Cultura

Annapurna III. A subida à 42.ª maior montanha

Durante quatro décadas, muitos foram aqueles que tentaram cumprir o objetivo do alpinismo do século passado: subir ao cume da montanha Annapurna III. 


Se há quem tenha medo de subir ao famoso elevador de Santa Justa, presente no Chiado, em Lisboa, de 45 metros, ou à emblemática Torre Eiffel, que deslumbra qualquer um que passe por Paris, com 300 metros, há quem “olhe o céu como o limite”.

A Annapurna, com os seus 8.091 metros, foi a primeira montanha com mais de oito mil metros de altura a ser conquistada pela humanidade. Foi em 1950 que Maurice Herzog e Louis Lachenal fizeram a escalada histórica. No entanto, esta esconde “outras” Annapurnas na sua sombra, nenhuma mais perigosa e complexa quanto a rota sudeste, que leva ao topo da chamada Annapurna III, com 7.555 metros – a 42º montanha mais alta do mundo. 

Mais do que um caminho que “alguém teria de escalar” – tendo já existido várias tentativas ao longo de quatro décadas, já que esta foi apontada como o grande objetivo do alpinismo do século passado – o grande “monte”, embelezado com uma grande “manta branca”, parece saído de uma tela, impactante pela “monstruosidade” da sua altura. Por outro lado, um cenário “suicida”, ou “assassino”, saído de qualquer filme de terror. 

Durante mais de 40 anos, muitos foram aqueles que tentaram subir a montanha, localizada no Nepal, erguendo uma “bandeira” no topo. Contudo, ninguém o havia conseguido, alguns até perdendo a vida enquanto o tentavam. Até hoje. Nikita Balabanov, Mikhail Fomin e Viacheslav Polezhaiko são os nomes dos três montanhistas ucranianos responsáveis pelo feito, que agora se encontram no “topo do mundo” deste desporto. 

Na verdade, os especialistas afirmam que foi um outono “fabuloso” nas montanhas do Nepal: muitas foram as equipas ansiosas pela aventura e, as condições estiveram “bastante boas, dadas as devastações das mudanças climáticas”, que acabaram por gerar “várias aberturas impressionantes”. Contudo, em 2019, o trio já havia aprendido “a estratégia necessária para “medir forças” com a grande montanha.

Carregados de 40 quilos de equipamento na sua aventura, os três amigos calcularam que demorariam 12 dias para escalar a rota e descer a montanha. Isso levando em consideração que não tinham a ideia de onde poderiam descer, dados os perigos inerentes ao local de onde tinham subido. Em vez de 12 dias, demoraram 18 e o problema da descida acabou por ser resolvido por um helicóptero. 
 
A aventura A aventura começou em meados de outubro, quando algumas nuvens baixas e densas forçaram o piloto do helicóptero a largá-los antes do esperado, a 400 metros de queda do acampamento base. “Num minuto, o rugido dos motores foi substituído pelo silêncio das montanhas ”, escreveu Fomin.

O percurso cobre quase três mil metros de desnível através das paredes mais íngremes – quase verticais – da crista sudeste do Annapurna III e Balabanov, Fomin e Polezhaiko passaram um total de 18 dias ao relento, preso a cordas que os impediam de escorregar. Com mais seis dias do que o planeado, obviamente que estes tiveram de racionar as porções de comida, o que levou a que estes passassem quatro dias a comer apenas metade de uma barra energética, e, nos últimos dois dias, de barriga vazia.

A dificuldade do roteiro também não permitia que os três alpinistas percorressem mais de cem metros por dia nos locais mais complicados, localizados a meio do percurso. Além disso, tiveram de lidar com más condições climáticas, tempestades não previstas, desaparecimentos de companheiros, e ventos fortes diariamente entre dez da manhã e seis da tarde.

Os três homens chegaram ao cume no dia 6 de novembro de 2021, por volta das 11 horas da manhã. Apesar do cansaço, a onda de emoção não faltou: gritaram para o aparelho, tiraram fotografias, abraçaram-se, enviaram mensagens “curtas” aos amigos, olharam em volta, avistando a Annapurna I, Machapuchare e Annapurna IV e, logo começaram a descer. 

Planeavam efetuar a descida em direção ao vale de Manang, mas perceberam que o vento estava muito forte e a sua energia era muito pequena para “enfrentar 3,5 quilómetros de ‘crista’”. Decidiram então colocar o Plano B em prática e seguir em direção ao acampamento base na face sul de Annapurna, apesar de não saberem o caminho. “Não tínhamos nenhuma descrição ou qualquer informação sobre o caminho, mas tínhamos de descer de uma forma ou de outra”, contaram depois, em algumas entrevistas.

Nessa altura, a lucidez já era difícil e a tomada de decisões tornava-se cada vez mais complicada. Como declararam a vários meios de comunicação ao regressar, a tomada de decisões em situações de enorme risco ou incerteza foi “decisiva”. Nesses casos, um acordo ímpar simplificava os “debates”: quando duas opiniões eram contrárias numa situação de enorme stress, o olhar da terceira desequilibrava a balança.

Desse modo, estes conseguiram decifrar “situações horríveis de neve solta”, áreas de rocha podre que “se despedaçavam como massa folhada”, blocos que ameaçavam cair como “bombas” sobre os dois que amarravam a primeira corda ou rajadas de vento de até 70 quilómetros por hora. 

O resgate Contudo, aos 5.200 metros, o sol e o calor começaram a grudar as suas línguas já congeladas – Balabanov e Polezhayko chegaram mesmo a comer neve. Fomin, por outro lado, conseguiu conter-se: “ Eu sabia que podia ficar com dor de garganta se o fizesse”, explicou. 

Nesta fase, segundo a publicação Desnivel, a capacidade de Polezhaiko para ler a neve e traçar a única linha de descida possível foi “fundamental”. Com congelamentos leves, sem comida e exaustos, a cinco mil metros acima do mar, estes conseguiram finalmente receber ajuda de um helicóptero – o helicóptero amarelo da Seven Summit Treks, operadora para a qual estes enviaram as suas coordenadas de GPS: “Saltei para a área ensolarada, agitando os braços e fui avistado! Um mágico sorridente chamado Mingma atirou-me uma lata de Coca para as minhas mãos! Reparou nos meus olhos loucos e disse-me para ficar sentado enquanto iam buscar os outros”, contou Fomin à mesma publicação. O trio encontrava-se espalhado. Contudo, o helicóptero conseguiu resgatá-los. Uma hora e meia depois, todos estavam já em Katmandu.

“Quando nos pesámos no hotel, descobrimos que Viacheslav tinha perdido 16 kg, Nikita 13 e eu 12! Um amigo meu chegou mesmo a fazer a piada de que nos ‘tinhamos perdido um participante de 41 kg’”. A piada foi divertida, mas nos últimos dias antes do cume e durante a descida, todos nós tivemos a sensação de que lá estava uma quarta pessoa. Pareceu-nos que era um dos nossos amigos que tinha ficado para trás”, revelou Fomin.

Na verdade, este “sentimento de presença”, é bem conhecido pelos cientistas que o chamam de “síndrome do terceiro homem”. Outros já o haviam experienciado antes: Ernest Shackleton, na Antártica, em 1917, Frank Smythe no Everest, em 1933, ou Hermann Buhl, em Nanga Parbat, em 1953. 

Nikita Balabanov, Mikhail Fomin e Viacheslav Polezhaiko batizaram a rota de “Paciência”. Tal como adiantou Fomin,  perdendo 13 quilos em média, os três alpinistas regressaram do “feito”, apenas com um leve congelamento nos dedos das mãos. Nenhum dos três é profissional, nem tem patrocinadores, o que acaba por tornar a conquista ainda mais “impressionante”. 

Tentativas anteriores Vários alpinistas já haviam tentado conquistar a grande montanha, porém, muitos ficaram a um passo de distância, alguns morreram e outros simplesmente desistiram sabendo que não teriam sucesso. Em 1981, Nick Colton, Steve Bell e Tim Leach, três alpinistas nascidos na Inglaterra, conseguiram chegar aos 6.500 metros, mas desistiram do sonho, argumentando que este “estava além dos seus limites”.

Por mais que tivessem encontrado “a linha a seguir”, as dificuldades afiguravam-se “tão insuportáveis” que os seus cérebros “olhavam” para baixo, embora os seus olhos procurassem a direção oposta. Entrevistado em 2012 pela revista Alpinist, o trio reconheceu que, depois de tanta experiência, nunca conseguiu “escalar com tanto empenho”.

Outras figuras como os alpinistas austríacos Hansjorg Auer, David Lama e Jess Roskelley, chegaram a uma altitude semelhante, talvez um pouco mais alta do que os britânicos, mas como seus precedentes foram obrigados a desistir. Em 2019 uma avalanche arrastou-os durante uma escalada ao Pico Howse, no Canadá, fazendo com que os três homens perdessem as suas vidas.