Internacional

O "escandaloso silêncio" do governo francês face a três feminicídios

Grupos feministas condenam o “escandaloso silêncio” do governo face aos três casos de feminicídios registados em França desde o início do ano.


Apesar da euforia das celebrações de final de ano em França, o país enfrentou uma preocupante e fatal vaga de violência doméstica, com três mulheres a serem assassinadas pelos seus atuais e ex-parceiros, nos primeiros dias de 2022.

Face a estas tragédias que marcaram o início do ano, diversos grupos de feministas francesas apelarem a uma ação mais exigente para combater a violência contra as mulheres.

O grupo #NousToutes (“todos nós”, em tradução livre para português) acusou o governo francês de permanecer “escandalosamente” silencioso face a esta onda de violência.

Estes casos de feminicídio, o assassinato de uma mulher pelo seu parceiro ou ex-parceiro, não são incidentes isolados”, disse Lena Ben Ahmed, membro deste coletivo feminista, à rádio France Info, citada pelo Guardian. “Não são as típicas histórias que vemos nas notícias. São casos de violência sistemática. Todo o sistema é conivente com esses assassinatos porque banaliza e minimiza a violência sexista e sexual. É por isso que estamos escandalizados com o silêncio do governo”, afirmou a francesa.

O primeiro caso a ser reportado foi o de uma recruta militar de 28 anos de idade, esfaqueada até à morte, cujo corpo foi encontrado perto de Saumur, no oeste de França, no sábado passado. A procuradora local, Alexandra Verron, disse que um homem de 21 anos, também soldado, tinha sido preso e que os investigadores estavam a investigar um possível feminicídio.

“O homem de 21 anos matou a sua companheira de 27 anos com várias facadas”, disse Verron, acrescentando que a vítima e o arguido eram “ambos soldados de carreira destacados em dois regimentos diferentes”.

De acordo com as investigações iniciais, o casal tinha ficado vários dias na casa do irmão do arguido, que também estava presente na altura dos acontecimentos.

“Após ter consumido muito álcool, o arguido tornou-se subitamente agressivo e violento para com o seu irmão e a vítima”, disse a procuradora.

Também no leste de França a polícia descobriu o corpo de uma mulher de 56 anos de idade com uma faca no peito, depois dos vizinhos terem relatado uma discussão violenta.

O marido da vítima foi interrogado pela polícia, que encontrou uma corda com um laço no apartamento, que o suspeito, supostamente, iria utilizar para se suicidar.

O terceiro caso, reportado no domingo passado, é relativo a uma mulher de 45 anos de idade que foi encontrada no porta-bagagens de um carro, estrangulada pelo ex-companheiro, um homem de 60 anos, que se apresentou na esquadra de polícia de Nice para confessar o crime e conduzir as autoridades até ao corpo da vítima mortal.

O presidente da Câmara de Nice, Christian Estrosi, disse ter ficado “devastado” pelo crime.

“Quero denunciar o horror deste assassinato. Os meus pensamentos estão com as crianças, a família e os entes queridos da vítima, que era parte da nossa comunidade”, disse o autarca, citado pela AFP, apelando para que “a luta contra a violência doméstica se torne uma das principais causas para o ano 2022”.

De acordo com um relatório do Ministério do Interior, 102 homens mataram as suas mulheres ou ex-companheiras em 2020. Em 2019, foram 146. O coletivo feminista contra a violência sexista e sexual #NousToutes relatou um aumento de feminicídios em 2021, com 113 vítimas mortais.

 

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