Hoje Escrevo Eu

Um mau começo

Carlos Moedas já desaproveitou mais do que uma oportunidade para causar uma boa primeira impressão

 


No Orçamento de Estado para 2022 que foi chumbado em novembro e motivou a antecipação das legislativas para o próximo dia 30, o ministro João Leão previa aumentar as receitas do Estado em 13 milhões de euros só com multas por excesso de velocidade resultantes dos novos radares implementados um pouco por todo o país, com particular incidência na cidade de Lisboa.

A medida foi apadrinhada pelo então presidente da Câmara, o socialista Fernando Medina, acérrimo defensor do afastamento do trânsito automóvel de todas as zonas mais centrais da cidade e da generalização das ciclovias na capital, independentemente da sua morfologia - uma cidade com sete pronunciadas colinas, com muitas estreitas e escorregadias ruas ainda por cima armadilhadas com carris de elétricos, não será a mais apropriada para velocípedes de duas rodas.

E ainda ninguém explicou aos lisboetas que andam a correr no meio da cidade ou a pedalar feitos tolos de pulmões bem abertos que o ar que respiram é tudo menos puro e que em vez de estarem a contribuir para uma boa e saudável oxigenação do seu corpo estão, sim, a enchê-lo de cancerígeno monóxido de carbono? 

Ide pedalar ou correr para Monsanto e ampliem-se as ciclovias à beira rio e beira mar de Cascais a Vila Franca de Xira passando por Pedrouços, Belém, Cais do Sodré, Ribeira das Naus, Santa Apolónia, Beato e Marvila, Parque das Nações, Santa Iria e Alhandra. Longe de carros e de autocarros, que deviam estar interditados a essas zonas, sim. Faz todo o sentido e não só é possível como aconselhável. Até porque todo esse percurso é plano ou apenas com ocasional inclinação.

Nem vale a pena insistir que a bicicleta é um meio de transporte alternativo. Não colhe. Pode sê-lo para estudantes ou para uma minoria de trabalhadores de serviços com empregos em que estão todo o dia sentados e que não têm filhos para levar ou ir buscar à escola e podem fazer as compras online e mandar entregar em casa que estará lá alguém para as receber. Mas essa não é a grande maioria da população nem, crê-se, aquela em que os políticos querem transformar-nos, despindo a cidade das famílias com crianças e que ao mesmo tempo alimentam o comércio tradicional e de atendimento personalizado.

Por isso é tão incongruente a ciclovia na Av. Almirante Reis, que serviu de arma de arremesso certeiro contra Fernando Medina. O trânsito ficou caótico, o parqueamento impossível, os comerciantes perderam clientela e os moradores, mesmo os que julgavam que ficariam com melhores condições de circulação, logo se desenganaram com tanto carro e autocarro num constante pára-arranca.

Voltemos aos radares. Fazem sentido em bairros como Alvalade, S. Miguel, Campo de Ourique, Olivais, Graça, Alfama, Baixa, Benfica, Furnas e quejandos? 

Com certeza. São zonas de vida urbana ou residenciais, com idosos, menos idosos, jovens ou crianças e animais de companhia, como cães e gatos, em permanente movimento e que, de facto, aconselham a velocidade máxima nunca superior a 50 km/h ou, não raro, até menos.

Agora, impor os mesmos limites em faixas de rodagem sem atravessamento de peões (apenas passagens aéreas ou subterrâneas), com quatro ou mais vias de circulação, em zonas sem uma única entrada direta para habitação ou espaço comercial ou de serviços não tem sentido.

Veja-se o exemplo da 2.ª Circular, cuja velocidade autorizada é quase como uma roda da sorte. 

Tratando-se de uma ‘circular’ citadina, a velocidade autorizada é, quase em toda a sua extensão, de 80 km/h - na Circular Regional Interna de Lisboa (CRIL ou IC17) é de 90 km/h, passando a 70 km/h nos túneis.

Mas a desfaçatez atinge o cúmulo quando, de repente e a pretexto de uma curva classificada como perigosa sem que se entenda porquê, a velocidade autorizada baixa para 50 km/h e vá de pôr um radar assinalado por uma quase impercetível placa metros antes e escondida por vegetação. 

Se perante o tráfego diurno há quem reze para poder lá passar a 50 km/h e sem parar, já durante a noite o perigo está em seguir atrás de quem menos conhecedor e trava a fundo e num repente quando se depara com sinal com a proibição de circular a mais de 50 km/h.

É assim no troço da 2.ª Circular que dá pelo nome de Av. Eusébio da Silva Ferreira, imediatamente a seguir ao Fonte Nova para quem segue no sentido Aeroporto-Benfica ou antes do Estádio da Luz para quem vai do nó de Pina Manique para o Campo Grande - onde, até há bem pouco tempo, havia uma placa enorme e luminosa a assinalar a presença de um radar e a velocidade máxima de 80 km/h.

É um absurdo, como o são as avenidas Lusíada e Marechal Gomes da Costa.

No caso da Lusíada - sem atravessamento de peões , foi lá posta uma ciclovia que tem uso quase zero, mas em que as raras trotinetas e bicicletas que por lá andam a velocidades estonteantes chegam a ultrapassar os veículos de quatro rodas limitados a incompreensíveis 50 km/h. Na Marechal Gomes da Costa a mesma coisa - e é preciso travar no sentido descendente para evitar a multa e no ascendente a placa de aviso está para lá da ciclovia, quase invisível.

Carlos Moedas apeou Fernando Medina muito por demérito deste, que cometeu erros clamorosos no governo da cidade, nomeadamente a aposta excessiva em ciclovias e em radares desincentivadores da circulação automóvel, bem como na falta e desmedido encarecimento do estacionamento. 

Mas também por mérito próprio, por marcar a diferença do comum dos políticos encartados, por não estar absolutamente na dependência da política nem precisar de seguir a cartilha das promessas vãs.

Ora, meses passados sobre a tomada de posse no cargo, o novo presidente veio dizer aos seus munícipes que, afinal, a ciclovia da Almirante Reis vai manter-se até se encontrar uma alternativa. 

Como??? E, já agora, sobre os anacrónicos radares nem uma palavra???.

Empossado no cargo, parece que a sua preocupação primeira é para com o eleitorado do adversário e não em honrar os compromissos para com aqueles que votaram e acreditaram em si.

É um mau sinal, mesmo.

Que pode ser fatal para as legítimas aspirações políticas que não esconde ter.

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