais constante entre os Estados membros, à margem da NATO? – nunca foi muito concreta. O certo é que os Estados Unidos não acham piada nenhuma à ideia.

Se Scholz alinhará ou não em maior integração europeia, seja a que nível for, é outra questão. Dependerá muito dos jogos de poder dentro do Governo alemão. Porque, se o SPD sempre foi muito favorável a maior integração europeia, os Verdes têm-se mostrado defensores de uma política atlanticista de proximidade a Washington, numa lógica de maior confrontação com a China e a Rússia. Enquanto os liberais sempre tiveram reticências no que toca à integração europeia a nível das finanças, sobretudo no que toca a apoiar os países do sul, como Portugal, Espanha ou Itália. 

França - Macron na corda bamba

Por mais contente que o Presidente francês esteja com o seu novo homólogo no eixo franco-alemão, esta pode ser uma parceria de pouca dura. É que Emmanuel Macron não faz ideia se acabará 2022 no poder ou não, enfrentando umas eleições presidenciais pelo meio, já em abril.

A disputa está renhida, estando Macron com 25% das intenções de volta, segundo o Politico, sem sofrer grandes oscilações nas sondagens este ano. Surpreendentemente, a líder da Reunião Nacional, Marine Le Pen, que chegou à segunda volta das presidenciais de 2017, desta vez poderá não ser a maior ameaça a Macron.
Nos últimos meses, Le Pen viu o seu flanco centrista ser tomado de assalto por Valérie Pécresse, antiga aliada de Jacques Chirac e candidata de Os Republicanos, que deu por si com 17% nas sondagens. Enquanto o comentador televisivo Éric Zemmour, conhecido pelas suas posições xenófobas, avançava contra Le Pen pela direita, obtendo 12% das intenções de voto. 

O que parece certo é que ninguém vai conseguir mais de 50% dos votos na primeira volta. De resto, está tudo em aberto. Por um lado, parece difícil que Macron cresça muito mais eleitoralmente, estando com uma taxa de desaprovação de 56%, segundo as sondagens da BVA. Por outro lado, é possível que o seu rival – seja Le Pen, Pécresse ou Zemmour – ainda seja mais detestado, tornando a disputa imprevisível.

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