Politica

Francisco Rodrigues dos Santos: "Olham-me com desconfiança por não ter título nobiliárquico"

Acusa Rio de ter traído o centro-direita e Ventura de ser populista. Está confiante para dia 30, prometendo ressuscitar o CDS nas urnas.

 


Será que o anúncio da morte do CDS-PP foi ‘manifestamente exagerado’? O seu líder surge nesta entrevista munido de escudo e espada (não tivesse estudado no Colégio Militar, cujo crachá ostenta na lapela do blazer). O escudo é medieval: chama-se Doutrina Social da Igreja e permite-lhe uma defesa segura contra todas as investidas sobre as preocupações sociais do partido. A espada, essa, trá-la afiada  para apontar sem dó nem piedade a dois senhores: Rio - «que traiu o centro-direita» - à sua esquerda, e Ventura - «um populista extremista» - à sua direita. 

Sem baixar a guarda, o líder do CDS aborda nesta entrevista um conjunto de assuntos sobre os quais o CDS vai optando por estar calado. Deixa cair finalmente algumas palavras sobre o movimento LGBT, que rejeita associar ao partido por considerá-lo um cavalo de Troia da ideologia de género. Além disso, considera tratar-se de um «movimento identitário», algo que o CDS rejeita por definição (como tão bem se nota na defesa das touradas). 

Coloca a negrito as letras ‘PP’: Rodrigues dos Santos quer um CDS menos benzoca e mais perto do que foi o berço do partido: o povo. Do partido e seu, como explica nesta conversa, em que confessa que sente olhares de «desconfiança por não ter título nobiliárquico». Ainda vai conversando com Paulo Portas, que diz só ter influência no partido por via de si. Hoje, é «mais próximo» de Ribeiro e Castro, a quem se «rende».

Critica militarmente o Chega, realçando o CDS como a solução da direita civilizada. Acusa-o de cópia em tudo «aquilo em que é razoável» e confessa desconfiar que « não morre de amores pela democracia». Conclui confiante de que não perderá deputados e apelando ao voto no partido que dirige: «Pelas mesmas razões de sempre». 

Que soluções tem o CDS-PP para melhorar a vida dos pobres?

Todo o compromisso eleitoral é direcionado àqueles que não tiveram as mesmas oportunidades para subir na vida e que precisam que o Estado as ajude a atingirem o seu projeto de sucesso. A nossa primeira preocupação são os idosos: nós somos o partido que quer cuidar de quem cuidou de nós e dar o carinho, o afeto e os apoios que merece a nossa população sénior. Para que não tenham que escolher entre comprar alimentos ou comprar medicamentos, nós propomos um vale farmácia: um apoio em dinheiro que cobre todas as despesas com medicamentos na farmácia aos idosos com mais de 65 anos e de baixos rendimentos. Propomos, também, um complemento de pensão no Inverno para o aquecimento das casas, sobretudo da população idosa. Há muita gente que nas estações frias não consegue aquecer-se nos seus lares porque não tem dinheiro para pagar a fatura da eletricidade. 

Outra medida importante para ajudar os que têm menos recursos é a via verde saúde. Nós sabemos que aqueles que são mais ricos podem optar entre o SNS e um hospital particular e que aqueles que são mais pobres não têm opção de escolha. Propomos que sempre que um doente ultrapasse os tempos de espera dentro do SNS possa recorrer ao setor particular e social da saúde para ter um exame, uma consulta e uma cirurgia de forma a ser tratado com a dignidade que merece. Ainda, o cheque ensino. Este permitirá às famílias poderem escolher a escola onde querem que os seus filhos estudem.

As famílias mais abastadas têm essa liberdade de escolha, os mais pobres não. No início do ano letivo, o ministro da Educação descoseu-se dizendo que uma mensalidade da escola pública é mais cara do que nos colégios particulares que ficaram melhor classificados nos rankings de acesso ao ensino superior. Através deste cheque, as famílias terão a liberdade de escolher a escola dos seus filhos.

Falamos aqui de idosos e de crianças. E sobre os jovens?

Sendo o mais jovem presidente de um partido com representação parlamentar, tenho noção dos dilemas que afetam diretamente a minha faixa etária. Quero também ser a voz dos jovens na política nacional. Para isso trago algumas propostas. Para os jovens propomos acesso à primeira habitação completamente isento de impostos e a devolução dos impostos ao jovem inquilino até aos 35 anos.

Um jovem inquilino tem que pagar ao Estado, em impostos, cerca de 28% da renda. Nós propomos que estes 28% de sejam devolvidos através de um mecanismo de acerto de contas – o tal conta corrente que o CDS fez aprovar nesta legislatura. Isto dá-lhe maior liquidez e terá mais facilidade em suportar o valor das rendas.

Ainda na habitação, uma proposta que tanto dá para os jovens como para os menos jovens: a partir do segundo filho, para dar maior capacidade de poupança àqueles que querem constituir família, vai-se descendo sucessivamente um escalão nas tabelas de IRS.

Desde que há registo que nunca tivemos tão poucos nascimentos como no ano passado, algo que, se não formos capazes de reverter, resultará num efeito destrutivo no nosso sistema de segurança social. Por fim, propomos uma rede de creches tendencialmente gratuita para acomodar a logística familiar e reduzir drasticamente os custos que isso representa no orçamento.

Voltando aos pobres, mas agora aos pobres dos pobres. Porque é que alguém realmente pobre - não é quem tem dificuldade em pagar as propinas, mas sim, por exemplo, um cidadão de Rabo de Peixe - deve votar no CDS?

Porque nós sempre fomos o partido da Direita social que se inspira nos valores da Doutrina Social da Igreja – que foi criada, sobretudo, para apoiar aqueles que precisam de um estímulo da parte do Estado para poderem ter condições de dignidade. Nós somos o partido que, em questões sociais, tem a melhor e mais eficaz resposta para os portugueses.

Somos um partido que sempre defendeu o terceiro setor: o das Misericórdias – que são muito caras à Igreja Católica – ou das IPSS, que substituem o Estado para apoiar aqueles que mais precisam. E nunca os abandonamos na parte do financiamento que o próprio governo deve prestar a estas entidades. Também somos o partido que tem noção que os apoios sociais devem ser verificados para que não seja mal aplicado um cêntimo. Não queremos dar subsídios à preguiça nem a situações de abuso e dependência dos apoios do Estado. 

Vamos supor que eu era de Rabo de Peixe e lia nesta entrevista que o CDS queria privatizar os transportes públicos. Não acha que isso me afastaria de votar CDS? 

As privatizações ou as concessões são um mecanismo jurídico que permite prestar o melhor serviço às populações: e não o contrário. Aquela ideia socialista de que só o Estado é que presta bem e que tem de ser monopolista em determinados setores está a verificar-se uma ruína para os contribuintes. Estes são chamados a empobrecer-se e a pagar mais impostos para colmatar buracos negros sorvedouros de dinheiro do Estado quando muitas vezes se verifica que os privados fazem melhor, servem o interesse público através de bons contratos de concessão e ajudam as pessoas de acordo com as suas necessidades.

Ou seja, defende que as privatizações não deteriorarão a coesão social.

É precisamente o inverso: aumentarão a coesão social e dão melhores mecanismos de mobilidade às pessoas.

A saúde mental é uma das questões mais importantes para a população em geral e para os jovens em particular. Que propostas tem o CDS para a sua promoção?

Isso é muito importante. A saúde mental deteriorou-se bastante durante a pandemia. Defendemos a criação de uma linha de apoio, 24 horas, a custo zero, para os jovens terem acompanhamento psicológico nos momentos de maior aperto e aflição.

Em relação às alterações climáticas, de que forma é que a visão do CDS sobre este assunto difere da do PAN? Os dois querem salvar o mundo, mas em que mudam?

O PAN é um partido animalista radical que quer destruir o mundo rural. Tem uma agenda ditatorial, que quer no fundo acabar com este modo de vida. O seu problema reside essencialmente num preconceito que tem sobre um conjunto de atividades – a agricultura, as pescas, a caça, a tauromaquia, a produção animal – que são compostas pelos verdadeiros cuidadores do ambiente e gestores da biosfera. 

Mas o CDS tem alguma proposta em concreto para as alterações climáticas?

Nós defendemos uma economia sustentável, privilegiamos a economia circular, o aproveitamento de resíduos, e achamos que deve ser reduzida a emissão de gases com efeito de estufa. Mas tudo isto tem que ser compatibilizado com o normal funcionamento da economia: é a própria indústria e os setores produtivos que se vão adaptando também às exigências climáticas. Não é por via da taxação que se resolvem estes problemas: é, sim, permitindo-lhes adquirir poupança e reinvestir os seus lucros em mecanismos que não sejam poluentes e possam verdadeiramente configurar uma aliança com o ambiente.

No Reino Unido os Tories já celebram o ‘pride month’. Em Madrid, o PP defende os direitos LGBT que o Vox tenta revogar. Em Portugal, o CDS-PP continua em silêncio sobre o assunto. O que pensa o CDS-PP sobre o movimento LGBT?

O CDS rejeita políticas identitárias. Nós não achamos que o ser humano deva ser arrumado em gavetas ou classificado segundo etiquetas. Respeitamos a dignidade do ser humano independentemente das opções de cada um. Portanto, todas as políticas que procurem catalogar pessoas acabam por ter uma índole marxista: de colocar partes da sociedade contra outras. Nós olhamos para ela com um conjunto e acreditamos que não traz nada de positivo procurar um identitarismo na política porque ele segmenta em vez de unir.

O CDS mantém uma posição civilizada, mas não se põe – nunca se pôs – ao lado de quem embandeira uma bandeira LGBT. 

Mas nós estamos ao lado do indivíduo! Nós somos contra a exploração do Homem pelo Homem e do Homem pelo Estado. Está no nosso manifesto fundacional: «contra quaisquer estruturas opressoras da sociedade». Nós defendemos a pessoa humana contra quaisquer tipo de ameaças à sua liberdade, ao seu condicionamento, ao seu bem-estar, à sua autonomia.

Mas se há um movimento que preserva isso tudo, porque é que o CDS não lhe adere?

Porque ele defende políticas identitárias. 

E a defesa da tourada não é uma política identitária?

Por que é que defesa da tourada é uma política identitária? A tourada é uma expressão de liberdade, como outros movimentos são. Agora, quando estes têm em si mesmos uma ideologia, nós já podemos discordar. Quando não está em causa apenas a liberdade de expressão de cada um e configuram em si uma espécie de ideologia e um conjunto de ideias e normas orientadoras que vão contra os padrões elementares de uma sociedade, nós já não estamos em condições de acompanhar.

Nós defendemos no nosso compromisso eleitoral que deve ser optativa a disciplina de cidadania e desenvolvimento porque achamos que isto abre a porta ao totalitarismo do Estado: que assim poderá doutrinar crianças, ter uma ideologia oficial, passar por este cano a ‘ideologia de género’ e transmitir às crianças valores diferentes daqueles que querem as suas famílias. Muitos desses movimentos LGBT são apoiantes da ideologia de género e nós não estamos em condições de acompanhar.

Mas aí a questão é mais fácil de entender porque são crianças.

Mas cada um tem a liberdade de se expressar. Porque é que o CDS tem de estar ao lado de uma bandeira arco-íris?

Porque não?

Porque nós defendemos a bandeira de Portugal – que é a bandeira que representa todos os portugueses. Nós defendemos todos os portugueses, independentemente da orientação sexual, da zona do país onde moram, do nível de riqueza, dos apelidos de família, do trabalho que têm. Queremos que vivam em liberdade. Agora, rejeitamos políticas identitárias, sobretudo de grupos minoritários que muitas vezes querem impor a sua vontade e constroem ideologias que se querem sobrepor à ordem natural das coisas e à própria ciência. 

Sente que sua presidência do partido veio aproximar mais o partido ao povo? Sente que isso tinha sido perdido com as anteriores presidências?

Sinto que o meu percurso de vida não vem de uma bolha nem de uma elite social que está retida no perímetro dos salões do poder. Sou uma pessoa que vem de Oliveira do Hospital – o interior profundo do nosso país. O meu avô era resineiro e a minha avó era padeira e tinha uma mercearia. O meu pai subiu na vida a pulso, permitindo – juntamente com a minha mãe – dar aos seus filhos educação para poderem cumprir o seu projeto de vida.

Todo o meu percurso não vem por ter tido bons padrinhos ou favores. Não foi pelos meus apelidos de família que consegui estar onde estou hoje. Os partidos políticos não podem ser uma associação de egoísmos, em que os que lá estão subiram na vida através de uma escada e depois tiram a escada para os outros não poderem subir. Eu como fiz essa mobilidade toda sem nenhum tipo de favor, gostava de a poder dar a outros – porque senti essas dificuldades. 

E será o facto de ter feito essa mobilidade toda sem favores que irrita alguma parte do CDS? As tais castas.

Eu não diria o CDS. Cheguei a presidente do partido completamente solto e livre. Não pedi autorização a ninguém. Não fazia parte da nomenclatura, não era cá da malta, não era do burgo. A militância do partido não foi uma herança que eu tivesse recebido de alguém. Eu cheguei ao CDS por convicção e por acreditar nos valores. Agora, por não pertencer aos circuitos da malta, sinto que sou um corpo estranho para o mainstream dos jornais e das estações de televisão. Não sou fidalgo e isso muitas vezes irrita, porque parece que não tenho pedigree para ter chegado onde cheguei. E acho que muitas vezes acabo por ter um tratamento diferenciado face a outros que tiveram uma escola e uma convivência social elitista que não tive.

E sentiu isso dentro do CDS?

Fui eleito pelas bases do partido, portanto tive um impulso que me permitiu chegar à sua presidência. Claro que para um determinado tipo de casta isso não foi bem recebido, e a verdade é que nunca tive a conivência nem o apoio desses chamados ‘barões’. Mas, sobretudo, sinto cá fora, na transmissão da minha mensagem: em que me olham com desconfiança por não ter o título nobiliárquico que às vezes é preciso para se poder ter uma vida em Portugal.

Mas porque é que acha que CDS atrai esse pedigree?

Não acho que o CDS atraia esse pedigree. O CDS, quando nasceu, era o partido dos pobres. O grosso do status quo do antigo regime não veio para o CDS, foi para o PSD. O CDS era o partido da gente humilde. Queria trabalhar para que as pessoas pudessem realizar os seus projetos de vida. Era gente que acreditava numa matriz conservadora de valores, nas tradições do país e que tinha um grande apego ao território. Eu acho que esta é a génese do partido.

Claro que, aqui ou ali, através da sua classe dirigente, ela nem sempre esteve tão nítida ou visível. A minha liderança quer precisamente recolocar no eixo das políticas este Partido Popular: que olha sobretudo para aqueles que estão a passar dificuldades e querem voltar a acreditar no sistema político. Isto sem demagogias e apresentando soluções razoáveis para os problemas. 

Vimos recentemente que muitos daqueles que eram ditos ‘Portistas’ [ala de Paulo Portas] abandonaram o CDS. Não obstante esta saída, quanto ‘Portismo’ ainda existe no CDS?

Primeiro queria notar-lhe um equívoco. Diz que ‘Portistas’ são aqueles que durante 20 anos foram as caras mais conhecidas do Partido. Não! Portistas, fomos todos, salvo honrosas exceções.

O Francisco foi ‘Portista’?

Claro que sim. Eu fui do CDS. Algumas pessoas são do líder e não do partido, eu não. E fui portista na exata medida que enquanto Paulo Portas era Presidente estive incondicionalmente ao seu lado em todas as batalhas que teve. O partido tem uma herança muito grande de Paulo Portas – que é respeitada e valorizada – como também de outros líderes do Partido. 

Conversa com Paulo Portas?

Converso pontualmente com Paulo Portas como converso com outros líderes do partido. Hoje sou muito próximo de José Ribeiro e Castro, e rendo-lhe aqui a minha homenagem: é, possivelmente, o ex-líder do partido que melhor representa o espírito fundacional do CDS e a sua essência democrata cristã.

Foi fundador da Juventude Centrista e alguém que deu os primeiros passos na política e na vida democrática deste partido ao lado de Adelino Amaro da Costa, que é a grande referência de todos nós. Tê-lo ao meu lado como número dois por Lisboa é um selo de qualidade e uma garantia de compromisso que o CDS faz com portugueses à semelhança do que fez em 1974.

É um elo intergeracional que reúne todas as gerações de militantes e dirigentes do partido ao longo de sua história. E eu estou muito grato por isso. É alguém que, ao meu lado, quer dizer aos portugueses que podem votar no CDS ‘pelas mesmas razões de sempre’.

Foi público que convidou Manuel Monteiro para ir nas listas. Rejeitou. Convidou mais algum outro antigo presidente partido?

Manuel Monteiro fez uma avaliação pessoal e concluiu que não tinha vontade de voltar a ser deputado, e essa foi a razão principal que o fez declinar o convite para ser candidato. Mas disse que estaria disponível para estar ao lado do presidente do Partido e em todas as ações de campanha em que para isso fosse convidado. Mostrou-se disponível para recomendar o voto no CDS a todos os portugueses.

Eu conto com Manuel Monteiro, que está de facto empenhado em que o CDS tenha um bom resultado eleitoral e certamente será uma mais-valia durante a campanha. E convidei-o porque, à semelhança de Ribeiro e Castro, foram os que se mostraram disponíveis a colaborar nesta campanha.

Não convidou Paulo Portas?

Para ser candidato não convidei. Acho que ele não teria essa disponibilidade.

Paulo Portas ainda têm influência dentro do partido?

Na medida em que tenho respeito e consideração pelas opiniões de Paulo Portas e sou presidente do CDS, respondo afirmativamente à sua pergunta.

Recentemente vimos sair do Parlamento algumas caras do CDS cujo trabalho servia o país e deveria honrar o partido, nomeadamente Cecília Meireles. De que forma agiu para conseguir impedir que saíssem da Assembleia República?

Não é nenhuma fatalidade que haja políticos que abandonem a vida parlamentar. Aliás, é até saudável que isso aconteça: porque é sinónimo que não estão dependentes da política, não se eternizam nos seus lugares e dão espaço à renovação política. Mal seria se o CDS tivesse hoje o mesmo grupo parlamentar que teve na Assembleia Constituinte.

Relativamente aos deputados que decidiram abandonar: foi um exercício de liberdade. Decidiram tornar público a vontade de não se recandidatarem antes sequer da formulação das listas por parte da direção. Quando iniciei esse processo, já tinha conhecimento da sua indisponibilidade. Ou seja, não foi o presidente que não os convidou. Não se pode falar de uma dispensa da minha parte, porque houve uma antecipação de uma indisponibilidade.

No caso da Cecília – que era a melhor deputada do Parlamento – tive ocasião de dizer publicamente que só não continuaria como deputada se não quisesse. E tomou uma decisão que eu respeito.

Há quem o acuse dentro do CDS de não estar legitimado para eleições. Considera-se legitimado?

Claro que estou completamente legitimado, esse argumento é um absurdo! Mas vem daqueles que nunca me reconheceram a legitimidade desde o dia que eu fui Presidente do partido. O Congresso do CDS vai realizar-se no calendário normal, o que o Conselho Nacional decidiu foi não antecipar esse mesmo Congresso. Estou absolutamente convencido que o partido vai dar uma boa resposta em campanha.

Rio surpreendeu-o com esta virada à esquerda?

Claro que surpreendeu. E sobretudo traiu os eleitores do centro-direita. A expectativa que se criou nos eleitores, quer nos Açores, quer nas eleições autárquicas, foi da formação do bloco alternativo à direita. E o que Rio veio agora dizer é que, afinal, o rumo que tinha seguido era errado e que está disponível para tentar ganhar as eleições com o voto dos socialistas. Alguém que quer ganhar umas eleições com voto socialista é alguém que não está disponível para fazer uma rutura com o socialismo.

Se calhar não é reformista.

Claro, a questão é essa. É um partido situacionista: quer ganhar umas eleições com os votos do PS, que é responsável por 2/3 da nossa governação em democracia e causador dos maiores estragos na governação do país. O PS é o grande responsável pelo atraso de Portugal nas últimas décadas e o Rio decidiu a adotar uma estratégia que se coloca na disposição de manter o PS no poder. Isto para mim é absolutamente inaceitável. O CDS é o único voto que permite ao país ter um governo de direita em Portugal.

Eu não digo que o CDS vai ganhar eleições ou ser o partido mais votado, mas diga que o CDS é único partido capaz de dialogar com o PSD de modo a imprimir um cunho de direita no próximo Governo de Portugal, impedindo que o PSD se entenda com o PS. Porque o PSD não se entende com o Chega e será muito difícil também estabelecer acordos com a IL, como se viu em Lisboa.

Mas Rio sempre foi muito manso com o PS. Não obstante o CDS e PSD terem ido juntos nos Açores e nas Autárquicas, como poderá tê-lo surpreendido assim tanto esta decisão de Rio? Considerando o seu historial, não esperava  já que ele procurasse convergência ao centro?

Eu não posso dizer que o que aconteceu tenha sido uma surpresa absoluta nem que foi uma fatalidade. Pelo contrário: constitui uma oportunidade para o CDS poder afirmar-se autonomamente e definir bem as suas diferenças para o PS. Não vejo isto como uma novidade, mas de facto contraria o percurso recente do PSD. Respeito a decisão, encaro-a com naturalidade e acho que o CDS não deve nada ao PSD nem o PSD ao CDS.

Rui Rio alguma vez lhe garantiu que iam coligados? 

Claro que não, nem eu nunca garanti ao PSD que iríamos em coligação. O que estava em causa era saber se os dois partidos tinham condições para iniciar um diálogo que pudesse culminar numa coligação pré-eleitoral. Era apenas isto: eu estava disponível para me sentar à mesa com o PSD para discutir uma eventual e a coligação pré-eleitoral, e o PSD nem se quis sentar à mesa. 

Mas entre sentar à mesa e não sentar à mesa passaram quase três semanas. Havia esse namorico.

Da minha parte não houve namorico nenhum. De mim houve uma declaração de intenções: estava disponível para construir uma solução alternativa ao PS. O PSD foi ambíguo durante essas semanas. Nós continuamos a nossa vida, amigos como dantes. Mas também quero dizer outra coisa: é que os dirigentes do PSD e do CDS são adversários, mas os eleitores são primos: muitos são da mesma família, mas votam em partidos diferentes – e não são eleitorados de esquerda.

O eleitor do PSD é também um ‘eleitor tipo’ de centro-direita. Portanto, para quem não quer dar votos ao PSD, para quem não quer votar num partido que não dá garantias de derrotar a esquerda ou de tirar a esquerda do poder, pode votar certamente no CDS. Da nossa parte não haverá nem blocos centrais nem arranjinhos com a esquerda – e se nos entendermos com o PSD é para ter uma governação de direita garantidamente. Somos um partido que pode dar respaldo ao eleitor tradicional de centro-direita que não vota por regra no CDS mas que não se identifica nesta guinada à esquerda do PSD.

Diria que o CDS até acaba por sair beneficiado da não coligação com o PSD?

Isto é o normal. Não vejo aqui nenhum benefício. Cumpriu-se a regra normal porque cumpriu-se regra do CDS ir sozinho a eleições. 

Rio já afirmou que é impossível trazer o Chega para um eventual seu governo. Acha que manterá a decisão caso ganhe as eleições?

Acredito que sim. 

Porque é que um eleitor há de votar no CDS e não no Chega?

Em primeiro lugar porque o CDS é um partido democrata cristão – conservador genuíno. Sendo-o, os eleitores podem ter a garantia que nós não vamos aderir a propostas tontinhas nem estouvadas só para fazer ruído e ser falado nos cafés. Um partido que tem na base os valores da doutrina social da igreja não quer castrar pessoas, não quer condená-las à pena de morte ou prisão perpétua, não persegue migrantes ou etnias e não ataca o Santo Padre como faz André Ventura.

Acha que ele usa e abusa da Igreja e da fé para largar soundbites para o eleitorado?

Eu vou usar uma expressão de Rio para definir Ventura: é católico, mas não é crente. Para quem perfilha, como eu, os valores da Doutrina Social da Igreja, não se pode reconhecer no tipo de propostas de Ventura. O CDS é verdadeiramente o único partido pró-vida em Portugal. Sempre foi. Fomos contra o aborto, hoje somos contra a eutanásia. E não é por acaso que Ventura tem um passado bem documentado em defesa do aborto e da eutanásia. O Chega vai ao ponto de apresentar como cabeça de lista em Coimbra alguém que é assumidamente pró-aborto e pró-eutanásia. 

O Chega, quando embarca em tontarias, torna-se num partido perigoso. E em tudo aquilo em que é razoável foi copiar ao CDS. Eles dizem que defendem as forças de segurança: nós fazemo-lo desde 1974. O mesmo quanto ao mundo rural: nós somos o partido que apresentou no Parlamento uma proposta para baixar o IVA da tauromaquia à semelhança de todos os espetáculos culturais, sempre fomos o partido da lavoura, já tivemos ministérios, temos ligações a todas as atividades económicas relacionadas com o setor primário. Fala-se do Chega para o Governo: o Chega nem sequer conseguiu ganhar uma junta de freguesia como é quer ter um ministro? E quem é que iria colocar como ministro, Mário Machado?

Há todo um mundo que separa uma direita responsável e com soluções razoáveis destas excentricidades perigosas que definem partidos demagógicos. Podem estar na moda, mas até desconfio que não morrem de amores pela democracia.

Ventura ficou em terceiro lugar nas presidenciais. Porque é que acha que os portugueses colhem simpatia por André Ventura?

Porque muitas vezes acaba por estar a falar sozinho de temas que interessam às pessoas. E como é o único que apresenta soluções, por mais tontas que sejam, são as únicas que são conhecidas por parte das pessoas. É muito mais fácil em Portugal atingir a infâmia do que a fama. Através da infâmia, Ventura consegue ser falado e muitas vezes quem apresenta soluções razoáveis não consegue.

O CDS, como democrata-cristão, defende os direitos dos refugiados. Mas quando em Portugal se pensa na defesa dos refugiados pensa-se no Bloco ou no PS.  Não deveria o CDS canalizar mais a sua voz para a defesa dos refugiados?

Claro. Mas qualquer pessoa que venham para Portugal tem de respeitar a nossa cultura e os nossos valores. Eu, quando vou à casa de alguém respeito as suas regras. Isto é condição sine qua non. Se vierem por bem – para trabalhar, inseridos no nosso contexto de sociedade e respeitando os nossos valores – naturalmente, devem ser bem acolhidos. Até porque nós sabemos que em Portugal é graças ao recurso da mão-de-obra imigrante que se consegue ter alguns setores – como a agricultura – a funcionar.

Nós não fazemos um discurso como o Bloco de Esquerda, em que achamos que tudo pode vir, que não tem que haver algum controlo da imigração e que as pessoas com culturas radicalmente opostas não podem resultar num problema para o país. Nós temos que ter uma leitura atenta de modo que Portugal receba a imigração - que tem capacidade para receber – mas também de modo a que a nossa matriz seja preservada e respeitada, evitando as situações de conflitos sociais e fraturas graves.

Então o CDS quer mais refugiados?

Não foi isso que eu disse. Disse que Portugal não pode excluir-se deste esforço de cooperação Internacional, e tem condições, até pela identidade do nosso povo – que é altruísta, solidário e acolhedor - de garantir que tudo isto pode ser feito de forma harmónica.

Disse numa entrevista que espera manter os cinco deputados no Parlamento. Considerando as sondagens, não considera o número algo idealista?

O CDS é um partido que já está vacinado contra as sondagens. Aqueles que declaram a morte do CDS, não se preocupem porque nós já estamos habituados a ressuscitar nas urnas. Já aconteceu muitas vezes ao longo da nossa história.

Neste momento aparece sempre o mesmo coro de carpideiras a pedir a morte do CDS. Nós vamos fintá-la, uma vez mais, e vamos mostra nas urnas que estes profetas da desgraça estão enganados. Nós nunca nos orientarmos por sondagens na nossa vida, sempre as desmentimos com resultados eleitorais e eu estou absolutamente convencido que desta vez não será diferente.

O nosso espaço é insubstituível na democracia portuguesa, e não pode ser ocupado por partidos que subvertem e deturpam a verdadeira essência de uma direita nem por outros partidos que votam ao lado da esquerda na maior parte das matérias. Nós não somos nem a Direita que a Esquerda gosta nem a caricatura da Direita que interessa à esquerda.

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