O mundo em calções

"Mr. Stevens, I presume"

 Apesar de ser uma invenção francesa, foram os ingleses a darem-lhe o nome. Um nome de moedas: uma de penny, a grandalhona, e outra de farthing, a pequerrucha, tal como as rodas.


Não sei porquê, mas hoje deu-me para escrever sobre Thomas Stevens, um moço ao qual todos chamavam apenas Tom e que nasceu já há muitos anos, mais concretamente no dia 24 de dezembro de 1854. Afinal, até sei porquê mas tinha-me esquecido. Lembrei-me agora: vi num número velhinho da National Geographic, que o meu avô Joaquim colecionava e estão por aí distribuídos pelas estantes da Casa de São Bernardo, nesta Águeda da minha infância, um anúncio sobre as populares bicicletas penny-farthing, aquelas que tinham um roda gigante na frente, um assento também lá no alto, e uma segunda roda cá em baixo, rasteirinha. Na altura da sua construção, o seu idealista, o francês Eugène Meyer garantia que a roda dianteira permitia que se atingissem grandes velocidades sem ser necessário pedalar muito, pelo que o objecto se tornou apetecível para todos durante os anos 70 e 80 do século XIX. A verdade é que, excitadas pela promessa de velocidade, os ciclistas da época tombavam que nem tordos e lá bem de cima, aproveitando ao máximo a Lei da Gravidade. Apesar de ser uma invenção francesa, foram os ingleses a darem-lhe o nome. Um nome de moedas: uma de penny, a grandalhona, e outra de farthing, a pequerrucha, tal como as rodas. Toda a gente sabe ou devia saber que um penny corresponde a 1/240 de uma Libra Esterlina, enquanto um farthing corresponde a 1/960 da mesma Libra Esterlina, ou seja, um quarto do penny. Thomas Stevens sabia disso perfeitamente, embora não pudesse ser considerado um barra em contas. Foi, no entanto, obrigado a fazer muitas, e de cabeça.

Aos 29 anos, Tom estava em São Francisco e resolveu, pura e simplesmente, dar a volta ao mundo como se fosse Philleas Fogg, Esquire, e o seu valete, Passepartout, do Verne, que por acaso lançara o livro precisamente nove anos antes. A Volta ao Mundo em 80 Dias, quero eu dizer, embora toda a gente já tenha percebido. Decidiu que só precisava de uma pequena mochila, de algumas roupas, de uma gabardina, de um capacete e de um revólver de bolso. Posto isto, às oito em ponto da manhã do dia 22 de abril de 1884, desatou a pedalar em direção às Montanhas Nevadas e, lá chegado, deu graças a Deus pelo capacete tantos foram os tombos. A cerca altura teve de carregar a bicicleta aos ombros de modo que já era a bicicleta que estava a dar a volta ao mundo num Thomas Stevens em vez do seu contrário. 

Após ter percorrido mais de quatro mil quilómetros, chegou a Boston. Como não tinha nenhum prazo de 80 dias para cumprir como Philleas Fogg, Esquire, instalou-se em Nova Iorque e passou o inverno num quentinho quarto de hotel, escrevendo as suas aventuras pedaleiras, que lhe valeram encontros com bandidos e animais selvagens, para uma revista chamada Outing. Pelo menos, foi o que ele contou. Vá lá saber-se se foi verdade ou não. Verdade, sim, foi que a Outing resolveu patrocinar-lhe o resto da viagem desde que ele continuasse a descrevê-la nas suas páginas. Com o adiantamento no bolso, Tom apanhou um paquete para Liverpool levando a sua penny-farthing e iniciou a travessia da Europa com muita gente a ovacioná-lo. Os seus escritos aventurosos deram-lhe uma popularidade inesperada. Em França foi idolatrado. Depois seguiu para Sul até Constantinopla. 

O xá da Pérsia quis conhecê-lo e lá foi ele, pedalando através da Anatólia, da Arménia, do Curdistão e do Iraque até ser recebido como um nababo em Teerão. A viagem terminou no dia 17 de dezembro de 1886, em Yokohama, no Japão, mas meteu uma boas travessias marítimas pelo caminho. Calculou, por alto, que pedalara, ou pelo menos andara agarrado à bicicleta, mais de 22 mil quilómetros. E escreveu Around the World on a Bicycle, um tijolo com cerca de mil páginas.

Como não conseguia estar quieto, resolveu então ir para África à procura de Henry Stanley o homem que fora à procura de David Livingstone que, por sua vez, andava em busca da nascente do Nilo. Livingstone deixou de dar notícias durante ano e meio até que Stanley o encontrou em Ujiji, hoje em dia na Tanzânia. Depois de ter dito a frase – «Dr. Livingstone, I presume» – ao vê-lo de barbas brancas rodeado de gente mais escura do que baquelite, escreveu o livro How I Found Livingstone e deixou, também ele, de dar notícias durante mais um ano e meio.

Pondo a sua penny-farthing de lado, Tom gozou uma boa temporada no Quénia, subiu ao Kilimanjaro, e nunca encontrou Stanley embora tivesse prometido ao seu editor que iria escrever um livro sobre as suas divagações africanas intitulado How I Found Stanley. Pago pelo jornal New York World não fez, na verdade, muito para poder dizer – «Mr. Stanley, I Presume». Afinal já se esfalfara o suficiente a pedalar em redor do planeta. De regresso à América publicou Scouting for Stanley in East Africa. Não faltou à verdade.

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